“A diferença entre uma idade glacial e uma não glacial, como a que vivemos hoje, em termos de temperatura média, é de apenas 6 graus. Assim, com os 1,4 graus a mais que devemos atingir em 2026, é como se estivéssemos a um quarto do caminho no outro sentido, no sentido de um superaquecimento do planeta.”
A constatação é do professor Emilio Lèbre La Rovere, membro do IPCC da ONU, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenador do Centro de Estudos Integrados sobre Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (CentroClima/PPE-Coppe) e uma das principais referências no país em planejamento energético, análise de cenários e políticas públicas para descarbonização.
A Terra febril tem dado sinais de adoecimento que ficam cada vez mais evidentes. No Brasil, no final de dezembro, em meio a uma intensa onda de calor, autoridades emitiram alerta vermelho para diversos estados. Já no início de janeiro de 2026, uma forte onda de frio se espalhou pela Europa, provocando transtornos no transporte aéreo, ferroviário e rodoviário. Fenômenos que, à primeira vista, parecem contraditórios, mas que revelam a complexidade do sistema climático em um planeta em aquecimento.
Crise climática
Segundo La Rovere, o aumento da energia acumulada na superfície da Terra intensifica tanto os extremos de calor quanto os de frio. “O fato de haver mais energia no sistema causa ondas de calor mais severas no verão, mas também veranicos em pleno inverno e um aumento na frequência e na intensidade de tempestades de neve”, explica.
Na prática, isso significa que os impactos do aquecimento global não são homogêneos. As mudanças se manifestam de forma regionalmente diferenciada, com elevação das temperaturas médias, mínimas e máximas, além de uma maior frequência e intensidade de eventos extremos, como furacões, ciclones, tempestades tropicais, ondas de calor e secas. Soma-se a esse cenário a elevação crônica do nível do mar, impulsionada pelo aquecimento dos oceanos e pelo derretimento parcial de geleiras e calotas polares.
“As estatísticas mostram uma incidência muito maior de eventos climáticos extremos ligados ao aumento da temperatura, que também altera os padrões de chuva e de umidade. Mais calor no sistema significa verões mais longos e intensos, mas também invernos com fenômenos extremos mais frequentes”, observa o pesquisador.
No Brasil, os efeitos já configuram zonas críticas de vulnerabilidade. “Mesmo quando a média anual de chuvas não muda, o comportamento dessa média se altera”, explicou La Rovere. No Sudeste, por exemplo, há mais dias secos intercalados com menos dias chuvosos, porém com volumes de precipitação muito maiores. “Isso é extremamente nefasto para as grandes metrópoles, que já sofriam com tempestades de verão e agora enfrentam eventos ainda mais intensos.”
Outro ponto sensível é o semiárido nordestino. “Estamos falando da região semiárida mais populosa do planeta, com cerca de 30 milhões de pessoas”, ressalta. Segundo ele, a seca, historicamente recorrente, tende a se agravar em intensidade e frequência, atingindo sobretudo agricultores familiares, que já convivem com elevada vulnerabilidade social e econômica.
Crise climática e desigualdade
Para além dos impactos físicos, a crise climática também aprofunda desigualdades sociais. É o que destaca Thales Machado, assessor de Defesa dos Direitos Socioambientais da Conectas Direitos Humanos.
Embora a crise climática afete toda a sociedade, Machado ressalta que seus efeitos não se distribuem de forma igual. “Os impactos recaem de maneira desproporcional sobre grupos historicamente vulnerabilizados, como mulheres, povos indígenas e quilombolas, povos e comunidades tradicionais, pessoas negras, crianças, idosos, pessoas com deficiência e outras populações marginalizadas”, afirma.
Segundo ele, reconhecer esses marcadores sociais é essencial para a formulação de respostas eficazes. “É isso que chamamos de justiça climática: colocar os direitos humanos no centro da ação climática”, resume.
Preparar-se para evitar o pior
“O clima já mudou e não vai voltar ao que era. Precisamos nos preparar para uma realidade que tende a se agravar”, alerta La Rovere. As projeções indicam que, se nenhuma medida adicional for adotada além dos compromissos já anunciados, a temperatura média global pode chegar a cerca de 2,7 graus centígrados, mesmo com o cumprimento do Acordo de Paris.
Para evitar esse cenário, o professor defende mais ambição e cortes imediatos nas emissões. “Esse esforço precisa ser feito agora e nas próximas décadas”, afirma. Segundo ele, isso passa, necessariamente, pelo fortalecimento do financiamento climático. “Os países em desenvolvimento precisam de recursos para investir em infraestrutura de baixo carbono e resiliente. Muitas vezes são projetos rentáveis, mas com riscos elevados para investidores.”
Mobilizar o capital privado, acrescenta, é indispensável. “Apenas recursos públicos não serão suficientes. É preciso criar garantias e mecanismos de redução de risco para atrair investimentos em mitigação e adaptação”, conclui. Para La Rovere, enfrentar a crise climática já não é uma escolha, mas uma condição para reduzir danos, proteger populações vulneráveis e garantir um futuro minimamente estável em um planeta cada vez mais quente.
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