A cidade onde você vive pode influenciar o envelhecimento do seu cérebro

Pesquisa relaciona áreas urbanas com menos vegetação, maior calor e menor umidade a sinais de envelhecimento cerebral mais acelerado, sobretudo na meia-idade

A qualidade ambiental do lugar onde uma pessoa vive pode estar relacionada à velocidade com que o cérebro envelhece. Um estudo publicado online em junho na revista científica Sustainable Cities and Society encontrou uma associação entre ambientes urbanos de pior qualidade ecológica e sinais de envelhecimento cerebral mais acelerado em adultos de meia-idade e idosos.

A pesquisa “Qualidade do ambiente ecológico urbano e envelhecimento cerebral: evidências epidemiológicas de uma coorte populacional de pessoas de meia-idade e idosas” avaliou não apenas a presença de parques ou árvores. Os pesquisadores utilizaram um indicador mais amplo da condição ecológica urbana. O Índice Ecológico por Sensoriamento Remoto, conhecido pela sigla RSEI, reúne informações sobre vegetação, umidade, temperatura da superfície e grau de aridez ou exposição do solo.

Esses elementos são obtidos por imagens de satélite e combinados para representar a qualidade ambiental de determinada área. Valores mais altos indicam ambientes com melhores condições ecológicas, enquanto resultados inferiores podem refletir menor cobertura vegetal, mais calor, menos umidade e maior presença de superfícies secas ou construídas.

A idade cerebral foi estimada a partir das características observadas nas imagens de ressonância magnética. Esse tipo de análise compara a idade indicada pela estrutura do cérebro com a idade cronológica do participante. Quando o cérebro apresenta características semelhantes às normalmente encontradas em pessoas mais velhas, considera-se que há uma diferença positiva de idade cerebral.

Os resultados indicaram que uma qualidade ecológica urbana mais baixa estava associada a sinais de envelhecimento cerebral mais avançado. As análises de neuroimagem também relacionaram valores inferiores do índice ambiental a menor volume de matéria cinzenta, estrutura envolvida em funções como memória, movimento, percepção, linguagem e tomada de decisões.

A relação, no entanto, não ocorreu de forma totalmente linear. Isso significa que o efeito estimado não aumentou necessariamente na mesma proporção a cada piora do indicador ambiental. Os autores identificaram uma associação mais complexa, com variações conforme o nível de qualidade ecológica urbana.

Outro resultado chama a atenção para a meia-idade. Segundo o estudo, a influência da qualidade ambiental sobre o envelhecimento cerebral foi mais acentuada nessa etapa da vida do que entre os participantes mais velhos.

A descoberta reforça a ideia de que a prevenção do declínio cerebral não deve começar apenas na velhice. A exposição acumulada a calor urbano, pouca vegetação e outras condições ambientais desfavoráveis pode produzir efeitos antes que alterações cognitivas sejam percebidas no cotidiano.

O trabalho amplia o debate sobre os efeitos das cidades na saúde. Temperaturas elevadas, redução da vegetação e degradação ambiental costumam ser analisadas por seus impactos respiratórios, cardiovasculares e sobre o bem-estar. A nova pesquisa acrescenta evidências de que essas condições também podem estar relacionadas à integridade estrutural do cérebro.

Os resultados têm implicações para políticas de planejamento urbano. Ampliar a arborização, reduzir ilhas de calor, preservar áreas naturais, aumentar a permeabilidade do solo e melhorar a distribuição de espaços verdes pode trazer benefícios que vão além do conforto térmico e da paisagem.

O estudo, porém, identifica uma associação e não demonstra sozinho uma relação direta de causa e efeito. Outros fatores ligados ao lugar onde as pessoas vivem, como renda, alimentação, acesso aos serviços de saúde, atividade física e exposição à poluição, também podem influenciar o envelhecimento cerebral.

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