Floresta ao redor de “cidade perdida” da Amazônia guarda marcas de agricultura e mudanças climáticas

Análise de sedimentos reconstruiu 2.770 anos de ocupação humana no Equador e indica que a composição atual da vegetação pode ter se formado há apenas 120 anos

A floresta que hoje parece intocada ao redor da chamada “cidade perdida” da Amazônia é resultado de uma história marcada por agricultura, manejo de árvores, queimadas, períodos de abandono e mudanças no clima. Um estudo publicado na revista Nature Communications reconstruiu 2.770 anos de transformações ambientais no Vale do Upano, no leste do Equador, e concluiu que a composição vegetal atualmente encontrada na região pode ter se estabelecido há apenas cerca de 120 anos.

A pesquisa mostra que povos indígenas começaram a desmatar pequenas áreas e cultivar milho nas proximidades do Lago Cormorán por volta de 570 antes da era comum. Ao longo dos séculos seguintes, essas populações alternaram diferentes formas de uso da terra, incluindo agricultura com uso do fogo, cultivo sem queima e manejo de espécies arbóreas.

O lago está localizado no Parque Nacional Sangay, a menos de dez quilômetros dos complexos arqueológicos do Vale do Upano. A região abriga uma extensa rede de plataformas, casas construídas sobre montículos, estradas, praças e centros cerimoniais, popularmente apresentada como a “cidade perdida” da Amazônia.

Levantamentos realizados com tecnologia Lidar, sistema que utiliza pulsos de laser para mapear estruturas escondidas sob a vegetação, já haviam identificado mais de sete mil construções em uma área superior a 300 quilômetros quadrados. As evidências indicam que o vale começou a ser ocupado pelo povo Upano por volta de 700 antes da era comum e que a construção dos montículos se intensificou aproximadamente dois séculos depois.

Sedimentos funcionam como arquivo ambiental

Para reconstruir o passado da região, os pesquisadores retiraram, em 2017, uma coluna de sedimentos com 5,98 metros de comprimento do fundo do Lago Cormorán. A coleta foi feita a uma profundidade de 16 metros.

As camadas acumuladas no fundo do lago preservaram grãos de pólen, partículas de carvão e fitólitos, estruturas microscópicas de sílica produzidas pelas plantas. A equipe também utilizou datação por carbono-14 e um modelo estatístico para estimar a idade de cada trecho do material.

A presença de pólen e fitólitos de milho permitiu identificar os períodos em que havia cultivo nas proximidades. Como essas partículas são grandes e não costumam ser transportadas por longas distâncias, os pesquisadores consideram que a produção agrícola ocorreu dentro da própria área de drenagem do lago.

As primeiras evidências de milho aparecem entre aproximadamente 670 e 570 antes da era comum. A cultura permaneceu presente até perto do ano 520 da era comum. Durante esse intervalo, também foram registrados aumentos de gramíneas, plantas associadas a ambientes alterados e partículas de carvão relacionadas ao uso do fogo.

Apesar das intervenções, parte da mata madura permaneceu preservada. Mais da metade do pólen encontrado nas camadas desse período pertencia a árvores que não são consideradas espécies pioneiras. Para os autores, isso indica que as áreas abertas para cultivo eram relativamente limitadas e conviviam com trechos de floresta.

Povos antigos também manejavam árvores

O estudo encontrou uma concentração incomum de pólen de Alnus acuminata, árvore conhecida nos Andes por crescer rapidamente, melhorar a fertilidade do solo e fornecer madeira e combustível.

Entre cerca de 550 antes da era comum e o ano 500, o pólen dessa espécie chegou a representar aproximadamente 35% do material analisado em algumas camadas. A concentração é muito superior à esperada naturalmente na altitude do Lago Cormorán, situado a 1.750 metros acima do nível do mar.

Como os picos coincidem com os períodos de cultivo de milho e construção dos montículos, os cientistas trabalham com a hipótese de que os habitantes plantavam ou favoreciam deliberadamente o crescimento dessas árvores. A prática seria uma forma antiga de silvicultura integrada à produção agrícola.

Os registros permitiram identificar diferentes fases de manejo. Em alguns momentos, a agricultura ocorreu com queimadas. Em outros, a vegetação era cortada e deixada sobre o solo, sem fogo, formando uma cobertura de matéria orgânica. Também houve períodos em que o cultivo de milho esteve associado ao aumento de Alnus.

Abandono pode ter sido gradual

Uma das conclusões mais relevantes do trabalho diz respeito ao fim da ocupação Upano. Uma hipótese arqueológica atribuía o abandono do local a uma grande erupção do vulcão Sangay, que teria coberto parte da região com cinzas entre os anos 300 e 600.

Os sedimentos do Lago Cormorán, porém, não apresentaram uma camada de cinzas correspondente a um evento catastrófico nesse período. A análise identificou uma pequena deposição vulcânica por volta de 1285, mas nenhum registro semelhante próximo ao ano 550.

Em vez de uma interrupção repentina, os dados mostram uma redução gradual das atividades humanas entre os anos 200 e 550. Ao longo desse período, diminuíram os sinais de milho e carvão, enquanto aumentou a presença de pólen de árvores, indicando a recuperação progressiva da floresta.

O estudo não consegue explicar por que uma sociedade que havia investido na construção de milhares de estruturas e em uma extensa rede de caminhos reduziu lentamente sua presença no território. A causa do abandono permanece como uma questão em aberto.

Nova ocupação voltou a alterar a paisagem

Depois da redução das atividades Upano, a vegetação se recuperou durante aproximadamente mil anos. O cultivo de milho próximo ao Lago Cormorán reapareceu por volta de 1500 e continuou até aproximadamente 1780.

Essa nova fase de uso da terra ocorreu paralelamente a uma mudança gradual no clima regional, que se tornou mais quente e úmido. Após o fim da agricultura, a combinação entre áreas anteriormente modificadas e as novas condições climáticas abriu caminho para uma sucessão vegetal diferente daquela registrada nos períodos anteriores.

Uma das principais beneficiadas foi a palmeira Dictyocaryum lamarckianum. Rara nas camadas mais antigas, a espécie aumentou fortemente a partir do fim do século XVIII. Em um levantamento realizado em 2019, ela representava cerca de 40% dos troncos de árvores que alcançavam o dossel nas proximidades do lago.

Segundo os pesquisadores, a expansão da palmeira não pode ser explicada apenas pela interferência humana ou apenas pelo clima. A ocupação e o posterior abandono criaram novas condições ecológicas, enquanto o aumento da umidade e da temperatura favoreceu as espécies que passaram a dominar a área.

Florestas carregam histórias humanas

Os resultados contestam a imagem de florestas tropicais completamente separadas da ação humana. Mesmo áreas aparentemente preservadas podem carregar efeitos de ocupações antigas, sistemas agrícolas, manejo indígena, abandono de terrenos e mudanças climáticas.

No caso do Lago Cormorán, o longo período de recuperação apagou grande parte dos efeitos diretos da ocupação pré-colombiana. O uso da floresta iniciado durante o período colonial, no entanto, deixou marcas mais persistentes na composição atual da vegetação.

Os autores ressaltam que isso não significa que a floresta tenha apenas 120 anos. A estimativa se refere ao conjunto de espécies e às proporções atualmente encontradas na área. Árvores, solos e processos ecológicos mais antigos permaneceram presentes, mas passaram a formar uma combinação diferente e relativamente recente.

A pesquisa reforça que as florestas amazônicas são mosaicos construídos ao longo do tempo. Sua composição resulta da interação entre condições ambientais, variações climáticas, características do relevo e diferentes formas de uso da terra por populações humanas.

O estudo foi conduzido por pesquisadores de instituições dos Estados Unidos, Equador e Países Baixos, entre elas o Instituto de Tecnologia da Flórida, a Universidade Estatal Amazônica, a Pontifícia Universidade Católica do Equador e a Universidade de Amsterdã. O artigo foi publicado na revista Nature Communications.

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