O aumento das chuvas no Sul já é um dos efeitos do El Niño, que continua ganhando força e deve atingir o auge no fim do ano. O ciclone extratropical previsto para esta semana, porém, não tem relação direta com o fenômeno. Segundo Marcelo Enrique Seluchi, coordenador-geral de Operações do Cemaden, o sistema está associado a uma frente fria vinda de áreas muito ao sul e deve permanecer fraco enquanto estiver próximo à costa brasileira.
“O El Niño já está atuando. Inclusive, já há um aumento das chuvas no Sul. Isso, sim, tem a ver com o El Niño”, afirmou Seluchi em entrevista ao Instituto Sustentabilidade Brasil (ISB).
O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial e interfere na circulação da atmosfera. No Brasil, um dos efeitos mais conhecidos é o favorecimento de chuvas mais frequentes e persistentes na Região Sul.
O El Niño de 2026 já atingiu intensidade excepcional e ainda pode ganhar força até o fim do ano. O cenário chama atenção não apenas pelo aquecimento da superfície do Pacífico, mas também pela quantidade de água quente acumulada em profundidade.
Esse calor funciona como combustível para a continuidade do El Niño. Mudanças nos ventos e na circulação oceânica podem transportar a água quente em direção ao Pacífico central e oriental, elevando ainda mais as temperaturas da superfície e ampliando a influência do fenômeno sobre os padrões de chuva e temperatura.
O El Niño, no entanto, atua em uma escala climática mais ampla, influenciando o comportamento médio da atmosfera durante semanas ou meses. Isso não significa que todo episódio de chuva, toda frente fria ou todo ciclone registrado durante sua atuação seja provocado diretamente pelo fenômeno.
Novo ciclone tem outra origem
É justamente essa diferença que Seluchi faz ao analisar o ciclone extratropical previsto para se formar nesta semana nas proximidades do Uruguai e do Rio Grande do Sul. Embora o El Niño já esteja favorecendo o aumento das chuvas no Sul, o meteorologista avalia que este ciclone específico tem outra origem. “Este ciclone em particular, eu diria que não tem relação com o El Niño”, afirmou.
Segundo Seluchi, o sistema está associado a uma frente fria que vem de áreas muito ao sul e apresenta um deslocamento significativo em direção ao Norte. Esse comportamento não é o mais característico dos períodos de El Niño.
“Ele está associado a uma frente fria que está vindo muito do Sul. Tem uma trajetória do Sul para o Norte considerável”, explicou.
Em anos de El Niño, as frentes frias tendem a permanecer mais estacionárias sobre determinadas regiões, especialmente no Sul do Brasil. O deslocamento para o Norte costuma ser mais limitado, o que pode favorecer a repetição das chuvas sobre as mesmas áreas.
“Justamente em anos de El Niño, as frentes frias tendem a permanecer mais estacionárias. Elas não se movimentam tanto para o Norte e para o Sul”, disse o coordenador do Cemaden.
Sistema deve ser pequeno perto da costa
O novo ciclone extratropical deve começar a se organizar entre o fim da noite de quarta-feira (19) e a madrugada de quinta-feira (20), próximo ao oeste do Rio Grande do Sul e à fronteira com o Uruguai.
Seluchi afirma que o sistema deverá ser fraco enquanto estiver próximo ao continente. Uma eventual intensificação poderá ocorrer somente depois de seu afastamento da costa. “Ele pode até se tornar muito mais intenso, mas muito longe da costa”, afirmou.
No Rio Grande do Sul, a previsão indica chuva forte, trovoadas, possibilidade de granizo e rajadas de vento entre 60 e 80 km/h. Na quinta-feira, a frente fria associada ao ciclone deve avançar sobre Santa Catarina, Paraná e o sul de Mato Grosso do Sul.
Na sexta-feira (21), o ciclone deverá seguir em direção ao oceano, enquanto a frente fria avança para o Sudeste. Isso significa que não será o centro do ciclone que atravessará toda a região, mas o sistema frontal responsável pela mudança no tempo, pelos ventos e pela entrada de ar mais frio.
No Espírito Santo, ainda não é possível definir a intensidade dos efeitos. A eventual chegada da frente fria e da massa de ar frio dependerá da trajetória do sistema e das atualizações dos modelos meteorológicos.
Seluchi ressalta que é difícil estabelecer uma relação direta entre um fenômeno climático de grande escala e um único evento meteorológico. Segundo ele, outros especialistas podem apresentar interpretações diferentes, mas as características deste ciclone não indicam uma ligação direta com o El Niño.
“É muito difícil dizer se um único caso tem ou não relação. Outros meteorologistas podem dar respostas diferentes, mas, na minha opinião, este em particular não tem”, ponderou.
Receba as principais notícias sobre sustentabilidade no seu WhatsApp! Basta clicar aqui