Eventos de El Niño dos últimos 40 anos foram os mais intensos em um milênio

Corais das Ilhas Galápagos revelam aumento de 36,5% na variabilidade do ENSO, impulsionado por episódios mais intensos de El Niño

Os episódios de El Niño das últimas quatro décadas foram mais intensos do que o padrão registrado ao longo dos mil anos anteriores à era industrial. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica Science, que analisou informações preservadas em corais modernos e antigos das Ilhas Galápagos, no Pacífico equatorial oriental.

A pesquisa identificou um aumento de 36,5% na variabilidade do El Niño-Oscilação Sul, conhecido pela sigla ENSO, em comparação com o período pré-industrial. Essa variação mede a amplitude das oscilações entre as fases quente, o El Niño, e fria, a La Niña. Segundo os autores, o crescimento recente foi provocado principalmente por eventos de El Niño mais intensos.

Os resultados indicam que o fortalecimento acompanhou a elevação da temperatura média global e ultrapassou a faixa de variabilidade natural reproduzida por modelos climáticos. Os dados de corais do Pacífico Central também mostraram aumento das oscilações, embora menos acentuado do que o observado nas Galápagos.

“Os grandes El Niños das últimas quatro décadas não são normais no contexto dos últimos mil anos”, afirmou a climatologista Julia Cole, professora da Universidade de Michigan e principal autora do estudo em entrevista à Eurekalert!, plataforma global de distribuição de press releases.

A descoberta ganha importância diante do El Niño de 2026. O fenômeno está em processo de fortalecimento no Pacífico e, segundo boletim divulgado em agosto pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, há mais de 90% de probabilidade de que o evento alcance intensidade muito forte durante o segundo semestre de 2026 e o início de 2027.

Os corais contam histórias

A dificuldade para avaliar mudanças de longo prazo no El Niño está no tamanho do registro instrumental. As medições detalhadas da temperatura do Pacífico abrangem poucas décadas, período insuficiente para distinguir uma tendência provocada pelo aquecimento global de uma oscilação natural mais longa.

Para ampliar essa escala, os pesquisadores analisaram 13 testemunhos de corais das Ilhas Galápagos, incluindo colônias vivas e fragmentos antigos. Localizado no Pacífico oriental, o arquipélago está em uma das regiões nas quais as alterações provocadas pelo El Niño aparecem com maior intensidade.

Os corais crescem pela deposição sucessiva de camadas de carbonato de cálcio. A composição química dessas camadas varia de acordo com as condições do ambiente marinho e funciona como um arquivo natural das temperaturas do oceano.

Os pesquisadores também testaram se o fortalecimento poderia ser explicado apenas por fatores naturais. Mas as simulações não reproduziram um aumento semelhante ao registrado nos corais.

A conclusão não significa que o aquecimento global tenha criado o El Niño ou que cada episódio individual seja provocado pelas emissões humanas. O estudo sugere que o aquecimento do planeta está modificando o ambiente no qual o fenômeno se desenvolve e favorecendo eventos mais intensos.

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