“El Niño já está dentro de casa”; fenômeno ganha força e pode atingir nível muito forte

Noaa estima em 81% a probabilidade de um evento muito forte entre outubro e dezembro; OMM prevê calor acima da média e mudanças no regime de chuvas a partir de agosto

“Há dois meses, alertei que o El Niño estava chegando à nossa porta. Agora ele já está dentro de casa, e aumentando o calor.” A declaração do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, marcou o alerta divulgado na última sexta-feira (31) sobre o avanço do fenômeno, que deverá intensificar as temperaturas acima da média e alterar o regime de chuvas em diferentes regiões do planeta a partir de agosto.

O aviso ganhou novos dados nesta segunda-feira (3), com a atualização preparada pelo Centro de Previsão Climática, ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa). O órgão confirmou que o El Niño está presente e deverá continuar se fortalecendo até o fim de 2026.

Segundo o órgão, há 97% de probabilidade de o fenômeno persistir até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte (início do outono no Hemisfério Sul). A projeção divulgada em julho e mantida na atualização de agosto também indica 81% de chance de o El Niño atingir a categoria “muito forte” entre outubro e dezembro deste ano.

Os dados semanais mostram que a temperatura da superfície do mar está acima da média em praticamente todo o Pacífico Equatorial Central e Oriental. As mudanças na circulação atmosférica sobre o Pacífico também já apresentam características compatíveis com o El Niño. Houve aumento da formação de nuvens e das chuvas nas áreas central e centro-leste do oceano, enquanto Indonésia, Filipinas e Papua-Nova Guiné registraram condições menos favoráveis à precipitação.

Durante a coletiva de imprensa na sede da ONU, em Nova York, Guterres afirmou que “o El Niño está se fortalecendo, colocando mais lenha na fogueira de um planeta que já está em chamas.”

O Noaa ressalta, porém, que a intensidade do fenômeno não determina sozinha a dimensão dos impactos em cada região. Eventos mais fortes podem aumentar a probabilidade de determinados efeitos, mas o comportamento do clima também depende de outros padrões oceânicos e atmosféricos.

Calor acima da média e chuva desregulada

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) prevê probabilidade extremamente elevada de temperaturas acima da média na maior parte das áreas continentais entre agosto e outubro de 2026.

Os sinais mais fortes abrangem grande parte da América do Sul, África, sul da Europa, Península Arábica, subcontinente indiano, leste da Ásia, América Central, Caribe, África Austral e Nova Zelândia.

Para as chuvas, as projeções apresentam características comuns a episódios fortes de El Niño. Condições mais úmidas do que a média são esperadas no Grande Chifre da África, em partes da Ásia Central, no sul da Europa, no oeste da América do Norte e no sudeste da América do Sul.

Já volumes abaixo da média são mais prováveis no subcontinente indiano, no sul e no leste da Austrália, no sul da América Central, em partes do Caribe, no noroeste da América do Sul e no norte da Europa.

A projeção da OMM é global e não permite antecipar, isoladamente, quanto choverá em cada estado ou município brasileiro. Para decisões agrícolas e de defesa civil, será necessário acompanhar as previsões regionais e os boletins de curto e médio prazo.

Oceano Índico pode ampliar impactos

Outro fator de atenção é a previsão de formação de um Dipolo Positivo do Oceano Índico. O padrão ocorre quando a porção oeste do oceano fica mais quente do que a média, enquanto a região leste apresenta águas mais frias.

A combinação entre o Dipolo Positivo e um El Niño forte pode intensificar secas, enchentes e incêndios florestais, principalmente nos países localizados ao redor da bacia do Oceano Índico.

Os efeitos também podem alcançar a produção agrícola, o abastecimento de água, a saúde pública e as comunidades mais vulneráveis. Ondas de calor, excesso ou falta de chuva e maior risco de incêndios estão entre as ameaças apontadas pelas Nações Unidas.

A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, destacou que as “previsões, por si só, não evitam desastres. As decisões tomadas hoje definirão os impactos de amanhã.”

Já Guterres relacionou o avanço do fenômeno ao aquecimento do planeta e voltou a criticar países e indústrias que continuam ampliando a exploração de carvão, petróleo e gás. “O planeta está aquecendo mais rápido do que a nossa resposta”, afirmou.

Entenda o El Niño

O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento acima da média das águas do Pacífico Equatorial Central e Oriental. Os episódios normalmente ocorrem em intervalos de dois a sete anos e costumam durar entre nove e 12 meses.

Em geral, o fenômeno começa a se desenvolver entre março e junho, ganha intensidade no segundo semestre e atinge o pico entre novembro e fevereiro. Sua maior influência sobre as temperaturas globais costuma ocorrer no ano seguinte ao início do episódio.

A OMM classifica os eventos como fracos, moderados, fortes ou muito fortes. Embora seja utilizado informalmente, o termo “super El Niño” não integra o sistema oficial de classificação da agência.

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