Brechóbra.vix transforma materiais de reformas em doações no Espírito Santo

Criado pela arquiteta Jacque Barros, projeto conecta doadores a organizações sociais e articula o reaproveitamento de itens ainda em condições de uso

O descarte de uma reforma pode reunir muito mais do que entulho. Móveis, aparelhos de ar-condicionado e outros materiais ainda em condições de uso também são retirados porque perderam a função naquele imóvel. Para evitar que esses itens acabem em caçambas, a arquiteta Jacque Barros criou, no Espírito Santo, o Brechóbra.vix, projeto que conecta doadores a instituições sociais e famílias que precisam dos materiais.

Criado em 2022 e agora em retomada, o movimento recebe ofertas de doação, identifica uma instituição interessada e ajuda a articular a retirada e o transporte. O projeto não mantém depósito próprio. A proposta é fazer com que o material saia do local onde não será mais utilizado e siga diretamente para quem poderá reaproveitá-lo. “Em vez de jogar na caçamba, a gente vai transformar o que é velho para um em novo para outros”, resume Jacque.

Apesar do nome, o Brechóbra.vix não funciona como loja. A iniciativa não compra materiais, não mantém estoque e não revende as doações recebidas. O foco principal é estabelecer uma ponte entre quem tem algo para oferecer e instituições que conhecem as necessidades das comunidades onde atuam.

A ideia nasceu durante uma conversa entre Jacque e uma amiga. As duas falavam sobre brechós de roupas, antiquários e formas alternativas de circulação de produtos quando surgiu a possibilidade de aplicar esse princípio aos materiais retirados de construções e reformas. “Na hora, criei o Instagram Brechóbra.vix, que vinha de Brechó da Obra. Foi uma brincadeira, mas depois pensei que, já que tinha criado, precisava estruturar melhor a proposta”, conta.

A partir dessa conversa, Jacque começou a organizar um modelo baseado na economia circular, colaborativa e solidária. Materiais que ainda podem ser usados deixam de ser tratados como resíduos e passam a atender demandas de instituições ou de pessoas acompanhadas por elas.

A arquiteta procurou organizações com as quais já mantinha contato e passou a cadastrá-las no projeto. Entre elas estão a Rede Protagonista, o Instituto Manancial Mãos Unidas e o Grupo Girassóis. As entidades atendem públicos diferentes, como mulheres vítimas de violência, crianças e adolescentes com deficiência e famílias que precisam de apoio. Segundo Jacque, a escolha de trabalhar com instituições facilita a identificação das necessidades e reduz o risco de encaminhar uma doação para quem não poderá utilizá-la.

“As instituições já estão estruturadas e sabem o que a comunidade precisa. Minha preocupação não era apenas prestar assistência, mas ajudar quem trabalha para que as pessoas encontrem caminhos para a própria autonomia”, explica.

Uma das primeiras doações recebidas pelo Brechóbra.vix reuniu 100 carteiras escolares. Parte delas estava quebrada, mas os componentes em condições de uso foram reunidos e reaproveitados. O material resultou em cerca de 60 carteiras destinadas a uma escola atendida pela Rede Protagonista.

Na retomada do projeto, aparelhos de ar-condicionado retirados durante a renovação de um imóvel também foram encaminhados à instituição. Os equipamentos ainda funcionavam e poderiam ser instalados em salas usadas para atividades como aulas de informática. Segundo Jacque, a doação atendia tanto às pessoas que frequentavam as salas quanto à necessidade de manter os computadores em um ambiente com temperatura adequada.

“Quem estava doando explicou que os aparelhos estavam sendo trocados, mas continuavam funcionando. Na instituição, eles chegaram em um momento em que as salas estavam muito quentes”, relata.

Outro encaminhamento ocorreu durante a transformação de duas salas de um antigo escritório de advocacia em consultório odontológico. O mobiliário retirado do local foi destinado a uma instituição de Vila Velha. Parte foi utilizada para organizar a própria sede e outra parte chegou à casa de uma pessoa atendida pela entidade.

Geladeiras, sofás e outros itens domésticos também foram encaminhados a famílias por intermédio do Grupo Girassóis, formado por voluntários de Vitória. Quando o grupo identifica alguém que precisa do material, os participantes ajudam a organizar o transporte.

O Brechóbra.vix não recebe materiais para armazenamento. Em doações de maior volume que não podem ser retiradas imediatamente, Jacque conta com o apoio de um parceiro que cede temporariamente parte de um pátio até que a transferência seja concluída.

A ausência de um depósito exige que o encaminhamento seja planejado antes da retirada. Por isso, quem pretende doar precisa informar as características do material, as condições de uso e o prazo disponível. A partir desses dados, o projeto verifica qual instituição poderá recebê-lo e como o transporte será realizado.

Além das doações, o Brechóbra.vix pode ajudar na intermediação de peças com valor histórico, afetivo ou de design. Essa frente é voltada a objetos específicos, que podem ser desvalorizados em plataformas de venda ou negociados por valores elevados em antiquários.

Jacque afirma, no entanto, que essa atividade não é o centro do projeto. “Meu foco principal não é vender nem ter estoque. Eu não compro e vendo nada. Tento fazer pontes quando existe uma peça com valor histórico para a família, memória afetiva ou importância pelo design”, esclarece.

Uma etapa planejada para o futuro é a criação de um espaço onde móveis e outros objetos possam ser recuperados, adaptados ou transformados antes de serem repassados. A arquiteta já usa o perfil do projeto para apresentar possibilidades de reutilização, mas afirma que a prioridade atual é ampliar a rede de doadores e instituições.

O início

A relação de Jacque com o trabalho voluntário começou antes de sua atuação como arquiteta. Ela atribui parte dessa formação à avó, que vivia em Mimoso do Sul e mantinha o hábito de acolher e ajudar pessoas.

Outra influência veio do período em que estudou no Colégio Salesiano, em Vitória. Localizada em frente ao Morro do Forte São João, a escola recebia crianças da comunidade aos sábados. Jacque participou primeiro das atividades recreativas e, na adolescência, passou a atuar como monitora. “Foi uma experiência que me ensinou, desde cedo, que solidariedade também é presença, convivência e troca”, afirma.

Na vida profissional, ela buscou associar a arquitetura a projetos sociais. Participou de ações em comunidades, do Brechó do Asilo dos Idosos Municipal e da mobilização pela recuperação do prédio do Instituto Braille.

Jacque também atuou como embaixadora da Associação Brasileira de Epilepsia no Espírito Santo e permanece como colaboradora da entidade. Com a redução das atividades à frente da associação, passou a dedicar mais tempo à retomada do Brechóbra.

A arquiteta também levou os filhos para conhecer algumas das instituições com as quais trabalha. Para ela, o voluntariado pode ser aprendido pelo exemplo e não precisa estar separado da profissão ou das atividades cotidianas.

“Não vejo essas experiências como uma coleção de trabalhos voluntários. Elas fazem parte da minha história e da maneira como escolhi olhar para o mundo. Podemos usar nossa profissão, nosso conhecimento, nosso tempo e nossa capacidade de criar soluções”, diz.

Para Jacque, o reaproveitamento dos materiais mostra que uma ação solidária não precisa começar com uma estrutura de grande porte. Pode surgir da identificação de algo que perdeu a utilidade em determinado lugar, mas continua tendo valor para outra pessoa. Solidariedade não é sobre fazer algo extraordinário. É sobre perceber que cada um de nós pode fazer alguma coisa e começar”, conclui.

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