Relatórios extensos podem ampliar dados sem esclarecer geração de valor, alerta especialista

Antonio Emilio Freire critica métricas ajustadas, compromissos ESG sem materialidade financeira e indicadores que não ajudam investidores a compreender o desempenho econômico das empresas

O aumento do volume de relatórios, indicadores de desempenho e compromissos ambientais, sociais e de governança não significa, necessariamente, que investidores e demais interessados consigam compreender melhor a situação econômica de uma empresa. Em artigo publicado recentemente no LinkedIn, Antonio Emilio Freire, head de asseguração da RP Management, alerta para o risco de as companhias confundirem abundância de informações com transparência.

Segundo Freire, uma empresa pode divulgar centenas de páginas, dezenas de indicadores de desempenho, metas ESG, métricas ajustadas e painéis de acompanhamento sem responder a questões fundamentais sobre geração de caixa, remuneração do capital investido e criação efetiva de valor.

“Finalmente chegamos à era em que uma empresa consegue divulgar 300 páginas, 80 KPIs, 12 metas ESG, seis métricas ajustadas, quatro dashboards, três releases e ainda assim não responder à pergunta mais simples do investidor: isso gera caixa, remunera capital e cria valor real?”, questiona.

A crítica não está relacionada à quantidade de informações disponibilizadas, mas à ausência de uma estrutura que permita compreender quais números são realmente relevantes para a avaliação do negócio. Na visão do especialista, relatórios corporativos devem reduzir incertezas e apoiar decisões, em vez de apenas aumentar a complexidade das análises. “Informação útil reduz incerteza. A informação ilusória aumenta a complexidade”, afirma.

Entre os problemas apontados estão a utilização de indicadores ajustados sem reconciliação com as demonstrações financeiras, metas que não apresentam os investimentos necessários para serem cumpridas, compromissos ESG sem conexão com impactos econômicos e resultados contábeis que não se convertem em geração de caixa.

Freire também chama atenção para o uso recorrente de ajustes classificados pelas empresas como extraordinários ou não recorrentes. Esses mecanismos podem ser úteis quando ajudam a explicar acontecimentos específicos, mas perdem credibilidade quando são utilizados repetidamente para proteger a narrativa sobre o desempenho da companhia.

“Quando o ajuste explica a realidade, ele é útil. Quando o ajuste protege a narrativa, ele vira gerenciamento de percepção”, avalia.

Para o especialista, a repetição anual de despesas ou eventos apresentados como excepcionais deve ser examinada com cautela. Nesses casos, o investidor precisa avaliar se os ajustes realmente representam situações pontuais ou se fazem parte da operação habitual da empresa.

A mesma análise deve ser aplicada às informações relacionadas a fatores ambientais, sociais e de governança. Compromissos climáticos, metas de sustentabilidade e indicadores sociais precisam demonstrar de que maneira podem afetar investimentos, custos, riscos e resultados.

Entre os aspectos que deveriam ser considerados estão os impactos sobre despesas de capital, margens operacionais, provisões, redução do valor recuperável de ativos, custos de energia, custo de capital e avaliação da empresa. “Sem impacto financeiro material, o disclosure ESG pode ser reputacionalmente bonito e economicamente decorativo”, afirma Freire.

A abordagem está alinhada ao avanço de normas e padrões que buscam integrar informações financeiras e de sustentabilidade. Para o autor, porém, o cumprimento formal das exigências de divulgação não garante que o relatório seja útil para a tomada de decisões.

O ponto central está na capacidade de explicar como os riscos ambientais, sociais e de governança podem alterar a estratégia, os investimentos e a geração de resultados da companhia.

Outro problema destacado é a apresentação de grandes conjuntos de indicadores sem que a empresa esclareça a função de cada um. Na avaliação de Freire, os relatórios deveriam organizar as informações de acordo com aquilo que medem, como crescimento, eficiência, liquidez, risco e criação de valor.

Sem essa hierarquia, investidores podem receber uma grande quantidade de números sem conseguir identificar quais deles demonstram a capacidade da empresa de crescer, cumprir suas obrigações e remunerar os recursos aplicados no negócio. “O investidor não precisa de uma coleção de indicadores. Precisa de uma arquitetura de valor”, sustenta.

Essa arquitetura também deveria estabelecer uma ponte entre a narrativa apresentada pela administração, as demonstrações financeiras, o capital investido e a geração de caixa. A existência de lucro contábil, isoladamente, não comprova que a empresa criou valor para seus acionistas.

Freire utiliza o Valor Econômico Agregado, conhecido pela sigla EVA, como exemplo de indicador capaz de aprofundar essa avaliação. Enquanto o lucro contábil mostra se a companhia apresentou resultado positivo, o EVA considera se o desempenho foi suficiente para remunerar o custo do capital utilizado.

Uma empresa pode, portanto, apresentar lucro e ainda assim destruir valor econômico, caso o retorno obtido seja inferior ao custo dos recursos investidos no negócio.

“O EVA pergunta se esse resultado foi suficiente para remunerar o capital investido”, explica.

A análise exige observar não apenas receitas, despesas e lucro, mas também impostos, custos operacionais, investimentos realizados e o retorno mínimo esperado por acionistas e financiadores.

Para Freire, a transparência corporativa não deve ser medida pelo tamanho dos relatórios ou pela quantidade de indicadores publicados. O critério principal deve ser a capacidade de permitir que terceiros entendam a realidade econômica da companhia, os riscos assumidos e a maneira como a estratégia pode gerar resultados. “A verdadeira transparência não está no volume. Está na capacidade de permitir que terceiros entendam a realidade econômica do negócio”, afirma.

Receba as principais notícias sobre sustentabilidade no seu WhatsApp! Basta clicar aqui