Mais da metade da vegetação nativa da Bacia do Rio Doce foi perdida nas últimas décadas. A constatação está no estudo científico “Mudanças no uso e ocupação da terra na Bacia Hidrográfica do Rio Doce: desafios para conservação e restauração”, publicado em 2025 no Boletim do Museu de Biologia Mello Leitão, periódico do Instituto Nacional da Mata Atlântica. A pesquisa analisou mudanças no território entre 1985 e 2020 e identificou transformações profundas na paisagem provocadas principalmente pela expansão da agropecuária, da mineração e de outras atividades econômicas.
A Bacia Hidrográfica do Rio Doce se estende por Minas Gerais e Espírito Santo e está inserida no bioma Mata Atlântica, considerado um dos principais pontos de biodiversidade do planeta. O estudo analisou dados de sensoriamento remoto e informações do projeto MapBiomas para identificar como o uso e a cobertura da terra mudaram ao longo de 35 anos.
De acordo com os pesquisadores, “as análises por Unidades de Planejamento Hídrico revelaram perda superior a 50% da vegetação nativa original e predominância de pastagens, que ainda ocupam mais de 40% da bacia”.
O trabalho mostra que a substituição da vegetação natural ocorreu de forma gradual, acompanhando a expansão de atividades produtivas na região. A agropecuária consolidou as pastagens como principal uso do solo em grande parte da bacia, cenário que permanece mesmo após mudanças recentes na ocupação do território.
Embora ainda representem cerca de 40% da área total da Bacia do Rio Doce, as pastagens registraram redução ao longo das últimas décadas. Parte dessas áreas foi convertida para agricultura e silvicultura, especialmente plantios comerciais de eucalipto.
Outra transformação identificada pelo estudo é a mudança na composição da cobertura vegetal. Os remanescentes de vegetação primária, que correspondem às formações mais antigas e biodiversas da Mata Atlântica, diminuíram ao longo do período analisado. Ao mesmo tempo, houve crescimento da vegetação secundária, formada por áreas que passam por regeneração natural após processos de desmatamento.
Segundo os autores, “a substituição da vegetação primária por vegetação secundária induzida após distúrbios antrópicos apresenta distintos estágios sucessionais ao longo dos anos”.
Apesar de indicar algum nível de recuperação ambiental, esse processo não recompõe integralmente a biodiversidade original. A perda de florestas maduras e a fragmentação das áreas naturais reduzem a conectividade entre habitats e comprometem funções ecológicas importantes.
Os pesquisadores defendem políticas públicas voltadas à conservação da Mata Atlântica e à recuperação de áreas degradadas. O estudo ressalta que estratégias de restauração ecológica, planejamento territorial e monitoramento contínuo do uso do solo são fundamentais para garantir a sustentabilidade ambiental da bacia.
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