Planta encontrada no rio Doce é identificada como nova espécie após 12 anos

Oplonia doceana ocorre apenas nas montanhas do leste de Minas Gerais e representa o primeiro registro do gênero no Brasil

Uma planta de flores vermelhas encontrada nos campos rupestres do médio rio Doce foi identificada como uma nova espécie após permanecer 12 anos sem classificação. Batizada de Oplonia doceana, ela ocorre exclusivamente na região da Serra do Padre Ângelo, entre os municípios mineiros de Conselheiro Pena e Alvarenga, e representa o primeiro registro do gênero Oplonia no Brasil.

A descrição foi publicada em 3 de julho na revista científica Plant Systematics and Evolution. O estudo amplia a distribuição conhecida do gênero na América do Sul e reforça a importância das montanhas do leste de Minas Gerais para a conservação da biodiversidade da Mata Atlântica.

A planta foi coletada pela primeira vez em 2013, durante uma expedição à Serra do Padre Ângelo. Desde então, pesquisadores compararam exemplares, consultaram especialistas e revisaram a literatura científica na tentativa de determinar sua identidade.

“Desde a primeira coleta, eu sabia que aquela planta era diferente. Passei muitos anos tentando descobrir sua identidade, comparando espécimes, consultando especialistas e revisando a literatura. É muito gratificante ver esse quebra-cabeça finalmente resolvido”, afirma o botânico Paulo Gonella, pesquisador do Instituto Nacional da Mata Atlântica e primeiro autor do estudo.

Parentesco com espécie dos Andes

As análises revelaram que a espécie brasileira possui parentesco mais próximo com uma planta encontrada na Argentina e na Bolívia do que com outras espécies conhecidas da flora nacional.

Até a publicação do estudo, o gênero Oplonia havia sido registrado em países andinos, no Caribe, em Madagascar e em algumas regiões das Américas Central e do Sul. Não havia, porém, nenhum registro confirmado no Brasil.

O resultado levanta novas questões sobre a evolução e a distribuição da flora sul-americana. Segundo os pesquisadores, estudos adicionais poderão ajudar a compreender como espécies aparentadas passaram a ocupar áreas geograficamente distantes.

Nome homenageia o rio Doce

O nome Oplonia doceana faz referência à bacia do rio Doce, onde estão localizadas as populações conhecidas da espécie. A escolha também procura chamar a atenção para a riqueza ambiental de uma região marcada historicamente pela degradação e por impactos ambientais.

“Dar esse nome foi uma forma de homenagear uma região que, apesar de profundamente transformada ao longo de sua história, continua revelando espécies únicas. Cada nova descoberta reforça o enorme valor biológico do médio rio Doce e a necessidade de ampliar os esforços para sua conservação”, destaca Gonella.

A Serra do Padre Ângelo e as montanhas vizinhas têm se consolidado como uma área de interesse para a ciência. Mais de 40 espécies de plantas foram descritas na região na última década, além de insetos e outros animais. Parte dessas espécies ocorre exclusivamente nessas formações montanhosas.

Planta já está ameaçada de extinção

Os pesquisadores classificaram a Oplonia doceana como “Em Perigo de Extinção”, com base nos critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza. A planta foi localizada em poucas populações, todas restritas aos campos rupestres quartzíticos do médio rio Doce.

Esses ambientes estão entre os ecossistemas mais ameaçados e menos estudados da Mata Atlântica. Grande parte da região ainda não possui proteção oficial e enfrenta incêndios, avanço de espécies invasoras e desmatamento.

“O mais preocupante é que ainda estamos descobrindo espécies novas em uma região que sofre pressões constantes. Muitas delas podem desaparecer antes mesmo de serem conhecidas pela ciência. A taxonomia é o primeiro passo para conservar a biodiversidade, porque só é possível proteger aquilo que conhecemos”, afirma o pesquisador.

A identificação exigiu novas expedições, colaboração entre especialistas, análise de coleções biológicas e estudos moleculares. Para os autores, o caso demonstra que áreas ainda pouco exploradas da Mata Atlântica podem guardar espécies desconhecidas e reforça a necessidade de preservar as montanhas do médio rio Doce.

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