Os microplásticos já fazem parte do cotidiano humano. Essas partículas microscópicas estão presentes na água, no ar, nos alimentos e até no organismo humano, segundo alerta o biólogo Daniel Gosser Motta, vice-presidente do Conselho Regional de Biologia da 10ª Região (CRBio-10). Para ele, trata-se de um problema ambiental que ultrapassou fronteiras ecológicas e passou a atingir diretamente a saúde pública.
“O problema dos microplásticos é silencioso, mas de grande impacto, porque conecta saúde humana, animal e ambiental”, afirmou o biólogo em entrevista ao podcast Sustentabilidade Brasil.
De acordo com Motta, a presença dessas partículas na cadeia alimentar amplia a preocupação da comunidade científica, já que os efeitos de longo prazo ainda são pouco compreendidos. “Sem um olhar integrado, o problema tende a se agravar e trazer consequências sociais e econômicas”, alertou.
A crescente presença desses poluentes no ambiente tem impulsionado pesquisas em diferentes áreas da ciência. Entre elas, a biotecnologia ambiental surge como um dos campos mais promissores para encontrar soluções naturais capazes de reduzir o acúmulo de resíduos plásticos.
Uma dessas descobertas envolve o fungo amazônico Pestalotiopsis microspora. Pesquisadores identificaram que esse organismo é capaz de utilizar poliuretano como única fonte de carbono, degradando o plástico por meio de enzimas específicas.
O fungo produz enzimas chamadas serina-hidrolases, que quebram as longas cadeias do polímero e transformam o material em moléculas menores. Esses fragmentos passam então a ser utilizados como fonte de energia pelo próprio organismo.
Outra característica que chama atenção dos cientistas é a capacidade do fungo de atuar em ambientes sem oxigênio. Essa propriedade amplia o potencial de aplicação em locais onde a decomposição convencional é limitada, como camadas profundas de aterros sanitários.
Estudos laboratoriais indicam que, em condições ideais, o processo biológico pode acelerar significativamente a decomposição de materiais sintéticos. Ainda assim, a aplicação em larga escala depende de protocolos de controle ambiental e de sistemas de cultivo capazes de manter a atividade enzimática do fungo.
Microplásticos e tratamento da água
Além da degradação de plásticos, outra linha de pesquisa busca impedir que os microplásticos cheguem ao consumo humano. Nesse campo, cientistas brasileiros investigam o uso de substâncias naturais no tratamento da água.
Um estudo realizado no Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (ICT-Unesp), em São José dos Campos, mostrou que sementes de moringa (Moringa oleifera) podem ajudar na remoção de microplásticos da água.
Publicado na revista científica ACS Omega, o trabalho indica que o extrato salino das sementes apresenta desempenho semelhante ao do sulfato de alumínio, produto tradicionalmente utilizado nas estações de tratamento de água.
“Mostramos que o extrato salino das sementes tem uma performance parecida ao do sulfato de alumínio, usado em estações de tratamento para coagular a água com microplásticos. Em águas mais alcalinas, ele teve um desempenho até melhor do que o produto químico”, conta Gabrielle Batista, primeira autora do estudo, realizado como parte de seu mestrado no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil e Ambiental (PPGECA) da Faculdade de Engenharia de Bauru (FEB) da Unesp.
O método atua no processo de coagulação, etapa fundamental no tratamento da água. Poluentes como microplásticos possuem carga elétrica negativa e tendem a se repelir, o que dificulta sua retenção nos filtros convencionais.
Quando coagulantes naturais, como o extrato de moringa, são adicionados à água, essa carga elétrica é neutralizada. As partículas passam então a se agrupar, formando flocos maiores que podem ser retidos pelos filtros de areia.
Nos experimentos, os pesquisadores utilizaram água contaminada com policloreto de vinila (PVC), um dos microplásticos considerados mais preocupantes para a saúde humana devido ao potencial mutagênico e cancerígeno.
A análise das partículas antes e depois do tratamento foi feita por microscopia eletrônica de varredura. Os resultados mostraram que a eficiência da moringa na remoção das partículas foi semelhante à obtida com o sulfato de alumínio.
Segundo o coordenador da pesquisa, Adriano Gonçalves dos Reis, a principal limitação identificada até agora é o aumento de matéria orgânica dissolvida na água tratada. Mesmo assim, o método pode ser uma alternativa de baixo custo em pequenas comunidades e propriedades rurais.
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