GT4 da CNSB 2026 propõe transformar valor climático da Caatinga e dos manguezais em políticas públicas

Grupo de trabalho reúne conhecimento científico e saberes tradicionais para criar recomendações sobre Pagamento por Serviços Ambientais e valorização das comunidades que conservam os biomas

O valor econômico dos serviços prestados pela Caatinga e pelos manguezais poderá servir de base para políticas públicas destinadas a remunerar comunidades tradicionais, agricultores familiares e outros grupos responsáveis pela conservação desses ecossistemas. A proposta está no centro das discussões do Grupo de Trabalho 4 da Conferência Nacional Sustentabilidade Brasil 2026 (CNSB 2026), que iniciou os debates no final de junho.

Com o tema “Integração Caatinga-Carbono Azul: Mercado, MRV e Integridade”, o GT4 integra a trilha “Biomas como Infraestrutura Climática”. O objetivo é produzir um capítulo do relatório “Biomas do Brasil como Infraestrutura Climática”, reunindo dados científicos, saberes tradicionais e metodologias que possam ser utilizadas na diplomacia climática brasileira durante a 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP31.

Embora apresentem características ambientais distintas, Caatinga e manguezais desempenham funções semelhantes na resposta às mudanças climáticas. Os dois ecossistemas armazenam carbono, contribuem para a regulação do clima, preservam a biodiversidade, protegem recursos hídricos e sustentam atividades econômicas e modos de vida tradicionais.

Segundo o engenheiro ambiental Felipe Bastos, que participou do GT4, o debate parte da necessidade de reconhecer tanto o valor ambiental quanto a contribuição social das populações que preservam esses territórios.

“O Grupo de Trabalho 4 parte de uma questão muito simples, mas extremamente importante: como reconhecer e valorizar os serviços que a natureza presta à sociedade e, principalmente, como garantir que as pessoas e comunidades que conservam esses ecossistemas sejam justamente beneficiadas por isso”, afirma.

Um dos pontos analisados pelo grupo é o potencial do carbono azul, nome dado ao carbono capturado e armazenado por ecossistemas costeiros, como manguezais. No Espírito Santo, já existe um amplo mapeamento desse potencial, mas a transformação dos benefícios ambientais em recursos financeiros ainda enfrenta obstáculos.

“No caso dos manguezais, já dispomos de um amplo mapeamento do potencial de carbono azul no Espírito Santo. No entanto, transformar esse potencial em recursos financeiros por meio do mercado de carbono ainda enfrenta importantes desafios, principalmente relacionados à governança jurídica e à definição de quem é o titular desses créditos”, explica Bastos.

Diante dessas dificuldades, a proposta do GT4 não está concentrada na comercialização imediata de créditos de carbono. O grupo pretende utilizar a valoração econômica dos serviços ecossistêmicos como referência para fortalecer programas governamentais, especialmente os de Pagamento por Serviços Ambientais, conhecidos pela sigla PSA.

“Queremos utilizar toda essa valoração dos serviços ecossistêmicos como base para fortalecer os instrumentos de políticas públicas, especialmente os programas de Pagamento por Serviços Ambientais. A ideia é que o potencial econômico desses serviços possa orientar os investimentos públicos, de forma a reconhecer e remunerar aqueles que efetivamente conservam os ecossistemas, sejam comunidades tradicionais dos manguezais, agricultores familiares, povos da Caatinga ou outros usuários que contribuem para manter esses ambientes saudáveis e produtivos”, acrescenta.

As conclusões do grupo serão sistematizadas em um documento com recomendações para a criação ou o aperfeiçoamento de políticas públicas. O material deverá mostrar como o conhecimento científico e a mensuração dos serviços ecossistêmicos podem resultar em ações concretas de conservação, geração de renda e desenvolvimento territorial.

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