NOTA DE REPÚDIO | Credibilidade climática não se recupera por decreto

ISB repudia decisão da Câmara que reduz proteção da Flona do Jamanxim e cobra debate técnico antes de votação no Senado

Em 20 de maio de 2026, a Câmara dos Deputados retirou 486 mil hectares da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, quase 40% de sua área total, e os transferiu para uma categoria de proteção inferior. Para ter dimensão, equivale a 450 mil campos de futebol da floresta amazônica do povo brasileiro sendo entregues para posse privada. O projeto tramitou em regime de “urgência”, sem passar por comissão técnica, e foi aprovado em votação simbólica, sem registro do voto individual de nenhum parlamentar. Assim, a população brasileira não sabe quem aprovou essa decisão.

O Instituto Sustentabilidade Brasil (ISB) repudia essa decisão e o processo que a gerou.

O que muda na prática

Numa Floresta Nacional, a terra é pública, o uso é controlado pelo Estado e as ocupações privadas são proibidas. Numa Área de Proteção Ambiental, a terra pode ser privada, as ocupações existentes podem ser regularizadas e a fiscalização é fraca. Na prática, quem estava ocupando ilegalmente passa a ter respaldo legal para permanecer. O relator chamou isso de atendimento a produtores rurais com “uso consolidado do solo”. Os órgãos de controle ambiental chamam de regularização de grilagem.

O argumento de que essa área serve à produção agropecuária não resiste aos dados oficiais. Segundo o INCRA, em 2010 as grandes propriedades rurais brasileiras tinham 40% de suas terras improdutivas, totalizando 228 milhões de hectares abandonados ou abaixo da capacidade produtiva. O Censo Agropecuário 2017 do IBGE confirma a tendência ao apontar que 1% dos estabelecimentos rurais detém 47,6% de toda a área agrícola do país. Concentrar terra no Brasil é historicamente mais sobre patrimônio e especulação fundiária do que sobre produção.

A questão tecnológica agrava o argumento. A Embrapa estima ser possível quadruplicar a lotação animal em pastagens de baixa produtividade com tecnologia já disponível e praticada no Brasil, sem abrir um hectare adicional de vegetação nativa. O Brasil tem 28 milhões de hectares de pastagens degradadas que poderiam ser recuperadas. Então, é evidente que converter 450 mil campos de futebol de floresta amazônica em terra de alguém não é para resolver um problema de produção.

Quem paga essa conta

A floresta amazônica regula os ciclos hidrológicos que abastecem a agricultura do Centro-Oeste e do Sul do país. Segundo o Cemaden, eventos climáticos extremos impactaram 336 mil pessoas no Brasil em 2025 e geraram prejuízos econômicos de R$ 3,9 bilhões. A Região Norte concentrou a maior parte das vítimas. As populações atingidas por inundações, secas e calor extremo não participaram da votação simbólica de 20 de maio. Mas elas vão pagar a conta cara dessas decisões.

O custo vai além do imediato. Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com o Banco Mundial, publicado na revista Nature Sustainability, calculou que a floresta amazônica em pé gera até US$ 737 por hectare por ano em serviços ecossistêmicos, como a regulação do clima, o controle do ciclo da água, o armazenamento de carbono e a produção sustentável. A pecuária extensiva praticada na Amazônia gera cerca de US$ 40 por hectare por ano. A floresta vale quase 20 vezes mais do que a terra agro que a substitui. Essa não é uma afirmação ambiental. É uma conta.

Sobre essa base econômica, o Brasil construiu um mercado em expansão. Crédito de carbono é o instrumento que todos nós, brasileiros, recebemos para que florestas em pé continuem em pé, compensando as emissões que ainda não conseguimos eliminar. Quanto mais floresta protegida e certificada, mais o Brasil tem para oferecer. O governo federal lançou, na COP30, a primeira concessão federal desse tipo na Amazônia, com projeção de R$ 950 milhões em receita ao longo de 40 anos, e o edital ProFloresta+ do BNDES recebeu 16 propostas de compra de créditos de restauração florestal, acima das expectativas dos organizadores.

Reduzir uma unidade de conservação enquanto esse mercado está sendo construído significa destruir o ativo antes de vendê-lo. Os parceiros internacionais que o Brasil conquistou após a COP30 observam essas decisões. 

O que o ISB exige

O projeto segue para o Senado. O ISB exige que o Senado realize audiências públicas com participação técnica qualificada antes de qualquer votação, que o Poder Executivo se posicione publicamente sobre o texto e que os setores econômicos comprometidos com sustentabilidade se pronunciem sobre o que essa decisão significa para os instrumentos de financiamento climático que o Brasil está construindo.

Florestas não se reconstroem no tempo de uma legislatura.

Diretoria do Instituto Sustentabilidade Brasil (ISB), maio de 2026.

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