Menos formigas, menos equilíbrio: estudo revela importância desses insetos para a Mata Atlântica

Pesquisa realizada no Sudeste mostra que remoção de sementes e predação de insetos variam conforme a altitude e estão relacionadas à diversidade de espécies

Elas ajudam a transportar sementes, predam outros insetos e participam de processos importantes para o funcionamento das florestas. Um estudo realizado na Mata Atlântica do Sudeste brasileiro mostra que essas funções desempenhadas pelas formigas variam conforme a altitude. A maior intensidade das atividades analisadas foi registrada em áreas intermediárias, por volta de 300 metros acima do nível do mar, faixa que também concentrou maior riqueza de espécies.

Publicado em 22 de julho na revista científica internacional Journal of Biogeography, o estudo avaliou duas funções desempenhadas pelas formigas: a remoção de sementes e a predação de insetos. Os pesquisadores também analisaram como altitude, temperatura, chuva e produtividade da vegetação estão relacionadas a essas atividades.

A pesquisa utilizou dados coletados em dez áreas protegidas da Mata Atlântica, principalmente na Serra do Mar e regiões próximas, durante os períodos chuvosos de 2018 e 2019. Os pontos estavam distribuídos entre 36 e 1.098 metros de altitude.

Ao todo, foram identificadas 58 espécies e morfoespécies de formigas, pertencentes a 18 gêneros e seis subfamílias.

Como os pesquisadores mediram essas funções

Para descobrir como a atividade das formigas mudava de um local para outro, os pesquisadores realizaram experimentos em 20 trechos de floresta. Um deles avaliou a remoção de sementes.

Foram utilizadas 7 mil sementes artificiais distribuídas em 200 pontos de amostragem. Elas possuíam uma estrutura rica em gordura e outros nutrientes para imitar uma parte presente em determinadas sementes naturais que serve de alimento e atrai as formigas.

Os pesquisadores observaram quantas dessas sementes eram retiradas do local pelos insetos. Na natureza, esse comportamento pode contribuir para a dispersão, pois as formigas transportam sementes para outros pontos do ambiente. O experimento, no entanto, mediu especificamente a remoção, e não acompanhou o destino ou a germinação das sementes.

No segundo experimento, larvas vivas de besouro foram disponibilizadas nos mesmos locais. Os pesquisadores registraram os ataques realizados pelas formigas para comparar a intensidade da predação entre diferentes altitudes.

Pico em torno dos 300 metros

Um dos principais resultados foi a relação entre diversidade e atividade das formigas. Os locais com maior riqueza de espécies também apresentaram maior remoção de sementes e maior intensidade de predação.

Tanto a riqueza de espécies quanto as duas funções estudadas atingiram seus maiores níveis aproximadamente na mesma faixa de altitude, em torno dos 300 metros.

A remoção de sementes diminuiu em direção às maiores altitudes. A predação de insetos apresentou um comportamento um pouco diferente. Depois de atingir o pico em altitude intermediária, caiu ao longo do gradiente, mas voltou a aumentar nas maiores altitudes analisadas.

A temperatura também apareceu associada às duas funções. Locais mais quentes apresentaram maior remoção de sementes e maior atividade de predação.

Isso não significa, porém, que temperaturas mais altas sejam necessariamente melhores para as formigas. Os autores ressaltam que temperatura e altitude estão fortemente relacionadas. No gradiente estudado, a temperatura diminui conforme a altitude aumenta. Por isso, os efeitos precisam ser interpretados em conjunto com as demais características ambientais.

Menos espécies nas áreas altas

O estudo trouxe ainda outro resultado importante. Nas maiores altitudes, apesar da menor riqueza de espécies, as formigas responsáveis pelas funções analisadas apresentaram maior distância evolutiva entre seus parentes mais próximos.

Em termos simples, significa que algumas comunidades de áreas altas possuem menos espécies, mas reúnem linhagens evolutivamente mais diferentes umas das outras.

Esse resultado, porém, não indica necessariamente maior segurança para o funcionamento do ecossistema. Os pesquisadores apontam que, nas maiores altitudes, muitos gêneros estão representados por poucas espécies ou apenas uma. Dessa forma, a perda de uma espécie pode comprometer uma função caso existam poucos organismos capazes de desempenhar papel semelhante.

Clima pode alterar esse equilíbrio

A pesquisa também encontrou relações entre condições climáticas e diversidade filogenética, medida que considera a história evolutiva das espécies presentes em uma comunidade.

Ambientes mais quentes combinados com maior sazonalidade ou condições mais secas estiveram associados à redução de algumas medidas dessa diversidade.

O resultado ajuda a explicar por que os efeitos das mudanças climáticas não podem ser avaliados apenas pelo aumento da temperatura. Embora temperaturas mais altas tenham apresentado associação com maior intensidade da remoção de sementes e da predação no gradiente estudado, a combinação de calor, maior sazonalidade e seca pode tornar as comunidades responsáveis por essas funções mais vulneráveis.

Os resultados reforçam a importância ecológica das formigas para além da quantidade desses insetos encontrada em uma floresta. A diversidade de espécies está relacionada à intensidade de funções como remoção de sementes e predação, enquanto altitude e clima ajudam a determinar onde e como essas atividades ocorrem na Mata Atlântica.

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