Declínio de polinizadores avança no Brasil e expõe falta de políticas de proteção

Redução de abelhas, borboletas, morcegos e aves ameaça a biodiversidade, o equilíbrio dos ecossistemas e parte da produção agrícola e extrativista do país

A redução acelerada das populações de polinizadores já compromete a regeneração de florestas, a reprodução de plantas e o equilíbrio dos ecossistemas brasileiros. Apesar do avanço das pesquisas científicas, o país ainda enfrenta dificuldades para transformar o conhecimento acumulado em políticas públicas integradas e em uma legislação específica de proteção.

O alerta consta em um estudo publicado na revista científica Neotropical Entomology por pesquisadores do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), da Universidade de Brasília (UnB) e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Abelhas, borboletas, morcegos, aves e outros animais polinizadores participam da reprodução de mais de 95% das plantas silvestres e cultivadas no mundo. A perda dessas espécies reduz a diversidade genética das plantas, interfere nas cadeias ecológicas e diminui a capacidade de recuperação dos ambientes naturais.

Os efeitos também chegam à produção de alimentos. No Brasil, uma média de 16,14% da produção agrícola e extrativista depende dos serviços de polinização, percentual que pode alcançar 25%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Entre as principais causas do declínio estão a perda de habitats naturais e o uso intensivo de agrotóxicos. A primeira autora do estudo e pesquisadora do INMA, Juliana Hipólito, aponta uma contradição entre a importância econômica dos polinizadores e as práticas adotadas no país.

“O Brasil depende dos serviços ecossistêmicos prestados pelos polinizadores, mas figura entre os maiores consumidores globais de pesticidas”, afirma.

Abelhas nativas estão mais vulneráveis

A pesquisa destaca a situação das abelhas nativas sem ferrão, consideradas potencialmente mais sensíveis à exposição a determinados produtos químicos. Mesmo quantidades reduzidas podem interferir no desenvolvimento desses insetos.

“Mesmo doses consideradas baixas podem causar alterações no desenvolvimento, reduzindo o tamanho e a massa corporal desses insetos e comprometendo sua sobrevivência”, explica Juliana.

As consequências não ficam restritas à redução do número de indivíduos. Mudanças no desenvolvimento, no comportamento e na capacidade de reprodução dos polinizadores podem diminuir a eficiência da polinização e comprometer a manutenção das populações de plantas ao longo do tempo.

Falta integração entre as iniciativas

O Brasil participa de iniciativas nacionais e internacionais voltadas à conservação dos polinizadores e possui medidas como o Plano de Ação Nacional para a Conservação de Insetos Polinizadores. Segundo os pesquisadores, porém, ainda existem falhas na implementação e na integração dessas ações.

O país também não dispõe de uma legislação específica e articulada para a proteção dos polinizadores e dos serviços de polinização. Para o pesquisador da Embrapa Jeferson Coutinho, o tema precisa ser incorporado de forma mais ampla às estratégias ambientais e produtivas.

“Fomentar a criação de políticas públicas para a proteção dos polinizadores e do serviço de polinização é estratégico, sob várias perspectivas”, ressalta.

Entre as medidas recomendadas estão a criação de um sistema nacional de monitoramento das populações, a redução de incentivos aos agrotóxicos mais tóxicos e a ampliação de práticas agrícolas que reduzam os impactos sobre a biodiversidade.

Vegetação nativa funciona como refúgio

Os pesquisadores também defendem a restauração de habitats degradados e a preservação da vegetação nativa próxima às áreas de produção. Esses espaços oferecem alimento, abrigo e locais de reprodução para diferentes espécies.

A manutenção de fragmentos florestais, corredores ecológicos e áreas de vegetação nas propriedades rurais pode favorecer a circulação dos polinizadores e fortalecer a resiliência dos ecossistemas diante de secas, mudanças de temperatura e outras pressões ambientais.

“A preservação de áreas de vegetação nativa próximas às lavouras não apenas protege a biodiversidade, mas fortalece as interações ecológicas que sustentam os próprios ecossistemas”, destaca Juliana.

Segundo a pesquisadora, esses ambientes funcionam como refúgios e fontes de alimento, permitindo a continuidade de ciclos naturais fundamentais tanto para as florestas quanto para as atividades produtivas.

Sem políticas coordenadas, monitoramento permanente e proteção dos habitats, o declínio dos polinizadores tende a ampliar os riscos para a biodiversidade e para os sistemas agrícolas que dependem direta ou indiretamente desses animais.

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