
Com o tema: “A Mata Atlântica em transformação: biodiversidade, mudanças climáticas e o futuro dos ecossistemas”, a 13ª edição do Simpósio sobre a Biodiversidade da Mata Atlântica (Simbioma) reuniu professores, pesquisadores e alunos durante três dias em Santa Teresa, ES. O evento é organizado pela Associação de Amigos do Museu de Biologia Mello Leitão (SAMBIO) e pelo Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA).
A palestra de abertura, apresentada pelo professor da Universidade de São Paulo Jean Paul Metzger, alertou sobre o avanço do desmatamento no bioma Mata Atlântica. “Isso é espantoso e perigoso, porque estamos falando de uma área de alta governança. Temos todo um arcabouço de instrumentos políticos e, mesmo assim, temos essa perda espantosa de matas maduras. Esse desmatamento ilegal está ocorrendo ao nosso lado. São fragmentos pequenos – menos de 6 hectares – e esses menos de 6 hectares se multiplicam e acabam se tornando 18 mil hectares por ano. Então, qual é esse cenário futuro? Um cenário em que o novo licenciamento vai facilitar ainda mais o desmatamento? Ou é um cenário em que vamos aprender com o passado, fazer novos combos de instrumentos econômicos e de comando e controle?”
Os estudos de Metzger revelam que, mesmo áreas de restauração acabam sendo desmatadas pouco tempo depois. “Nós perdemos metade das áreas regeneradas em oito anos. Então não apenas o controle do desmatamento de matas maduras precisa ser efetivo, mas também precisamos entender quais são as políticas de manutenção das regenerações ou das restaurações.”
Entre os caminhos apontados por Metzger está o investimento em soluções ambientais no entorno das cidades, reduzindo problemas como ilhas de calor e poluição, por exemplo. “Para usarmos esse capital natural para lidar com as crises planetárias, em particular com as mudanças climáticas, precisamos ter uma mudança de enfoque, de paradigma, e deixar de olhar para o rural e olhar para esse próximo do urbano, que é o periurbano. Porque aí nós temos um monte de oportunidades de restauração e de novas políticas que estimulam essa restauração nesse periurbano, que não são as mesmas políticas do rural”.
A importância da preservação da flora na Bacia do Rio Doce
A palestra do pesquisador do INMA Paulo Minatel Gonella teve como tema a espécie-símbolo do Simbioma, Krenakanthus ribeiroanus, popularmente conhecida como bromélia-peluda. Gonella apresentou um resgate histórico dos fatores que contribuíram para a destruição da Mata Atlântica. “Se formos analisar, toda a visão do português, do europeu, quando veio para cá, já foi uma visão bastante extrativista. A primeira commodity do Brasil foi o pau-brasil. Então, já tivemos esse processo de devastação nesse primeiro ciclo econômico de ocupação do território brasileiro.”
Gonella abordou o processo de devastação na Bacia do Rio Doce, impactado, mais recentemente, pelas tragédias de Mariana e Brumadinho. “O processo de crise socioambiental da Bacia do Rio Doce tem início principalmente com o ciclo do ouro. Depois vieram o do ferro e da madeira. Alguns desses ciclos permanecem até hoje. A mineração de ferro é superimportante economicamente, mas, ao mesmo tempo, tem um peso muito grande para a paisagem e para os ecossistemas”.
Mesmo com a devastação, existe ainda muita biodiversidade a ser conhecida, como é o caso da Krenakanthus ribeiroanus, bromélia descoberta nos campos rupestres do médio Rio Doce, com a ajuda do morador Júlio Ribeiro. “Essas áreas ficaram protegidas pelo relevo íngreme que dificultou o processo de destruição da Mata Atlântica. É muito legal ver que ainda existe essa biodiversidade excepcional refugiada nessas áreas e que isso ainda restou para podermos conhecer e pensar em estratégias de conservação. Mas, ao mesmo tempo, é muito alarmante quando percebemos que essas espécies estão à beira da extinção. Se não agirmos rapidamente, elas podem desaparecer completamente e a extinção é para sempre, irreversível.”
A responsabilidade de possuir a maior biodiversidade do planeta
O coordenador de projetos do Núcleo Avaliação do Estado de Conservação no Centro Nacional de Conservação da Flora do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Eduardo Alvarez, falou sobre as mudanças climáticas em avaliação de risco. Ele destacou que o Brasil possui a maior biodiversidade do planeta. “Ao reconhecermos que detemos a maior biodiversidade do mundo, precisamos assumir um compromisso como sociedade, entendendo a importância dessa biodiversidade pelo valor intrínseco dela, e também pelo potencial utilitário. Todos os trabalhos científicos já demonstram que, quanto mais biodiversidade, quanto mais íntegra e estável essa biodiversidade está, melhor a provisão dos recursos ecossistêmicos e melhor a capacidade adaptativa frente às mudanças climáticas.”
O pesquisador ressaltou que grande parte das espécies é endêmica – só ocorrem no Brasil. “No caso das plantas e fungos, estamos falando de mais de 20 mil entidades biológicas que só ocorrem no nosso país. Então, ninguém além de nós, pode fazer algo para protegê-las, para garantir um futuro.”
Eduardo destacou ainda a importância de usar o conhecimento científico para implantar ações efetivas que contribuam para a resiliência climática. “Quando falamos de mudanças climáticas, só teremos os efeitos desejados quando atuarmos numa outra escala. Tem que ser uma coisa nacional. Essa escala nacional precisa se adequar e se inserir dentro de um contexto global. Do contrário, não vamos conseguir influenciar essas mudanças, a partir das medidas que sabemos que são eficientes hoje.”
Os manguezais no contexto das mudanças climáticas
Os manguezais capixabas foram tema da palestra da professora Mônica Tognella, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). “A maior importância do manguezal é social. Na realidade, em termos de funções ecológicas, ele está disponibilizando gratuitamente para a sociedade, mesmo que aquela sociedade não esteja ali vivendo dos recursos do manguezal.”
A professora destacou a importância da manutenção dos manguezais no contexto das mudanças climáticas e elevação do nível do mar. “Essa capacidade de transgressão e regressão marinha está fortemente associada ao manguezal. Hoje, se nós tivermos uma elevação no nível médio do mar, nós não temos espaço para o manguezal fazer isso, porque, em muitos lugares, esse mangue está confinado. O que vai acontecer com Vitória, numa elevação do nível médio do mar? Não tem espaço para o mangue associado. Recife está fazendo sua lição de casa. Vitória está tentando, mas ela não tem espaço para fazer o que Recife está fazendo, que é assegurar as áreas por meio dos jardins flutuantes numa potencial área para o manguezal expandir”.
Mônica Tognella deixou a todos uma reflexão: “O que nós, enquanto sociedade, queremos? Nós queremos o desenvolvimento econômico em curto prazo ou nós queremos um desenvolvimento econômico sustentável em longo prazo?”
Acordos de Cooperação Técnica
Durante o Simbioma, o diretor do INMA, Sérgio Lucena Mendes, o diretor do Museu Nacional, Alexandre Kellner, e o Conselheiro da Associação Amigos do Museu Nacional Eduardo de Barros assinaram um acordo de cooperação técnica para a gestão compartilhada da Estação Biológica Santa Lúcia. Um dos objetivos é potencializar as atividades de pesquisa, divulgação científica, extensão e educação ambiental. Outro acordo assinado foi entre a presidente da Sambio, Juliana França, e o diretor do INMA, formalizando a coorganização do Simbioma.
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