A transformação de resíduos industriais em insumos para a agricultura pode abrir novas oportunidades de negócios no Espírito Santo. A proposta ganhou espaço nas discussões do Grupo de Trabalho 03 (GT03), dedicado à Indústria, Agroecologia e Descarbonização da Cadeia Produtiva, no âmbito da Conferência Nacional Sustentabilidade Brasil 2026. Entre os principais encaminhamentos está a criação de um núcleo permanente para aproximar empresas, produtores rurais, cooperativas e instituições de pesquisa.
A iniciativa pretende ampliar o aproveitamento de materiais que resultam dos processos industriais e que podem ter aplicação em outras atividades econômicas. Entre os exemplos discutidos estão o uso de escórias siderúrgicas na produção de corretivos de solo, o aproveitamento de cinzas de biomassa e subprodutos da mineração, além da utilização de materiais provenientes do setor de rochas ornamentais.
Segundo o assessor técnico da Secretaria de Estado da Cultura (Secult/ES), Valdir Brunelli Valério Junior, que participou das discussões, o desafio é transformar experiências já existentes em alternativas economicamente viáveis, com segurança ambiental e benefícios para diferentes setores produtivos.
“O principal eixo das discussões foi compreender como podemos fortalecer a integração entre a indústria e a agricultura a partir dos princípios da economia circular, criando oportunidades de desenvolvimento econômico, redução de impactos ambientais e geração de benefícios sociais”, explica.
Para a indústria, o aproveitamento desses materiais pode reduzir despesas com a destinação de resíduos, gerar receitas e contribuir para a diminuição das emissões de carbono. Já na agricultura, existe a possibilidade de reduzir custos com insumos e a dependência de produtos importados.
Entretanto, o grupo identificou obstáculos relacionados à regulamentação, à logística, à assistência técnica e ao financiamento. Além disso, os participantes defenderam que as alternativas também sejam acessíveis aos pequenos produtores e às cooperativas.
Proposta prevê núcleo permanente de cooperação
Um dos principais encaminhamentos do GT03 foi a proposta de criação do Hub de Conexão de Economia Circular Industrial e Agricultura Sustentável. A iniciativa prevê uma estrutura de governança com participação da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), por meio do Conselho Temático de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Coemas), e do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper).
O objetivo é reunir empresas, produtores rurais, cooperativas, pesquisadores, instituições financeiras e representantes do poder público para desenvolver projetos conjuntos.
A proposta contempla sete eixos de trabalho. Entre eles estão o levantamento da demanda capixaba por fertilizantes e corretivos de solo, a identificação de coprodutos industriais com potencial de uso agrícola e o aproveitamento de matérias-primas fornecidas pelo campo à indústria, como biomassa, celulose, melaço e resíduos da fruticultura.
Os demais eixos envolvem políticas públicas, responsabilidade social, economia solidária, novos negócios, educação, pesquisa e desenvolvimento tecnológico.
“A economia circular não depende apenas de tecnologias ou processos industriais. Ela exige governança, articulação institucional, conhecimento científico, instrumentos de financiamento e participação dos diferentes agentes envolvidos”, afirma Valério Junior.
Grupo pretende apresentar soluções práticas
Além da proposta do Hub, o GT03 trabalha na elaboração colaborativa de um documento técnico com experiências, desafios e recomendações para orientar projetos e políticas públicas.
Entre os resultados esperados está a apresentação de pelo menos uma recomendação operacional para ampliar uma iniciativa de integração entre indústria e agricultura já existente ou estruturar um novo projeto.
Outro objetivo é identificar alternativas de financiamento que permitam levar essas soluções a mais empresas e produtores. Nesse processo, o grupo considera a participação de cooperativas de crédito, instituições financeiras e fundos de financiamento agropecuário.
Valério Junior destaca que a inclusão dos pequenos produtores precisa acompanhar os avanços tecnológicos e ambientais.
“A inclusão produtiva precisa fazer parte dessa agenda, permitindo que os benefícios econômicos e ambientais da transição sustentável sejam compartilhados de maneira mais ampla.”
As contribuições do GT03 deverão integrar a produção técnica da Conferência Nacional Sustentabilidade Brasil 2026 e fortalecer a participação capixaba nas discussões sobre mudanças climáticas, inclusive na COP31.
Para o assessor, a aproximação entre indústria e agricultura também representa uma oportunidade de diversificar a economia e fortalecer as cadeias produtivas locais.
“É importante compreender que a descarbonização não deve ser tratada apenas como uma agenda de redução de emissões, mas também como uma oportunidade de inovação, diversificação econômica, geração de renda e fortalecimento dos territórios”, conclui.
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