
A adaptação da agricultura às mudanças do clima está entre os desafios que ganham relevância nas discussões da COP31.
A discussão também ultrapassa os limites das propriedades rurais.
Quando eventos climáticos comprometem safras, os reflexos podem chegar ao abastecimento.
E também aos preços dos alimentos, à renda de produtores e trabalhadores e à economia dos municípios.
Essa, sem sombra de dúvidas, é uma dimensão importante do debate sobre sustentabilidade que chega à COP31.
Adaptar os sistemas de produção não significa apenas preservar atividades econômicas, mas também proteger recursos naturais, comunidades e a segurança alimentar.
No Brasil, os efeitos do El Niño sobre o regime de chuvas, a disponibilidade de água, a qualidade do solo e a produção de alimentos foram tema de estudos,
O estudo foi feito por um grupo de trabalho da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
As propostas apresentadas por esse grupo em notas técnicas reforçam a necessidade de planejamento e prevenção em todas as atividades do campo, da agricultura familiar ao agronegócio.
A Embrapa reuniu e apresentou 163 medidas para reduzir riscos e prejuízos associados ao fenômeno climático.
O documento contém orientações que também podem contribuir para o enfrentamento de outros eventos extremos.
Nota Técnica
Das recomendações apresentadas na nota técnica, 14 são transversais a todo o setor agropecuário.
Entre elas estão o acompanhamento das previsões meteorológicas e o uso de dados climáticos locais para orientar decisões na propriedade rural.
O documento também recomenda a utilização do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc).
Além disso, recomenda a diversificação da produção no espaço e ao longo do tempo e a adoção de sistemas integrados, como lavoura-pecuária (ILP) e lavoura-pecuária-floresta (ILPF).
As medidas incluem ainda a avaliação contínua dos riscos, a elaboração de planos de contingência para eventos climáticos adversos e a manutenção da infraestrutura das propriedades.
Também orientam o dimensionamento da capacidade operacional, o registro dos eventos e de seus impactos e a análise econômica do nível de proteção necessário diante de cada risco.
A preparação financeira também ocupa lugar importante. A Embrapa recomenda a formação de reservas, a contratação de seguro rural e o uso de outros mecanismos de transferência de riscos.
E ainda a capacitação das equipes para lidar com situações provocadas por eventos climáticos.
Segundo a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, o documento foi elaborado em resposta às perspectivas do El Niño de 2026/2027,
Apesar disso, o documento adota uma abordagem mais abrangente de gestão de riscos agroclimáticos.
“Ele reconhece que grande parte das ameaças, vulnerabilidades e medidas analisadas é aplicável também a outros eventos e condições climáticas recorrentes”, afirma.
Apoio institucional, financeiro, científico e tecnológico
A adaptação do campo, porém, não depende apenas das decisões tomadas dentro das propriedades rurais.
Das medidas apresentadas pela Embrapa, dez dependem das políticas públicas e são de caráter institucional,
E também financeiro, científico, tecnológico e de assistência técnica, cuja execução exige a participação de diferentes setores.
Entre as propostas estão o fortalecimento e o aperfeiçoamento de instrumentos de avaliação de risco, como o Zarc, e a ampliação de linhas de financiamento direcionadas à adaptação climática.
O documento também prevê o aprimoramento dos mecanismos de transferência de riscos, como o seguro rural.
Além do fortalecimento da assistência técnica, da pesquisa e da validação de tecnologias capazes de desenvolver materiais e soluções mais adaptados às condições climáticas.
Outras recomendações envolvem o aperfeiçoamento dos sistemas de monitoramento agrometeorológico.
E a gestão integrada dos recursos hídricos e o acompanhamento das políticas e medidas de adaptação.
A nota técnica destaca ainda a necessidade de ampliar a capacidade nacional de prevenção, detecção e combate a incêndios rurais e florestais,
Aponta também que é preciso fortalecer programas de recuperação da cobertura vegetal em áreas vulneráveis e estratégicas para a segurança hídrica.
El Niño e os riscos para a produção brasileira
O documento reúne o histórico dos impactos do El Niño no Brasil e apresenta projeções para o ciclo de 2026/2027.
Entre os cenários apontados está a maior probabilidade de chuvas abaixo da média em áreas do Centro-Norte do país e de precipitações acima da média na Região Sul.
As projeções consideram diferentes riscos para a atividade agropecuária, como atraso ou irregularidade no início da estação chuvosa.
Aborda períodos prolongados de déficit hídrico, temperaturas elevadas, excesso de chuva e tempestades convectivas severas.
Os possíveis impactos são analisados de acordo com as características de diferentes cadeias produtivas.
Podem ser afetados grãos e fibras, fruticultura, silvicultura, olericultura, pastagens e pecuária, culturas industriais e aquicultura.
Embora os efeitos variem conforme a região e a atividade, é importante antecipar riscos e fortalecer a capacidade de resposta, o que pode reduzir perdas e proteger a produção, conforme orienta a Embrapa.
Leia Mais: Embrapa é designada como Centro de Referência para Florestas Plantadas
Fonte: Embrapa
Receba as principais notícias sobre sustentabilidade no seu WhatsApp! Basta clicar aqui