Os Grupos de Trabalho da Conferência Nacional Sustentabilidade Brasil 2026 (CNSB 2026) começaram nesta quinta-feira (25), na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em Vitória. A etapa no Espírito Santo marca o início da construção técnica das propostas que serão debatidas ao longo da programação nacional. A abertura oficial da conferência será realizada no dia 13 de julho, em Natal, no Rio Grande do Norte.
A programação da CNSB 2026 prevê a abertura oficial da conferência e lançamento dos GTs em Natal no dia 13 de julho, o lançamento dos Grupos de Trabalho em Campina Grande, na Paraíba, em 16 de julho, e o encerramento nacional nos dias 27 e 28 de outubro, na Ufes, em Vitória.
Na etapa capixaba, quatro grupos iniciaram os debates sobre temas ligados ao financiamento climático, mercado de carbono, povos tradicionais, manguezais, descarbonização produtiva e valorização dos biomas brasileiros. A proposta é reunir especialistas, instituições públicas, representantes do setor produtivo, lideranças tradicionais, pesquisadores e comunidades para transformar discussões em propostas práticas.
Os GTs foram estruturados para organizar diagnósticos, dados, experiências locais e conhecimento técnico. O objetivo é formular caminhos que possam orientar políticas públicas, projetos financiáveis, estratégias institucionais e novos modelos de atuação para o setor público, o setor privado e a sociedade civil.
Nesta primeira fase, os grupos discutem financiamento de projetos de povos tradicionais, carbono azul em manguezais, descarbonização da cadeia produtiva e integração entre Caatinga e carbono azul. Os temas dialogam com os desafios brasileiros diante da agenda climática, especialmente em relação ao acesso a recursos, à mensuração de ativos ambientais, à inclusão de comunidades locais e ao reconhecimento dos biomas como infraestrutura climática.
O Grupo de Trabalho 1 trata do financiamento de projetos de povos tradicionais. Integrado à trilha Financiamento e Carbono, o grupo discute a dificuldade enfrentada por comunidades indígenas e quilombolas para acessar crédito, editais e fundos, mesmo quando já contam com projetos produtivos e ambientais estruturados.
A discussão parte da necessidade de criar instrumentos financeiros mais compatíveis com as formas de organização, garantias, prazos e modos de decisão dessas comunidades. Com a participação do Bandes, de representantes do Fundo Soberano do Espírito Santo, lideranças indígenas e quilombolas, especialistas em direito de povos tradicionais e profissionais de crédito social produtivo, o GT trabalha na construção de propostas piloto para aproximar o financiamento das realidades dos territórios.
O debate envolve questões como burocracia, documentação, logística, autonomia comunitária e respeito aos modos próprios de organização. Na prática, o grupo discute como fazer com que os recursos cheguem aos territórios sem impor modelos externos e sem desconsiderar a cultura, a governança e as prioridades das comunidades.
O Grupo de Trabalho 2 tem como tema carbono azul e projetos bancáveis em manguezais. Inserido na trilha Biomas como Infraestrutura Climática, o GT discute como os manguezais capixabas podem gerar créditos de carbono azul com base científica, segurança metodológica e viabilidade financeira.
O objetivo é construir um pipeline de projetos que considere metodologia de mensuração adequada ao bioma, mapeamento de áreas prioritárias, projeção financeira e estrutura de governança com participação das comunidades locais. A proposta reconhece os manguezais não apenas como áreas de preservação ambiental, mas como ecossistemas capazes de prestar serviços climáticos mensuráveis e gerar oportunidades econômicas sustentáveis.
O Grupo de Trabalho 3 discute indústria, agroecologia e descarbonização da cadeia produtiva. O foco está na estruturação de arranjos concretos de economia circular entre indústria e agro, nos quais subprodutos industriais possam ser reaproveitados como insumos agrícolas de menor custo e menor emissão.
A discussão parte de experiências reais já em operação, como casos ligados à ArcelorMittal, para avaliar o que impede a ampliação dessas soluções. O grupo também debate como financiar a expansão desse modelo para cooperativas e pequenos produtores, criando alternativas capazes de reduzir emissões, diminuir custos no campo e abrir novas fontes de receita para a indústria.
O Grupo de Trabalho 4 trata da integração entre Caatinga e carbono azul, com foco em mercado, MRV e integridade. O termo MRV se refere aos processos de mensuração, relato e verificação, considerados fundamentais para dar credibilidade a projetos climáticos e ambientais.
O GT parte da compreensão de que Caatinga e manguezal são biomas distintos, mas compartilham um mesmo desafio. Ambos precisam ser reconhecidos internacionalmente como infraestrutura climática de valor mensurável. A proposta é produzir um capítulo do relatório “Biomas do Brasil como Infraestrutura Climática”, integrando dados científicos, saberes tradicionais e metodologia adequada à diplomacia climática na COP31.
Com os quatro grupos, a CNSB 2026 inicia sua agenda técnica com uma abordagem voltada à construção de soluções. Em vez de tratar sustentabilidade apenas como discurso institucional, os GTs buscam organizar propostas capazes de dialogar com financiamento, governança, ciência, território e mercado.
A abertura dos Grupos de Trabalho na Ufes também reforça o papel do Espírito Santo na discussão sobre clima, biomas e desenvolvimento sustentável. Ao reunir temas como povos tradicionais, manguezais, agroindústria, carbono azul e Caatinga, a etapa amplia o debate sobre como transformar ativos ambientais, experiências produtivas e conhecimento territorial em projetos concretos, financiáveis e socialmente justos.
O início dos GTs no Espírito Santo inaugura uma fase de construção coletiva dentro da programação da CNSB 2026. A etapa busca responder a um dos principais desafios da agenda climática brasileira. Como financiar, medir e valorizar soluções ambientais sem afastá-las dos territórios, das comunidades e das realidades produtivas onde elas acontecem.
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