O El Niño já está estabelecido no Oceano Pacífico e deve ganhar força até o fim de 2026, aumentando a possibilidade de temperaturas elevadas e alterações no regime de chuvas em diferentes regiões do Brasil. Atualização divulgada nesta segunda-feira (27) pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa) aponta 97% de probabilidade de o fenômeno permanecer até os primeiros meses de 2027 e 81% de chance de atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro deste ano. Para o Espírito Santo, a principal preocupação está na primavera, período em que a combinação entre calor persistente, chuvas irregulares e eventual atraso da estação chuvosa pode pressionar os recursos hídricos, a agricultura, o sistema elétrico e ampliar o risco de incêndios.
O cenário confirma a tendência apresentada em abril pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e pelo Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam). Naquele momento, uma nota técnica conjunta indicava alta probabilidade de formação do El Niño durante o segundo semestre, embora a intensidade ainda não pudesse ser definida. O documento também alertava para a possibilidade de eventos climáticos extremos e de impactos sobre o abastecimento de água, a segurança alimentar, a geração de energia, a saúde pública e as atividades produtivas.
O El Niño é a fase quente do El Niño–Oscilação Sul, sistema climático formado pela interação entre o oceano e a atmosfera no Pacífico equatorial. O fenômeno ocorre quando as águas superficiais dessa faixa oceânica ficam mais quentes que a média e alteram a circulação atmosférica, o transporte de umidade e a distribuição das temperaturas e das precipitações em escala global. A confirmação depende não apenas do aquecimento do mar, mas também da presença de mudanças atmosféricas compatíveis com o fenômeno.
Os dados mais recentes da Noaa mostram que as temperaturas da superfície do mar estão acima da média nas porções central e leste do Pacífico equatorial e que a circulação atmosférica já apresenta características próprias do El Niño. No trimestre entre abril e junho, o Índice Oceânico Niño Relativo, o Roni, alcançou 0,5 °C, limite usado pelo órgão norte-americano para identificar condições do fenômeno quando acompanhado pela resposta da atmosfera e por previsão de continuidade. Nas medições semanais, a anomalia chegou a 1,4 °C na região Niño 3.4, referência central para o monitoramento, a 1,8 °C na região Niño 3 e a 3 °C na região Niño 1+2, próxima à costa oeste da América do Sul.
O aquecimento não se restringe à superfície. A agência identificou temperaturas acima da média em grande parte das camadas superiores do Pacífico equatorial, até cerca de 300 metros de profundidade, com novo avanço das anomalias positivas a partir do fim de maio. O calor acumulado abaixo da superfície ajuda a sustentar o aquecimento do oceano nos meses seguintes e reforça a projeção de fortalecimento do El Niño durante a segunda metade do ano.
Calor no Espírito Santo
A nota técnica brasileira aponta que, entre setembro e dezembro, podem ocorrer condições mais secas em áreas do Sudeste e do Centro-Oeste, incluindo Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás e Bahia. No Sudeste, entretanto, os efeitos sobre as chuvas são menos regulares do que no Sul e no Norte do país, porque dependem da intensidade do fenômeno, das condições do Oceano Atlântico e da atuação de outros sistemas atmosféricos. Entre as possibilidades estão estiagens temporárias, veranicos e mudanças na posição da Zona de Convergência do Atlântico Sul, responsável por parcela importante das precipitações da estação chuvosa.
Em relação às temperaturas, o sinal é mais consistente. O El Niño pode intensificar correntes de vento em altitude e dificultar o avanço das frentes frias, mantendo as massas de ar polar concentradas mais ao sul do continente. Com menor entrada de ar frio, crescem as condições para episódios de calor mais frequentes, prolongados e intensos no Sudeste, principalmente durante a primavera e o verão.
Questionado sobre a influência do fenômeno nos episódios de calor, o coordenador-geral do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Marcelo Enrique Seluchi, afirmou que “durante anos do El Niño, as águas do Oceano Pacífico, que é o maior oceano do mundo, ficam mais aquecidas. Consequentemente, o que era um elemento que ajudava a resfriar e a compensar um pouco o calor se torna muito menos eficiente. Normalmente, anos de El Niño estão entre os anos mais quentes da história”.
Seluchi acrescentou que, nos próximos meses, a indicação é de mais calor no Brasil. “Certamente, nós também sofreremos esse tipo de situação, provavelmente a partir de agosto e setembro até o início pleno da estação chuvosa. A nossa primavera vai ser complicada. Se houver, como pode acontecer, um atraso no início da estação chuvosa acompanhado de ondas de calor, podemos ter uma situação um pouco complexa, inclusive com a possibilidade de incêndios”.
A preocupação aumenta porque o período entre o fim da estação seca e a regularização das chuvas já costuma apresentar baixa umidade do ar, solos ressecados e vegetação mais vulnerável ao fogo. Temperaturas elevadas aumentam a evaporação dos reservatórios e a demanda por água e energia, enquanto a ausência de precipitações reduz a umidade disponível nas lavouras e pode comprometer o desenvolvimento das culturas. O impacto efetivo dependerá da duração dos veranicos, da distribuição das chuvas e das condições acumuladas em cada região.
Efeitos variam pelo país
No Sul, o El Niño costuma favorecer chuvas acima da média e pode aumentar o risco de tempestades, enchentes e inundações. O transporte mais intenso de umidade da Amazônia para os subtrópicos contribui para a formação de sistemas de tempestade e ciclones extratropicais. As temperaturas também tendem a ficar acima da média, enquanto as massas de ar frio podem perder intensidade ou permanecer menos tempo sobre a região.
No Norte, a tendência histórica é de redução das chuvas e prolongamento da estação seca, com risco de queda dos níveis dos rios e aumento da vulnerabilidade da Amazônia aos incêndios. Os efeitos podem alcançar a geração hidrelétrica, a navegação, a pesca, a agricultura e o abastecimento de comunidades ribeirinhas. No Nordeste, a menor formação de nuvens e a redução das precipitações podem elevar as temperaturas, intensificar a perda de água do solo e da vegetação e ampliar o estresse hídrico.
A classificação de um El Niño como muito forte não significa, por si só, que todos os impactos serão extremos ou ocorrerão da mesma maneira em todo o território. As instituições ressaltam que a intensidade e a distribuição dos efeitos dependem da interação com o Atlântico Tropical, de sistemas atmosféricos de menor duração e da variabilidade natural do clima. O acompanhamento contínuo das condições oceânicas e das previsões meteorológicas será determinante para orientar o planejamento agrícola, a gestão dos reservatórios e as ações de prevenção a incêndios e outros desastres.
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