Crise climática já altera rotina dos brasileiros e amplia apoio à adaptação

Levantamento do Instituto Talanoa e Ipsos mostra que os impactos das mudanças climáticas já fazem parte do cotidiano, afetam saúde, alimentação e moradia, e encontram respaldo social para medidas de adaptação

As mudanças climáticas deixaram de ser uma preocupação abstrata para ocupar espaço concreto na vida dos brasileiros. Pesquisa nacional do Instituto Talanoa em parceria com a Ipsos mostra que a percepção sobre o agravamento da crise climática avançou no país, enquanto cresce o apoio a medidas de adaptação para reduzir danos causados por eventos extremos.

Segundo o levantamento, a preocupação com as mudanças climáticas atingiu, em 2026, o maior nível da série histórica acompanhada pela Ipsos desde 2016. O avanço, de acordo com o estudo, indica que o tema passou a ocupar posição mais central na agenda pública e no debate social.

O conceito de adaptação climática já circula entre a maioria da população. Oito em cada dez entrevistados, o equivalente a 81%, afirmaram já ter ouvido falar no termo. Apesar disso, o conhecimento aprofundado ainda é restrito: apenas 13% disseram conhecê-lo muito bem.

Quando confrontados com possíveis definições, 62% associaram adaptação climática à ideia de reduzir danos diante de um clima que já está mudando, o que mostra compreensão parcialmente correta do conceito. Ainda assim, parte dos entrevistados confundiu adaptação com mitigação, plantio de árvores ou obras isoladas contra enchentes. A pesquisa também aponta que a forma de nomear o tema interfere diretamente na compreensão pública. A expressão “adaptação às mudanças do clima” foi considerada a mais clara por 43% dos participantes, à frente de termos como “resiliência climática”, que teve apenas 3%.

A percepção de que os eventos extremos estão mais frequentes já se consolidou. Sete em cada dez entrevistados disseram notar aumento desses episódios na região onde vivem. Além disso, os impactos são vistos como próximos: 24% afirmaram que eles atingem diretamente a si e suas famílias, enquanto 26% citaram pessoas da própria cidade ou região.

Os reflexos já ultrapassam a percepção e entram na experiência direta. Um em cada quatro brasileiros, ou 24%, relatou ter precisado sair de casa temporariamente por causa de eventos climáticos extremos, como enchentes, deslizamentos, incêndios ou ondas de calor.

Nos últimos 12 meses, os eventos mais vividos pela população foram: onda de calor extremo, mencionada por 48% dos entrevistados, falta de energia elétrica, com 42%, e tempestades fortes, com 35%. Também aparecem entre os impactos mais relatados a falta ou escassez hídrica, doenças transmitidas por mosquitos, enchentes, fumaça de incêndios florestais, frio intenso incomum e deslizamentos de barreiras.

A pesquisa mostra ainda que os efeitos da crise climática são sistêmicos e se espalham por várias dimensões da vida cotidiana. Saúde aparece como a área mais afetada, citada por 40% dos entrevistados. Em seguida, vêm alimentação e conta de luz, ambas com 37%, além de moradia, mobilidade e trabalho. O resultado sugere que o problema já não se limita ao impacto imediato de um evento extremo, mas compromete rotinas, despesas e condições básicas de vida.

Mesmo diante de custos e transtornos de curto prazo, há respaldo social para políticas de adaptação. O levantamento mostra que 66% apoiam medidas como obras urbanas, mudanças no trânsito e novas regras de construção para enfrentar eventos extremos. Apenas 9% se disseram contrários. O apoio aparece em todas as regiões do país, com maior índice no Sudeste, onde chega a 73%. No Sul, embora o percentual seja menor, a maioria também se posiciona favoravelmente, com 58%.

A população, porém, espera que essa agenda seja liderada pelo poder público. Para 68% dos entrevistados, o Governo Federal deveria assumir a dianteira, seguido pelos governos estaduais, com 51%, e pelas prefeituras e Defesas Civis municipais, com 43%. Apesar dessa expectativa, o estudo aponta um vácuo de liderança percebida: só 18% identificam o Governo Federal como ator que hoje conduz essa agenda, enquanto 16% afirmam que ninguém lidera e 15% dizem não saber quem estaria à frente das ações.

Na política, o tema aparece com potencial de ampliar apoio eleitoral. De acordo com a pesquisa, 35% afirmaram que com certeza votariam em candidatos com propostas claras de adaptação climática, e outros 40% disseram que provavelmente votariam. O apoio é ainda mais forte entre jovens da geração Z, mulheres e integrantes das classes AB.

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