Bambu surge como eixo estratégico para renda, indústria e sustentabilidade

Engenheiros defendem o bambu e a valorização de resíduos como caminhos para ampliar produtividade, gerar renda e impulsionar uma nova economia sustentável

Bambu

O bambu desponta como um dos recursos mais promissores para a bioeconomia e a sustentabilidade no Brasil, reunindo potencial ambiental, social e econômico. Para Sciro Alessandry, engenheiro ambiental, vice-presidente da Coopníquel e mestre em Ciências de Materiais, difundir o conhecimento sobre essa gramínea é estratégico para transformar realidades no campo e na indústria.

Segundo ele, a proposta da cooperativa é integrar agricultura familiar, comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas em sistemas produtivos consorciados com o bambu. A lógica é que, ao ser cultivado junto a outras espécies, o bambu aumenta a produtividade do sistema como um todo, melhora o solo e ainda cria uma fonte adicional de renda. “Não é monocultura de bambu, já que ele vai ter associação como se fosse uma microfloresta atrelada a outras espécies”, explica.

A iniciativa, ainda em fase inicial, já envolve cerca de três mil famílias na região de Niquelândia, em Goiás, com o uso do bambu como cerca viva e elemento estruturante dos sistemas produtivos. Alessandry destaca que o Brasil abriga cerca de 270 espécies nativas de bambu, distribuídas de forma diversa entre as regiões, o que permite adaptações locais sem risco de invasão ambiental.

Além do papel produtivo, o bambu também se apresenta como solução ambiental. Seu rizoma tem alta capacidade de absorção e filtragem, podendo ser usado no tratamento de efluentes, fossas sépticas e áreas contaminadas. O engenheiro ressalta ainda a eficiência do bambu no sequestro de carbono e sua resistência mecânica, com tração superior à do aço e compressão comparável ao concreto, o que amplia seu uso na construção civil, na arquitetura e em projetos de baixo carbono.

Bambu e cadeia produtiva

Na cadeia produtiva, as possibilidades se multiplicam. O broto pode ser usado na alimentação, transformado em farinha ou aplicado em cosméticos. O óleo extraído do bambu pode virar medicamento, combustível, resina, vidro ou plástico. Para Alessandry, trata-se de uma base para uma nova indústria, capaz de reduzir a pressão sobre monoculturas como pinus e eucalipto, que empobrecem o solo.

Essa visão dialoga diretamente com o trabalho de Adriano Barbosa, engenheiro químico e diretor do Instituto PDK Circularidade. Ele defende que resíduos não devem ser vistos como problema, mas como o início de novos ciclos produtivos. “O resíduo não é o fim, ele é o começo da matéria-prima do futuro”, afirma.

Além disso, Barbosa observa que, ao analisar as cadeias industriais brasileiras, é possível enxergar oportunidades onde tradicionalmente se vêem passivos ambientais. Para ele, a chave está em investir em ciência, pesquisa e biotecnologia, inclusive para enfrentar desafios como o plástico. O problema, segundo ele, não é o material em si, mas seu tempo de vida excessivamente longo. Reduzir esse tempo por meio de inovação pode transformar um passivo em ativo.

Assim, para Barbosa, sustentabilidade só se concretiza quando equilibra meio ambiente, inclusão social e viabilidade econômica. Introduzir novas matérias-primas, como o bambu, não significa competir com indústrias existentes, mas ampliar opções, reduzir custos e democratizar o acesso. Isso, na avaliação dele, fortalece economias locais e cria caminhos para que países tropicais, historicamente explorados, passem a agregar valor aos próprios recursos.

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