O rápido aquecimento do Himalaia contribuiu para enfraquecer a encosta que desabou na fronteira entre o Nepal e a China em 26 de agosto. A queda de rochas e gelo formou uma avalanche e, em seguida, uma enchente que avançou a uma velocidade média de 188 quilômetros por hora.
A conclusão faz parte de um estudo publicado nesta quinta-feira (17) pela World Weather Attribution (WWA), grupo internacional que analisa a influência das mudanças climáticas em eventos extremos.
O desastre deixou mais de 1,3 mil mortos e 5 mil desaparecidos. Cerca de 84 mil pessoas foram afetadas em seis distritos do Nepal. Além disso, mais de 13,7 mil pessoas precisaram de resgate e 8,6 mil receberam atendimento médico.
Segundo os pesquisadores, a mudança climática não pode ser apontada como causa única do colapso. O aquecimento funcionou como fator de desestabilização de uma encosta que já apresentava vulnerabilidades geológicas.
“A mudança climática é melhor compreendida como um fator desestabilizador que atua sobre uma predisposição geológica preexistente, e não como a causa fundamental do deslizamento”, explica o estudo.
O colapso começou em uma parede rochosa da montanha Langtang Lirung, a 5.150 metros de altitude. Aproximadamente 2 quilômetros quadrados de rocha e gelo se desprenderam e caíram 1.400 metros até o fundo do vale.
O impacto liberou energia equivalente à de um terremoto de magnitude 5,5. Por isso, os primeiros registros indicaram a possível ocorrência de um abalo sísmico. Análises posteriores mostraram que as ondas sísmicas haviam sido produzidas pelo próprio desmoronamento.
A avalanche atingiu a fronteira de Rasuwagadhi, 22 quilômetros abaixo, em apenas sete minutos. A mistura de água, gelo, rochas e sedimentos destruiu comunidades, estradas, pontes, áreas agrícolas e usinas hidrelétricas.
A enchente percorreu 200 quilômetros em menos de sete horas. Em determinado trecho, a vazão do rio mais que dobrou e alcançou cerca de 5.850 metros cúbicos por segundo. Ao longo do caminho, a água depositou 30,5 milhões de metros cúbicos de sedimentos e detritos.
Geleiras perdem massa há décadas
O aquecimento favorece o derretimento do gelo que preenche as fraturas das rochas e ajuda a manter a estrutura das encostas. Sem essa ligação, as paredes rochosas perdem resistência. Ao mesmo tempo, a água do degelo entra nas fissuras, aumenta a pressão interna e amplia a instabilidade.
As geleiras da região perdem, há décadas, o equivalente a mais de meio metro de espessura por ano. Desde 2010, o recuo da geleira Langtang-Lirung acelerou. A taxa, que ficou em aproximadamente 0,5% ao ano nos dois séculos anteriores, passou para uma faixa entre 1% e 2,3% ao ano nos últimos 16 anos.
O estudo também identificou a elevação da isoterma de 0°C, linha imaginária que indica a altitude onde a temperatura chega ao ponto de congelamento. Esse limite subiu cerca de 100 metros por década durante os períodos de monções e pós-monções.
Na prática, áreas que antes permaneciam congeladas passaram a enfrentar temperaturas positivas com maior frequência. A mudança acelera a degradação do permafrost, o afinamento das geleiras e a substituição de parte da neve pela chuva.
Calor antecedeu desastre
O desmoronamento ocorreu depois de 12 meses excepcionalmente quentes, entre setembro de 2025 e agosto de 2026. Julho e agosto, os dois meses imediatamente anteriores ao desastre, também registraram temperaturas muito acima da média.
A WWA comparou o clima atual com um cenário pré-industrial 1,4°C mais frio. A análise apontou que a ação humana acrescentou cerca de 1,5°C às temperaturas de julho e agosto na região. Na média anual, o aumento atribuído às mudanças climáticas chegou a aproximadamente 2°C. Em alguns meses de inverno, alcançou 3°C.
Outro fator analisado foi o terremoto de magnitude 7,8 que atingiu o Nepal em 2015. O tremor provocou uma avalanche na mesma montanha e pode ter enfraquecido a estrutura rochosa. No entanto, os cientistas ainda não conseguiram calcular a contribuição desse abalo para o colapso de 2026.
Limites da adaptação
O episódio não recebeu o tratamento de um estudo convencional de atribuição climática. Isso acontece porque o desastre resultou de uma combinação de fatores geológicos, climáticos e hidrológicos, denominada risco em cascata.
Os pesquisadores afirmam que ainda não há evidências suficientes para concluir se a avalanche teria ocorrido sem as mudanças climáticas provocadas pelas atividades humanas. Ainda assim, o aumento acelerado das temperaturas eleva a probabilidade e a gravidade desse tipo de desastre no Himalaia.
A velocidade da avalanche também impediu uma resposta eficiente. Embora o Nepal tenha sistemas de alerta para inundações, nenhum mecanismo existente conseguiria emitir um aviso com antecedência suficiente para as áreas mais atingidas.
Receba as principais notícias sobre sustentabilidade no seu WhatsApp! Basta clicar aqui