El Niño forte pode exigir preparação rápida do Brasil, alerta climatologista

Climatologista afirma que país está mais vulnerável a extremos climáticos e que aquecimento global pode ampliar impactos do fenômeno

O climatologista Carlos Nobre, um dos principais nomes da ciência brasileira e referência internacional nos estudos sobre Amazônia e mudanças climáticas, avalia que o Brasil precisa se preparar rapidamente para os impactos de um possível El Niño forte. Segundo ele, ainda será necessário aguardar os próximos meses para confirmar a intensidade do fenômeno, mas o risco de um evento de média a forte intensidade já exige atenção de governos, setores produtivos e população.

“Enquanto persistir o aquecimento global, e certamente será por não menos do que séculos, nós temos que estar preparados para o fato de que os El Niños, em média, vão ficar mais fortes”, afirma Carlos Nobre (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

“Sem dúvida, teremos um El Niño. As previsões indicam que o fenômeno já deve começar no mês de junho. Mas será a partir de junho e julho que saberemos qual intensidade esse El Niño poderá atingir no segundo semestre deste ano, afetando praticamente todo o Brasil e estendendo-se até os primeiros meses de 2027”, afirma Nobre.

Projeção do NOAA/CPC, emitida em maio de 2026, indica aumento expressivo da probabilidade de El Niño forte, muito forte e até extremo entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027. O gráfico, que pode mudar nos próximos meses, mostra que, a partir do trimestre agosto-setembro-outubro, crescem as chances de aquecimento mais intenso no Pacífico Equatorial. O cenário reforça a necessidade de preparação para impactos climáticos potencialmente mais severos (imagem: NOAA/divulgação)

O alerta ocorre em um momento em que os principais centros internacionais de monitoramento climático apontam avanço das condições favoráveis ao El Niño no Pacífico Equatorial. O Centro de Previsão Climática da NOAA, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, estima 82% de chance de o fenômeno se formar entre maio e julho de 2026 e 96% de probabilidade de persistir entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. O boletim também indica que há chance combinada de cerca de dois terços para um El Niño forte ou muito forte no trimestre de novembro de 2026 a janeiro de 2027.

Projeção do modelo CFS.v2 aponta avanço para condições de El Niño no próximo mês, com manutenção do fenômeno ao longo do verão 2026/27 no Hemisfério Sul (Imagem: NOAA/divulgação)

Apesar disso, Nobre pondera que ainda não é possível cravar se o evento será um Super El Niño. Para ele, a maior probabilidade neste momento é de um fenômeno de intensidade média a forte, com possibilidade de se tornar muito forte. “Algumas pesquisas, inclusive, já começam a analisar se este poderá ser o El Niño mais forte do registro histórico, mas essa questão ainda não pode ser afirmada com certeza. De qualquer forma, o risco de ser um El Niño forte é grande, e este é um ponto muito importante para nos prepararmos rapidamente nos próximos meses”, diz.

A preocupação do climatologista é agravada pelo contexto do aquecimento global. Nobre lembra que os anos recentes estiveram entre os mais quentes do registro histórico e que o excesso de energia retido no sistema climático tem aquecido também os oceanos. Como o El Niño nasce do aquecimento anormal das águas do Pacífico Centro-Leste Equatorial, esse cenário pode intensificar os efeitos do fenômeno.

“Enquanto persistir o aquecimento global, e certamente será por não menos do que séculos, nós temos que estar preparados para o fato de que os El Niños, em média, vão ficar mais fortes”, afirma, salientando que eventos extremos como ondas de calor, chuvas excessivas, secas, rajadas de vento, incêndios florestais e ressacas tendem a ganhar intensidade em um planeta mais quente.

O meteorologista Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), também avalia que ainda é cedo para definir a intensidade do fenômeno. Segundo ele, a estação de transição reduz a confiabilidade dos modelos climáticos, e não é possível classificar um evento apenas pela observação da temperatura da massa de água do oceano.

“É prematuro falar qualquer coisa em relação à intensidade do El Niño somente observando a temperatura da massa de água do oceano, especialmente agora, durante a estação de transição”, explica Sampaio, também apontando que, a partir de junho, os modelos tendem a ficar mais confiáveis, permitindo uma leitura mais precisa sobre a evolução do aquecimento no Pacífico.

Agências internacionais

O boletim da NOAA mostra que as condições atuais ainda são neutras, mas com sinal de alerta para El Niño. As temperaturas da superfície do mar no Pacífico Equatorial central e leste estão próximas ou acima da média. Nas últimas medições semanais, as anomalias chegaram a 0,5°C na região Niño 3.4, uma das principais áreas usadas para monitorar o fenômeno, e a 1,3°C na região Niño 1+2.

Para que o El Niño esteja configurado, no entanto, não basta o aquecimento da superfície do oceano. É preciso que esse aquecimento persista e venha acompanhado de resposta da atmosfera, como o enfraquecimento dos ventos alísios, que sopram de leste para oeste ao longo da Linha do Equador. Essa mudança altera a circulação atmosférica e interfere no regime de chuvas e temperaturas em diferentes partes do planeta.

Impactos no Brasil

No Brasil, os impactos variam conforme a região. O El Niño costuma favorecer a seca no norte e no leste da Amazônia e em parte do Nordeste, principalmente no primeiro semestre. No Sul, o fenômeno está associado ao aumento das chuvas, especialmente na primavera. No Sudeste e no Centro-Oeste, pode contribuir para temperaturas acima da média e episódios de ondas de calor.

Para Carlos Nobre, o problema é que o país está hoje mais vulnerável do que em décadas passadas, mesmo diante de fenômenos de intensidade semelhante. A perda de vegetação nativa, o desmatamento, a ocupação irregular de encostas e margens de rios e a redução da cobertura vegetal nas cidades ampliam os riscos associados ao calor extremo, à seca e às chuvas intensas.

“Sim, o Brasil está mais vulnerável aos El Niños hoje do que no passado, mesmo para fenômenos com a mesma intensidade”, afirma, explicando ainda que cidades com pouca vegetação podem registrar temperaturas muito superiores às de áreas arborizadas durante ondas de calor, o que aumenta riscos à saúde, especialmente entre populações mais vulneráveis.

Na Amazônia, Nobre alerta que a seca associada ao El Niño pode reduzir a umidade do solo e intensificar o calor. No Nordeste, o fenômeno pode agravar períodos de estiagem. No Sul, chuvas excessivas podem elevar o risco de enchentes e deslizamentos, principalmente em áreas onde a vegetação foi retirada e onde há ocupação de encostas ou margens de rios.

O climatologista também destaca que a combinação entre El Niño, aquecimento global e fragilidade territorial impõe um desafio urgente de adaptação. Isso inclui planejamento urbano, recuperação de vegetação, proteção de encostas, preparação da defesa civil, gestão de recursos hídricos e atenção a setores como agricultura, energia e abastecimento de água.

Para Nobre, a preparação não pode esperar a confirmação de um Super El Niño. O risco de um evento forte, em um país mais exposto a extremos climáticos, já deveria ser suficiente para mobilizar respostas preventivas. “Nós temos que estar preparados agora para todo tipo de fenômeno e todo tipo de evento meteorológico. Daqui para frente, nós temos que nos preparar porque eles sempre virão com mais força”, afirma.

Confira a entrevista completa com o climatologista Carlos Nobre:

Os prognósticos apontam que, este ano, teremos um Super El Niño. Como o senhor avalia esse prognóstico? Ainda é cedo para definir ou realmente temos de nos preparar?

Sem dúvida, teremos um El Niño. As previsões indicam que o fenômeno já deve começar agora, no mês de junho. É a partir de junho e julho que saberemos qual intensidade esse El Niño poderá atingir no segundo semestre deste ano, afetando praticamente todo o Brasil e estendendo-se até os primeiros meses de 2027.

Há, sim, uma probabilidade considerável de que ele seja forte ou muito forte. É improvável que seja um El Niño muito fraco, mas ainda precisamos esperar os meses de junho e julho para termos uma previsão mais precisa. A maior probabilidade é de que seja de intensidade média a forte, podendo até ser muito forte.

Algumas pesquisas, inclusive, já começam a analisar se este poderá ser o El Niño mais forte do registro histórico, mas essa questão ainda não pode ser afirmada com certeza. De qualquer forma, o risco de ser um El Niño forte é grande, e este é um ponto muito importante para nos prepararmos rapidamente nos próximos meses.

Este ano temos um agravante, que é o aquecimento global. Isso pode fazer com que os impactos do fenômeno sejam ainda maiores dos que os de 83 e 95?

Nós tivemos, nestes anos de 2023, 2024, 2025 e continuando em 2026, os anos mais quentes do registro histórico devido ao aquecimento global. Na verdade, para encontrar temperaturas quase 1,5°C mais quentes do que antes do aquecimento global, nós temos que voltar ao último período interglacial, entre 120 mil e 130 mil anos atrás.

E o que acontece quando o planeta está mais quente devido ao aquecimento global pela emissão dos gases de efeito estufa, que absorvem mais radiação infravermelha e jogam parte dessa radiação para a superfície, aquecendo-a? Uma grande parte, mais de 80% dessa energia, vai para os oceanos, aquecendo as águas. Então, o que isso implica? Implica que esses eventos extremos , como ondas de calor, chuvas excessivas, secas, rajadas de vento, incêndios florestais e ressacas, ficam mais fortes no mundo inteiro, porque a atmosfera está com mais energia.

E o que nós sabemos também é que agora os oceanos estão mais quentes, inclusive o Oceano Pacífico, que é onde ocorre a geração do El Niño. Portanto, nós temos que nos preparar: enquanto persistir o aquecimento global, e certamente será por não menos do que séculos, nós temos que estar preparados para o fato de que os El Niños, em média, vão ficar mais fortes. Porque o El Niño começa quando a temperatura no Pacífico Centro-Leste Equatorial aumenta, e aumenta muito. Os ventos alísios, que vêm da América Latina sobre o Pacífico, diminuem; isso faz a água quente ficar mais quente, pois não há tanto vento para empurrá-la lá para o oeste do Pacífico, em direção à Austrália e à Indonésia.

Então, essa é a razão física da sua existência. Sempre existiu o El Niño, mas, com o aquecimento global, todos esses fenômenos ficam mais fortes, principalmente os El Niños. Portanto, nós temos que estar preparados porque, de agora em diante, El Niños que aconteciam raramente no passado vão se tornar mais fortes. Como, por exemplo, o El Niño de 2015/2016, que foi muito forte e considerado o El Niño mais forte do registro histórico, e também o de 2023/2024, outro El Niño muito forte. Nós temos que estar preparados agora para todo tipo de fenômeno e todo tipo de evento meteorológico. Daqui para frente, nós temos que nos preparar porque eles sempre virão com mais força.

Evolução do índice ONI mostra a intensidade dos eventos de El Niño e La Niña entre 2014 e 2026. Os tons em vermelho indicam aquecimento anormal do Pacífico Equatorial, associado ao El Niño, com destaque para os episódios fortes de 2015/2016 e 2023/2024. Já os tons em azul mostram períodos de resfriamento, característicos da La Niña. A série reforça o alerta de que, em um planeta mais quente, fenômenos climáticos naturais tendem a produzir impactos mais intensos e exigem maior preparação (Imagem: NOAA/divulgação)

O Brasil está mais vulnerável hoje aos impactos de um El Niño forte do que estava nas décadas passadas? O que mudou em termos de ocupação do território, desmatamento, urbanização e eventos extremos?

Sim, o Brasil está mais vulnerável aos El Niños hoje do que no passado, mesmo para fenômenos com a mesma intensidade. Mas lembre-se do que eu falei anteriormente: os El Niños vão sempre ficar mais fortes enquanto a temperatura do planeta continuar aquecendo. Realmente, aumentou a vulnerabilidade aos impactos do El Niño. O Brasil sofre com esse fenômeno, muito comumente, por meio do aumento considerável das chuvas no Sul, principalmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, de secas em grande parte da Amazônia e também em grande parte do Nordeste, na região da Caatinga, e também de ondas de calor no Centro-Oeste e no Sudeste, além de eventos de chuva muito intensa nessa mesma região.

E o que acontece? Por décadas e décadas de desmatamento em geral, e principalmente porque estamos perdendo há muitas décadas a vegetação urbana,  a maioria das cidades brasileiras perdeu muito da sua cobertura vegetal, o impacto meteorológico do El Niño aumenta todo o risco quando essa vegetação é perdida. Vamos pensar: em uma onda de calor em cidades sem vegetação, as temperaturas das áreas desprovidas de verde, algo muito comum nas favelas, podem ser de 6 a até 10 graus mais quentes do que em uma área de floresta na mesma região urbana. Isso representa um enorme risco. As ondas de calor hoje já estão levando, nesses últimos anos muito quentes, a mais de 500 mil mortes por ano no mundo, principalmente de pessoas idosas, e no Brasil a mais de 10 mil mortes por ano.

Um El Niño em um lugar onde há ondas de calor afeta principalmente o Sudeste e o Centro-Oeste, mas também a Amazônia e o Nordeste, porque na Amazônia ocorre uma seca muito forte. Isso faz com que haja menos água no solo para absorver a energia do sol, evaporar e transpirar pelas folhas das plantas. Portanto, ali também ocorrem ondas de calor, como foi em 2023/2024, o que traz um enorme risco para a Amazônia em grande escala pelo desmatamento; mas as cidades amazônicas também perderam muita de sua vegetação urbana. Essas mudanças, então, causam grandes impactos. Além disso, nos lugares onde o El Niño causa muita chuva, como o Sul do Brasil, principalmente Rio Grande do Sul e Santa Catarina, quando se retira a vegetação, as populações que moram em encostas correm um enorme risco.

Esse é o fator que mais leva a mortes no Brasil durante eventos de chuva extrema. As populações que estão às margens dos rios também sofrem muito porque, ao retirarem praticamente toda a vegetação ciliar, a chuva forte não fica retida no solo, como ocorreria no solo de uma floresta ou de um local com muita vegetação. A água escorre, provoca erosão e leva os sedimentos para os rios, aumentando o nível do rio e fazendo com que a água chegue muito rápido a eles. Então, é aquilo que eu falei: o que mais leva a mortes por chuvas extremas são os deslizamentos, e dezenas de milhões de brasileiros moram em áreas de encostas com risco. De novo, um fenômeno extremo como o El Niño, com chuvas excessivas no Sul do Brasil, faz esses problemas serem muito fortes, principalmente nos lugares de onde se tirou a vegetação.

Quais regiões brasileiras tendem a ser mais afetadas por um El Niño intenso e de que forma esses impactos costumam aparecer em cada uma delas?

O El Niño faz o Pacífico Central e Centro-Leste ficar muito quente. Com isso, a evaporação ali aumenta bastante, transformando a região em uma área de fortes chuvas. O ar sobe nesse local e passa a descer sobre o centro, o leste e o nordeste da Amazônia, além de grande parte do Nordeste do Brasil. Quando o ar desce, ele reduz drasticamente a formação de nuvens, o que provoca as secas, que também costumam estar associadas a ondas de calor.

Lá no Sul, ocorre outro fenômeno: o El Niño gera um jato subtropical vindo do centro do Pacífico. Esse jato atua no topo da troposfera, a uma altura de 10 a 15 quilômetros, e se acelera ao chegar ao Sul do Brasil. Quando isso acontece, ele puxa o ar de baixo, o que intensifica os sistemas meteorológicos que passam pela região, como frentes frias ou ciclones extratropicais. Esse ar ascendente acaba formando ainda mais chuva. Esse é mais um fenômeno com explicação meteorológica que fica bem mais forte sob a influência do El Niño.

Como vimos de forma marcante no El Niño de 2023/2024, a temperatura do Oceano Atlântico na costa da Argentina, do Uruguai e do Rio Grande do Sul estava extremamente elevada, acima de 27 graus. Isso aumentou muito a evaporação da água do mar, gerando o vapor que forma as nuvens, o que ajuda a explicar por que as chuvas ficam mais intensas. Além disso, o El Niño faz com que as frentes frias fiquem estacionadas na região, e esse bloqueio dificulta a chegada do ar frio ao sul do Centro-Oeste e ao Sudeste, gerando também as ondas de calor. Esses são os principais fenômenos diretamente associados ao El Niño em todo o Brasil.

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