A conta chega quando não deixamos a natureza trabalhar

Rios, florestas, manguezais e solos saudáveis prestam serviços indispensáveis à produção, mas ainda são tratados como recursos gratuitos e inesgotáveis

Por Elias Carvalho – presidente do Instituto Sustentabilidade Brasil (ISB)

Quando uma ponte cede, o prejuízo aparece imediatamente nos balanços públicos e privados. Há gastos com reconstrução, interrupção do transporte, perda de mercadorias e queda na atividade econômica. Quando uma nascente seca, um solo perde fertilidade ou uma floresta deixa de regular o fluxo da água, a conta também chega, embora costume aparecer fragmentada no preço dos alimentos, na tarifa de energia, no custo do seguro, na redução da produtividade e nos cofres públicos.

Essa diferença de percepção ajuda a explicar por que ainda tratamos estradas, portos, barragens e redes elétricas como infraestrutura econômica, enquanto rios, florestas, manguezais, restingas, áreas úmidas e solos saudáveis permanecem relegados quase exclusivamente ao debate ambiental. A natureza, no entanto, também sustenta a produção. Ela armazena água, reduz enchentes, protege encostas, ameniza temperaturas, conserva a fertilidade do solo, abriga polinizadores e ajuda a estabilizar o clima.

Esses serviços não deixam de ter valor econômico porque não emitem uma fatura mensal. O relatório Nature Risk Rising, publicado pelo Fórum Econômico Mundial, estimou que US$ 44 trilhões em geração de valor econômico, mais da metade do Produto Interno Bruto mundial na época do levantamento, dependiam moderada ou fortemente da natureza e dos serviços prestados pelos ecossistemas. Agricultura, construção civil e indústria de alimentos estavam entre os setores mais expostos. O dado revela que a perda de biodiversidade não representa somente uma ameaça ecológica, mas também um risco produtivo, financeiro e fiscal.

No Brasil, essa dependência é ainda mais evidente. Estudo divulgado pelo Banco Mundial em 2025 apontou que o setor agropecuário responde por aproximadamente 8,4% do PIB brasileiro, 16,2% dos empregos e 40% das exportações. Quando considerada toda a cadeia agroalimentar, que inclui insumos, processamento, transporte, comércio e serviços, a participação chega a cerca de 22% do PIB. Trata-se de uma estrutura econômica diretamente ligada à disponibilidade de água, à fertilidade do solo, à regularidade das chuvas e à conservação da biodiversidade.

A polinização oferece um exemplo concreto desse valor. Relatório da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos e da Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador estimou em R$ 43 bilhões o valor econômico desse serviço para a produção de alimentos no país em 2018. Aproximadamente 80% do montante estava associado a quatro culturas, soja, café, laranja e maçã. Abelhas e outros polinizadores, portanto, não são apenas componentes da biodiversidade. Eles fazem parte da infraestrutura produtiva do agronegócio brasileiro.

A água mostra a mesma conexão. Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, o Brasil retirou dos mananciais 64,18 trilhões de litros em 2022. A irrigação respondeu por 50,5% desse volume, o abastecimento urbano por 23,9% e a indústria por 9,4%. Juntos, esses três usos representaram aproximadamente 84% da retirada de água no país. Quando uma bacia hidrográfica é degradada, a consequência não fica restrita à paisagem. Aumentam os custos de captação e tratamento, cresce a necessidade de irrigação e são ameaçadas a produção industrial e a segurança do abastecimento.

O risco também alcança o sistema financeiro. Estudo do Banco Mundial sobre riscos associados à natureza no Brasil identificou que 46% da carteira de crédito dos bancos destinada a empresas não financeiras estava concentrada em setores altamente ou muito altamente dependentes de pelo menos um serviço ecossistêmico. Quando faltam água, estabilidade climática, fertilidade do solo ou proteção contra enchentes, não sofre apenas quem produz. Aumentam o risco de inadimplência, o custo do crédito e a exposição das instituições financeiras.

O custo da omissão já pode ser medido. Pesquisa com participação de cientistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais analisou cerca de 60 mil registros oficiais de eventos relacionados à água ocorridos no Brasil entre 1991 e 2024. Inundações, alagamentos, enxurradas, tempestades, deslizamentos e secas provocaram prejuízos superiores a R$ 740 bilhões e afetaram diretamente quase 130 milhões de pessoas. As secas corresponderam a 53,6% dos registros e concentraram 58,5% das perdas econômicas.

Nem todo desastre pode ser evitado e seria incorreto atribuir cada ocorrência isoladamente à degradação ambiental ou à mudança do clima. A dimensão das perdas, contudo, depende da maneira como o território é ocupado, da conservação das bacias hidrográficas, da proteção de encostas, da capacidade de drenagem das cidades e da existência de políticas de prevenção. O evento pode ser natural. A transformação desse evento em tragédia econômica guarda relação direta com decisões humanas.

Por isso, a infraestrutura ambiental precisa entrar no planejamento público e empresarial com a mesma seriedade dedicada à infraestrutura construída. Recuperar matas ciliares, proteger nascentes, conservar áreas úmidas, restaurar manguezais, melhorar o manejo do solo e ampliar a arborização urbana não substituem obras de engenharia. Essas ações complementam as obras convencionais, reduzem sua sobrecarga e prolongam sua vida útil.

Síntese publicada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente aponta que cada dólar investido na restauração de ecossistemas pode gerar até 30 dólares em benefícios econômicos, com ganhos relacionados à produtividade agrícola, à disponibilidade de água e à redução da degradação da terra. O retorno varia conforme o ecossistema, o território e a qualidade do projeto, mas o princípio permanece válido. Prevenir perdas costuma custar menos do que reconstruir cidades, socorrer produtores e recuperar sistemas de abastecimento.

O debate econômico, portanto, precisa avançar para além da falsa escolha entre produzir e preservar. A pergunta correta é como produzir mais, gerar empregos e elevar a renda sem destruir os recursos que tornam essa produção possível. Uma política ambiental mal elaborada pode criar lentidão, insegurança jurídica e custos desnecessários. A resposta, porém, não é eliminar regras, e sim construir normas claras, prazos definidos, capacidade técnica, fiscalização eficiente e decisões baseadas em evidências.

O licenciamento ambiental, quando conduzido com qualidade, também protege investimentos. Ele identifica riscos antes que o dinheiro seja aplicado, reduz a probabilidade de paralisações futuras, evita conflitos e oferece maior segurança às empresas, às comunidades e ao poder público. Desenvolvimento econômico duradouro exige previsibilidade, e não a transferência dos custos ambientais para a sociedade.

Também é necessário rever a forma como os orçamentos públicos classificam esses gastos. Recuperação de bacias, prevenção de desastres, saneamento, monitoramento climático e restauração de ecossistemas não deveriam ser tratados como despesas secundárias, acionadas somente quando sobra dinheiro. São investimentos na continuidade da atividade econômica, na estabilidade das receitas públicas e na redução de passivos futuros.

O setor financeiro pode contribuir ao incorporar os riscos ambientais à concessão de crédito, apoiar produtores na adoção de práticas sustentáveis e criar instrumentos para financiar restauração, eficiência hídrica, agricultura de baixo carbono e soluções baseadas na natureza. O poder público, por sua vez, deve oferecer segurança jurídica, assistência técnica, pesquisa, planejamento territorial e mecanismos de pagamento por serviços ambientais.

O relatório State of Finance for Nature 2026, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, mostra o tamanho da distorção global. Em 2023, para cada dólar destinado à proteção ou à recuperação da natureza, outros 30 dólares financiaram atividades consideradas prejudiciais aos ecossistemas. Foram US$ 7,3 trilhões direcionados a fluxos econômicos negativos para a natureza, diante de US$ 220 bilhões investidos em soluções baseadas na natureza. O problema, portanto, não está apenas na falta de recursos. Está também na direção dada ao dinheiro disponível.

O Banco Mundial estima que o Brasil precisaria de investimentos líquidos equivalentes a 0,8% do PIB por ano até 2030 para avançar em uma trajetória de desenvolvimento resiliente e de baixo carbono. O mesmo estudo destaca que parte relevante desses investimentos seria compensada pela redução de gastos com energia, congestionamentos, poluição e impactos climáticos. Investir em sustentabilidade não significa retirar recursos da economia. Significa direcioná-los para reduzir riscos, elevar a eficiência e criar novas oportunidades produtivas.

No Instituto Sustentabilidade Brasil, defendemos que a proteção ambiental seja compreendida como uma estratégia de desenvolvimento. Um rio preservado abastece cidades e propriedades rurais. Uma floresta em pé regula a água e protege o solo. Um manguezal conservado sustenta a pesca e reduz a força das marés. Uma cidade arborizada diminui o calor, melhora a saúde e reduz o consumo de energia.

A economia pode ignorar esses serviços durante algum tempo, mas não pode substituí-los integralmente. Quando a natureza deixa de trabalhar, empresas, famílias e governos precisam pagar por aquilo que antes recebiam silenciosamente. E, quase sempre, a conta da emergência é muito maior do que teria sido o investimento na prevenção.

Receba as principais notícias sobre sustentabilidade no seu WhatsApp! Basta clicar aqui