Ondas de frio fora de época no Sul do Brasil, ciclones, recordes de baixas temperaturas na Europa e nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, um planeta cada vez mais quente. À primeira vista, os fenômenos parecem contraditórios. Para o climatologista Carlos Nobre, pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP) e co-presidente do Painel Científico para a Amazônia, eles fazem parte do mesmo sistema climático em colapso. Em entrevista, o pesquisador explica como o aquecimento global está alterando a circulação atmosférica dos polos, intensificando eventos extremos, acelerando a crise climática e colocando bilhões de pessoas em risco, além de apontar falhas globais em mitigação, adaptação e governança climática.
Como o senhor interpreta a sucessão de eventos extremos recentes, como frio fora de época no Sul do Brasil seguido por ciclone, e ondas de frio atípicas na Europa e nos Estados Unidos? Como esses fenômenos estão conectados ao aquecimento global?
Quando olhamos globalmente, o número de dias com temperaturas muito frias diminuiu no mundo inteiro devido ao aquecimento global. O que acontece é que o aquecimento do oceano no norte, no Ártico, e também do oceano próximo à Antártica induziu uma mudança na circulação meteorológica do Polo Norte e do Polo Sul.
Sempre tivemos um jato polar muito circular, que ficava girando ao redor do Polo Norte e do Polo Sul. Esse jato permanecia bem circular porque existia um gradiente de temperatura muito grande, com regiões extremamente frias que se mantinham assim. Os oceanos nessas áreas, especialmente no Ártico, eram cobertos por gelo e continuavam muito frios.
Com o aquecimento, isso induziu uma modificação nessa circulação, nesse jato. Ele passou a funcionar como uma onda ao redor do Polo Norte e do Polo Sul, avançando para latitudes médias e depois retornando. É o que chamamos de um padrão de onda que sobe e desce repetidamente.
O que esse fenômeno meteorológico provoca?
Ele permite que o ar muito frio que fica concentrado sobre o Polo Norte e o Polo Sul escape. Por isso, quando esses fenômenos ocorrem, grandes massas de ar frio escapam e acabam batendo recordes de frio, como já aconteceu nos Estados Unidos, na Europa, no Norte da África e também no Brasil. Em 2022, por exemplo, tivemos um recorde de frio que chegou até o Sul do Centro-Oeste. E, mais recentemente, como você mencionou, em 2025, durante a transição do inverno para o verão, novas ondas de frio atingiram o Sul do país.
Portanto, trata-se do escape desse ar muito frio concentrado sobre os polos, um processo que se deve ao aquecimento global. Reitero: globalmente, o número de dias frios está diminuindo. No entanto, em alguns momentos específicos, ocorre o escape do jato polar, que se desloca para latitudes médias e, em alguns casos, até subtropicais, como ocorreu em 2022, provocando recordes de frio.
Então, esse aparente paradoxo de frio intenso e aquecimento, que pode confundir parte da população, certamente são sinais de um planeta adoecido?
Muitas vezes, pessoas com tendência ao negacionismo das mudanças climáticas usam esses episódios de frio extremo como argumento. Tivemos, por exemplo, em 2024, uma onda de frio que atingiu o oeste dos Estados Unidos, inclusive a Califórnia, e bateu recordes históricos.
Mas a explicação é exatamente a que eu já dei. Os negacionistas não podem usar esses episódios para dizer que não existe mudança climática ou aquecimento global. É justamente o aquecimento que está provocando essa modificação nos jatos polares do Polo Norte e do Polo Sul. Em alguns momentos, ocorre o escape desse ar extremamente frio, que acaba batendo recordes em determinadas regiões.
Isso, no entanto, não significa que a temperatura do Polo Norte esteja caindo. Ao contrário: a temperatura do Polo Norte continua subindo de forma consistente.
Diante dos compromissos do Acordo de Paris e das metas estabelecidas nas últimas COPs, como o senhor avalia o momento atual do planeta em relação ao limite de 1,5 °C de aquecimento global?
A questão central é que, desde o Acordo de Paris de 2015, na COP21, e depois na COP26, em 2021, em Glasgow, havia a ideia de que o mundo teria tempo para agir, que seria possível alcançar reduções significativas das emissões até 2050.
No entanto, para surpresa de todos, inclusive de milhares de cientistas que ainda buscam explicar em detalhe esse processo, pela primeira vez, ao analisarmos a média de três anos consecutivos, 2023, 2024 e 2025, a temperatura média global próxima à superfície atingiu 1,5 °C acima do período pré-industrial.
Isso já nos permite observar, na prática, o que significa um planeta com 1,5 °C de aquecimento. A ciência vem alertando há décadas que, a partir desse patamar, os fenômenos extremos não cresceriam de forma linear, mas exponencial. E foi exatamente o que aconteceu.
Ondas de calor, chuvas excessivas, secas, nevascas, incêndios florestais. Todos esses eventos aumentaram exponencialmente nos últimos anos, evidenciando que as mudanças climáticas já chegaram. Além disso, a ciência deixa cada vez mais claro que atingiremos de forma permanente o patamar de 1,5 °C entre cinco e dez anos.
Isso significa que estamos muito próximos de cruzar esse limite de forma irreversível. Essas mudanças já não têm mais volta, a menos que consigamos reduzir rapidamente as emissões. Caso contrário, não há como permanecer abaixo de 1,5 °C. Mesmo com uma redução acelerada das emissões, por exemplo, de 5% ao ano durante uma década até 2035, o que representaria uma queda de 50%, ainda assim haveria emissões residuais, levando a temperatura global a cerca de 1,7 °C em 2040.
Para retornar a 1,5 °C, seria necessário remover grandes quantidades de gás carbônico da atmosfera até 2060 ou 2070. Portanto, já podemos afirmar que estamos vivendo a transição para um mundo que, na melhor das expectativas, será estabilizado em torno de 1,5 °C de aquecimento.
Na sua avaliação, estamos falhando mais em mitigação, adaptação ou comunicação científica com a sociedade?
Sem dúvida, estamos falhando em todos os aspectos. Agora que a temperatura já atingiu 1,5 °C e os fenômenos climáticos extremos aumentaram exponencialmente, fica evidente esse fracasso.
Nos últimos anos, especialmente no Brasil, após o evento extremo ocorrido no Rio Grande do Sul em maio de 2024, percebi uma melhora significativa na comunicação científica. Ela se tornou mais frequente, mais correta e mais presente no debate público. Cientistas sérios passaram a se comunicar mais, enquanto vozes negacionistas perderam espaço. Nesse aspecto, houve avanço.
No entanto, estamos falhando gravemente na mitigação e na adaptação. Em termos de mitigação global, o Brasil tem avançado ao reduzir emissões por meio da queda do desmatamento. Em 2024 e 2025, houve reduções importantes na Amazônia, no Cerrado, no Pantanal, na Caatinga e no Pampa. Na Mata Atlântica, ao menos, não houve aumento do desmatamento. Como o uso da terra responde por cerca de 40% a 45% das emissões brasileiras, isso é relevante.
Mas, globalmente, o cenário é o oposto. O uso de combustíveis fósseis continua crescendo. Em 2025, por exemplo, as emissões globais aumentaram 1,1% em relação a 2024. Isso é extremamente preocupante, ainda mais diante do cenário sociopolítico atual, especialmente com decisões dos Estados Unidos que ampliam a exploração de combustíveis fósseis, o que representa um ecocídio, um verdadeiro suicídio ecológico.
Ao mesmo tempo, bilhões de pessoas em todo o mundo, especialmente nos países em desenvolvimento, estão extremamente vulneráveis aos eventos climáticos extremos. É urgente protegê-las.
Nesse sentido, um dos poucos avanços da COP30 foi o consenso sobre a necessidade de acelerar a adaptação, com a criação de um fundo de pelo menos 300 bilhões de dólares por ano para proteger bilhões de pessoas desses impactos irreversíveis. Resta saber se esse compromisso será cumprido, especialmente diante da atual instabilidade política global, agravada pela retirada dos Estados Unidos de diversos organismos da ONU ligados ao clima, à biodiversidade e à ciência.
Mesmo com a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e sua ausência efetiva na COP30, os demais países precisarão acelerar a adaptação, independentemente da postura adotada por esse governo.
Qual mensagem o senhor considera essencial para que a população e os tomadores de decisão compreendam a gravidade desse momento e a urgência de adaptação e mitigação?
É fundamental que tenhamos clareza absoluta: se não reduzirmos rapidamente as emissões e se não criarmos projetos robustos para remover gás carbônico da atmosfera, caminhamos para um cenário catastrófico. A melhor forma de fazer isso é por meio das soluções baseadas na natureza, especialmente a restauração dos biomas.
No Brasil, temos mais de 3 milhões de quilômetros quadrados desmatados em todos os biomas. É plenamente possível migrar rapidamente a agricultura e a pecuária para modelos regenerativos, o que pode liberar mais de 1 milhão de quilômetros quadrados para restauração. Isso permitiria remover entre 1 e 1,2 bilhão de toneladas de gás carbônico da atmosfera.
Esse é um exemplo brasileiro, mas que pode ser replicado globalmente. A mensagem à população precisa ser clara: não podemos mais aceitar políticas que ampliem as emissões e o uso de combustíveis fósseis. Precisamos zerar rapidamente o uso desses combustíveis. Na COP30, no pavilhão de ciências planetárias, defendemos junto aos negociadores que o uso de combustíveis fósseis deve ser zerado até 2040, no máximo até 2045.
Também é essencial comunicar que as futuras gerações correm o risco de viver em um planeta quase inabitável. Se continuarmos nesse ritmo, podemos chegar a um aquecimento de 3 a 4 °C até 2100. Isso tornaria vastas regiões do planeta inabitáveis, especialmente áreas equatoriais ao nível do mar, como Belém, onde ocorreu a COP30.
Estudos mostram que, se a temperatura ultrapassar 2 °C até 2050 e atingir cerca de 2,7 °C em 2070, cidades como Belém podem registrar aumentos locais de 4 a 5 °C, tornando-se praticamente inabitáveis. O corpo humano não consegue sobreviver a essas condições, especialmente devido à combinação de altas temperaturas e elevada umidade, que impede a dissipação do calor corporal.
Esse não pode ser o legado deixado para as futuras gerações. Precisamos proteger nossos filhos, netos, bisnetos e todas as gerações que virão.
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