Riscos climáticos seguem entre as maiores ameaças globais

Mesmo com avanço de riscos geopolíticos no curto prazo, especialistas alertam que eventos climáticos extremos e ameaças ambientais seguem centrais nas projeções para a próxima década

O Global Risk Report 2026 apresenta uma análise dos principais riscos globais esperados para os próximos anos. Ao comparar os dados de 2025 e 2026, observa-se que os riscos climáticos extremos passaram da segunda para a terceira posição no ranking. No entanto, isso não indica redução da gravidade do problema. Segundo especialistas, a mudança reflete o aumento da percepção de riscos geopolíticos mais imediatos, sem diminuir a relevância das ameaças ambientais no curto e, principalmente, no longo prazo.

A diretora do Instituto Sustentabilidade Brasil (ISB), Daniela Klein, explica que o documento define o atual momento como a “Era da Competição”, marcada não apenas por conflitos armados, mas pela fragilização da cooperação multilateral e das infraestruturas críticas que sustentam a vida moderna. “Com redes de energia, água e transporte envelhecidas e sob pressão simultânea de ataques cibernéticos e eventos climáticos, o relatório adverte que a sobreposição dessas crises cria vulnerabilidades sistêmicas, onde falhas em serviços básicos podem exacerbar ainda mais a polarização social e a insegurança”.

Bianca Giacomin, pós-graduada em Meio Ambiente e Sustentabilidade pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e engenheira química formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) explica que o relatório é elaborado anualmente pelo Fórum Econômico Mundial, com base na consolidação de pesquisas e percepções de especialistas de diferentes áreas.

De acordo com Bianca, o documento analisa riscos em diferentes horizontes temporais. O momento imediato, que considera o ano atual; o curto a médio prazo até 2028; e o longo prazo projeta cenários para até dez anos. “O relatório busca mostrar como esses riscos evoluem no tempo e quais são os mais prováveis em cada um desses períodos”, afirma.

Metodologia

A estrutura do estudo inclui um prefácio e uma revisão metodológica, que detalham como os dados são coletados e analisados, além de capítulos centrais dedicados ao mapeamento e aprofundamento dos riscos. Há ainda apêndices que explicam a definição de cada risco avaliado, o desenho da pesquisa e a leitura dos executivos que participaram do levantamento.

No panorama de curto prazo, os dados revelam um cenário de elevada instabilidade. Apenas 1% dos especialistas consultados avaliam que os próximos dois anos tendem a ser calmos. Cerca de 9% a 10% consideram o ambiente estável, enquanto 40% classificam o cenário como instável e 42% como turbulento. Outros 8% já apontam a existência de grande risco de catástrofes globais. No horizonte de dez anos, a percepção se agrava: embora 38% ainda descrevam o futuro como turbulento, 19% dos especialistas consideram inevitável a ocorrência de grandes eventos catastróficos.

Riscos climáticos e relatório

O relatório também organiza os riscos globais em cinco grandes categorias: econômica, geopolítica, ambiental, social e tecnológica. Entre os cinco principais riscos identificados para o cenário global atual, dois são de natureza geopolítica: confrontos geoeconômicos e conflitos armados entre Estados. Em seguida aparece o risco ambiental de eventos climáticos extremos. O quarto risco é social, relacionado à polarização, e o quinto é tecnológico, associado à desinformação e à circulação de informações incorretas.

Esses cinco riscos já figuravam entre os principais em 2025. Naquele ano, os eventos climáticos extremos ocupavam a segunda posição. Para Giacomin, uma leitura superficial pode levar à interpretação equivocada de que o tema perdeu importância. “O que ocorreu foi um aumento da percepção de iminência dos riscos geopolíticos, especialmente conflitos armados e tensões geoeconômicas. Isso não significa que os riscos climáticos tenham se tornado menos relevantes”, explica.

Longo prazo

A especialista destaca que a relevância das questões ambientais se torna ainda mais evidente quando se observa o horizonte de longo prazo. Dos dez principais riscos projetados para os próximos dez anos, cinco são ambientais. Entre eles estão eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e colapso de ecossistemas, mudanças nos sistemas naturais terrestres, escassez de recursos naturais e poluição.

Para Giacomin, esse cenário reforça a necessidade de manter a atenção sobre temas ambientais, mesmo diante de crises geopolíticas mais imediatas. “Os riscos ambientais não apenas permanecem, como tendem a se intensificar ao longo do tempo. Ignorá-los no curto prazo amplia a vulnerabilidade global no futuro”, conclui.

Na avaliação do Instituto Sustentabilidade Brasil, o cenário traçado pelo Global Risk Report 2026 reforça a necessidade de manter o meio ambiente no centro das decisões públicas e privadas. Para o instituto, a mudança de posição dos riscos climáticos no ranking de curto prazo não reduz sua gravidade, mas evidencia a complexidade de um contexto global em que crises se sobrepõem. Diante da projeção de que metade dos principais riscos para a próxima década é de natureza ambiental, a instituição defende a continuidade da atuação em defesa da sustentabilidade, com foco na prevenção, na adaptação e na construção de políticas estruturantes capazes de reduzir vulnerabilidades sociais, econômicas e ambientais no longo prazo.

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