Estudo revela o que torna plantas mais vulneráveis às mudanças do ambiente

Pesquisa publicada na Nature Communications mostra que variações na aridez podem pesar mais do que características das próprias espécies na capacidade de resistir às mudanças ambientais

Por que algumas populações de plantas conseguem atravessar períodos de seca, calor ou alterações nas chuvas sem grandes impactos, enquanto outras sentem muito mais essas mudanças? Um estudo publicado na revista científica Nature Communications mostra que parte importante da resposta pode estar menos nas características das espécies e mais na intensidade das variações do ambiente onde elas vivem.

A pesquisa analisou 121 populações naturais de 78 espécies de plantas e concluiu que a variação na aridez é um dos fatores que mais ajudam a explicar a capacidade dessas populações de resistir às oscilações ambientais.

Em termos simples, não importa apenas se determinada planta vive em uma região mais seca ou mais úmida. A irregularidade das condições que ela enfrenta ao longo do tempo também faz diferença. Quanto maior a variação na aridez, menor tende a ser a capacidade da população de absorver essas mudanças sem sofrer impactos importantes.

Esse resultado ganhou peso quando os pesquisadores compararam o ambiente com as próprias características das plantas. O efeito estimado da variação na aridez foi mais de três vezes superior ao de um dos principais indicadores usados para classificar as estratégias de vida das espécies, que diferencia plantas de crescimento rápido e vida curta daquelas de crescimento mais lento e maior longevidade.

Ou seja, saber como uma espécie cresce, se reproduz e quanto tempo vive ajuda a compreender sua resistência, mas não conta toda a história. As condições que ela enfrenta no ambiente podem pesar ainda mais. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores estudaram o chamado “amortecimento demográfico”. 

Imagine uma população de plantas enfrentando anos muito diferentes entre si. Em um período há mais chuva; em outro, menos. Temperaturas também oscilam. Uma população com maior capacidade de amortecimento consegue passar por essas mudanças sem que sua sobrevivência, crescimento e reprodução sofram grandes alterações. Outra, menos protegida, sente muito mais os efeitos dessas oscilações.

Entre as 121 populações analisadas, os cientistas encontraram diferenças enormes nessa capacidade de resistência. Uma das explicações é que determinadas características podem ter surgido ao longo de milhares de anos como respostas a condições ambientais relativamente conhecidas. Com mudanças mais rápidas e ambientes mais irregulares, estratégias que funcionaram no passado podem não oferecer a mesma proteção hoje ou no futuro.

É como se uma espécie carregasse uma espécie de “manual de sobrevivência” construído ao longo da evolução, mas passasse a enfrentar condições diferentes daquelas para as quais o manual foi escrito.

O trabalho tem participação brasileira. O primeiro autor, Gabriel Silva Santos, está vinculado ao Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), localizado em Santa Teresa, além da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade de Oxford.

Os cientistas trabalharam com informações de populações naturais disponíveis no banco internacional Compadre e cruzaram os dados demográficos das plantas com informações ambientais de temperatura e precipitação.

Os próprios autores reconhecem limitações. Há maior disponibilidade de estudos de longo prazo sobre plantas perenes e de regiões temperadas, enquanto América do Sul e África ainda possuem grandes lacunas de informação. Os dados também não permitem transportar os resultados diretamente para uma cultura agrícola ou afirmar como determinada espécie reagirá a uma seca ou onda de calor.

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