ONU alerta que aquecimento global deve ultrapassar 1,5 °C nos próximos anos

No cenário mais otimista analisado, o aquecimento atingirá um pico de 1,8 °C. A maioria das demais projeções indica elevação superior a 2 °C

O aquecimento global deve ultrapassar 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais nos próximos anos, mas ainda é possível limitar o pico e reduzir posteriormente a temperatura média do planeta. A avaliação consta do relatório Limiting Overshoot, divulgado nesta quarta-feira (2) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). O documento analisa os riscos e os caminhos disponíveis após a superação do limite⁠�.

No cenário mais otimista analisado, o aquecimento atingirá um pico de 1,8 °C. A maioria das demais projeções indica elevação superior a 2 °C. O limite de 1,5 °C foi estabelecido pelo Acordo de Paris como referência para reduzir os impactos mais graves das mudanças climáticas.

O Pnuma considera que a melhor alternativa ainda disponível é seguir uma trajetória de “ultrapassagem, pico e declínio”. Isso significa superar temporariamente 1,5 °C, conter a elevação no menor nível possível e, depois, reduzir o aquecimento para abaixo desse limite.

Quanto mais elevado for o pico e maior o tempo de permanência acima de 1,5 °C, maiores serão os danos para pessoas, economias e ecossistemas. O relatório afirma que cada fração adicional de grau e cada ano de ultrapassagem aumentam os riscos.

“Precisamos fazer com que a ultrapassagem de 1,5 grau seja a menor e mais curta possível”, afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

Risco de perdas irreversíveis

Entre os efeitos previstos estão eventos climáticos extremos mais intensos, perda de ecossistemas e avanço do mar sobre pequenos países insulares e cidades costeiras de baixa altitude. O Pnuma também projeta danos à saúde, à produção de alimentos, ao abastecimento de água, à infraestrutura e às economias.

A possibilidade de o planeta cruzar limites irreversíveis aumenta conforme as temperaturas sobem e permanecem elevadas. Entre os riscos estão a desestabilização de grandes mantos de gelo, a degradação da Floresta Amazônica e alterações na Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC.

Esse sistema de correntes transporta águas quentes pela superfície em direção ao norte do Atlântico e conduz águas frias pelas profundezas em direção ao sul. Seu funcionamento tem papel importante na regulação do clima. Algumas mudanças podem ocorrer de forma abrupta, enquanto outras se acumulam ao longo do tempo.

“Não há bons resultados se permanecermos acima de 1,5 °C”, afirmou a diretora-executiva do Pnuma, Inger Andersen. Segundo ela, as ondas de calor já mostram que os impactos climáticos podem ocorrer com maior rapidez, intensidade e duração.

Cortes de emissões e adaptação

Para limitar o pico, o relatório recomenda cortes imediatos e contínuos nas emissões de gases de efeito estufa, incluindo o metano. O primeiro objetivo é alcançar emissões líquidas zero. Depois, o mundo precisará chegar a emissões líquidas negativas, retirando da atmosfera mais gases do que lança.

A remoção de dióxido de carbono poderá incluir o armazenamento do carbono por meio da formação de novas áreas florestais e de outras tecnologias. O Pnuma ressalta que essas medidas devem complementar, e não substituir, a redução das emissões.

A remoção de carbono somente poderá contribuir de forma efetiva para o retorno a menos de 1,5 °C se o pico de aquecimento permanecer bem abaixo de 2 °C e as emissões residuais forem reduzidas. O uso dessas soluções também dependerá de regras capazes de garantir integridade ambiental, justiça e controle sobre a escala das intervenções.

O relatório defende que mitigação e adaptação avancem simultaneamente. Além de reduzir emissões, os países precisarão preparar cidades, atividades econômicas e comunidades para impactos atuais, esperados e inesperados.

O Pnuma reconhece que existem limites para a adaptação e que alguns danos serão irreversíveis, sobretudo se o pico de temperatura não for contido. Países com maior responsabilidade histórica pelo aquecimento devem agir mais rapidamente e assumir metas mais elevadas.

Mesmo que a temperatura volte a ficar abaixo de 1,5 °C, anos de inação já tornaram inevitáveis algumas perdas e mudanças permanentes. Comunidades poderão ser obrigadas a deixar seus territórios ou modificar suas formas de subsistência. Por isso, o relatório afirma que a ultrapassagem do limite não deve ser tratada como um novo destino, mas como uma condição que precisa ser reduzida e revertida o mais rapidamente possível.

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