Financiamento para povos tradicionais exige crédito menos engessado e respeito aos territórios

Grupo de Trabalho 1 da Conferência Nacional Sustentabilidade Brasil 2026 vai discutir propostas para aproximar instituições de fomento de projetos indígenas e quilombolas, com foco em autonomia, diversidade e formas próprias de organização

O financiamento de projetos indígenas e quilombolas não depende apenas de mais dinheiro disponível. Depende, antes, de uma mudança na forma como bancos, fundos e instituições de fomento enxergam os territórios. Essa será a discussão central do Grupo de Trabalho 1 — Financiamento de Projetos de Povos Tradicionais, que acontece nesta quinta-feira (25), no início da Conferência Nacional Sustentabilidade Brasil 2026, na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em Vitória.

Para Sandro Baré, diretor financeiro do Fundo Indígena da Amazônia Brasileira (Podáali), o problema passa pela burocracia, pela distância entre financiadores e comunidades e pela falta de instrumentos adaptados à realidade dos territórios. Paulo Tupiniquim, coordenador-geral da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme) e coordenador do GT1, avalia que há ainda uma concentração de recursos na Região Amazônica e uma dificuldade histórica de reconhecer a vulnerabilidade de povos indígenas e quilombolas em outros biomas.

O GT1 integra a trilha Financiamento e Carbono da conferência e parte de um diagnóstico direto. Muitas comunidades indígenas e quilombolas já têm projetos produtivos, ambientais e institucionais bem estruturados, mas encontram dificuldade para acessar crédito, editais e fundos. O entrave, na maioria dos casos, não está na ausência de propostas, e sim na falta de instrumentos financeiros compatíveis com suas formas de organização, garantias, prazos e modos próprios de execução.

Com a participação do Bandes, de representantes do Fundo Soberano do Espírito Santo, lideranças indígenas e quilombolas, especialistas em direito de povos tradicionais e profissionais de crédito social produtivo, o grupo pretende construir propostas para que projetos saiam do papel sem desrespeitar a autonomia das comunidades.

Entraves da burocracia

Segundo Sandro Baré, uma das principais barreiras é a burocracia exigida por financiadores. Muitas organizações ainda enfrentam pendências fiscais e falta de estrutura administrativa mínima para executar projetos.

“Tem organizações que não têm CNPJ. Muitos financiadores pedem que a organização esteja estruturada, com o mínimo para executar, como uma conta bancária de pessoa jurídica”, explica Baré.

Além da documentação, a logística é um fator pouco considerado por quem está fora dos territórios. “Existem territórios bem distantes das cidades, com custo alto de combustível e frete. Essas distâncias são um fator importante para que os apoios e financiamentos não cheguem aos territórios”, afirma.

Na avaliação de Baré, os projetos que mais precisam de aporte financeiro incluem fortalecimento institucional das organizações, iniciativas voltadas para mulheres e jovens, saúde mental, soberania alimentar e ações que valorizem práticas já existentes dentro das comunidades.

Para ele, investir na estrutura das organizações é uma forma de fortalecer também o território. Isso significa apoiar a base administrativa, a capacidade de gestão, a elaboração de projetos e as condições para que as próprias comunidades possam acessar recursos, executar ações e prestar contas.

Outro ponto sensível é a juventude. Baré observa que a chegada da internet aos territórios trouxe oportunidades, mas também novos desafios. “Um trabalho voltado para os jovens é muito importante. O acesso à internet chegou aos territórios indígenas, e muitos jovens estão deixando de lado sua cultura, sua língua e os conhecimentos dos mais velhos”, avalia.

Já Paulo Tupiniquim chama atenção para a desigualdade na distribuição dos recursos. Segundo ele, grande parte dos apoios voltados a projetos indígenas está concentrada na região Norte, especialmente na Amazônia, enquanto povos de outras regiões enfrentam mais dificuldade de acesso.

Para o coordenador da Apoinme, essa lógica deixa de reconhecer que povos indígenas e comunidades quilombolas de diferentes biomas também vivem sob ameaça de grandes empreendimentos, desmatamento, degradação ambiental, insegurança hídrica e perda de território.

“Quando se trata de povos indígenas e quilombolas, todas as áreas são áreas de vulnerabilidade. São áreas sob risco de grandes empreendimentos, de desmatamento e de outras ameaças”, afirma Paulo.

Ele defende que financiadores e doadores reconheçam a complexidade e a diversidade de cada território. Para Tupiniquim, não é possível tratar comunidades distintas com formulários, critérios e exigências padronizadas, como se todas tivessem a mesma estrutura, os mesmos problemas e as mesmas condições de acesso.

Entre os projetos mais urgentes, ele cita iniciativas de desenvolvimento sustentável dentro dos territórios, abastecimento de água, recuperação de áreas degradadas, proteção de nascentes e rios e ações ambientais. “É importante que essas organizações estejam fortalecidas para que possam fazer a captação e cuidar dos seus territórios”, diz.

O coordenador do GT1 também defende editais e linhas específicas para populações indígenas, povos e comunidades tradicionais. Segundo ele, no Espírito Santo, o acesso a recursos de bancos públicos e privados ainda é muito limitado, e muitas oportunidades acabam concentradas em editais nacionais, nos quais as organizações locais precisam competir com instituições de todo o país.

Flexibilidade no crédito

Para Sandro Baré, a principal mudança nas linhas de crédito deve ser a flexibilidade. Ele critica modelos que chegam aos territórios com regras prontas e pouca disposição para compreender realidades locais.

“É preciso entender a realidade dos territórios. Não dá para chegar com algo engessado dizendo que precisa executar daquela forma. A realidade nos territórios é muito diferente”, afirma.

Na mesma linha, Baré defende simplificação dos processos, melhoria nos formulários, maior facilidade de acesso e reconhecimento das especificidades de cada povo. Para ele, a burocracia não pode ser uma barreira que impeça comunidades de acessar recursos destinados justamente à proteção de seus territórios e à melhoria de suas condições de vida.

O papel das instituições de fomento, nesse contexto, deve ir além da abertura de linhas de crédito. Baré avalia que as instituições precisam construir diálogo direto com as comunidades. “A partir do diálogo, você ouve e discute o que está sendo trabalhado nos territórios. Existem muitos projetos planejados, mas, se a gente não sentar para discutir de que forma se dará a execução, dificilmente esses projetos vão sair do papel”, afirma.

Caminhos do dinheiro

Um dos desafios centrais do GT1 será justamente apontar caminhos para que o dinheiro chegue às comunidades sem impor modelos externos. Para Baré, fundos indígenas e organizações representativas podem funcionar como pontes mais seguras, porque conhecem as lideranças, os protocolos culturais e os limites de atuação em cada território.

Ele lembra que não basta depositar recursos e exigir execução imediata. Há processos de consulta, pactuação, respeito às lideranças e compreensão das diferenças entre territórios.

“Cada caso é um caso. Existem peculiaridades, e a gente só vai conseguir trabalhar isso de forma eficaz com parceria, por exemplo, com fundos indígenas, que já têm essa dinâmica e sabem como chegar aos territórios”, explica.

O debate que chega à Conferência Nacional Sustentabilidade Brasil 2026, portanto, não é apenas financeiro. É também político, territorial e institucional. O GT1 parte da ideia de que crédito para povos tradicionais não pode repetir a lógica convencional do sistema financeiro. Precisa considerar tempo, cultura, deslocamento, autonomia, governança própria, segurança jurídica e confiança.

A discussão coloca diante das instituições de fomento o questionamento de como financiar quem protege territórios, águas, florestas, alimentos, culturas e modos de vida sem obrigar essas comunidades a caberem em modelos que nunca foram pensados para elas.

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