Turismo regenerativo ganha força e propõe visitante como agente ativo

Modelo apresentado na Casa Sustentabilidade Brasil durante a COP30 destaca o turista como figura participativa da regeneração ambiental

Turismo regenerativo

Mais do que tentar reduzir ao mínimo os impactos negativos no meio ambiente, o visitante pode se tornar membro ativo da restauração de ecossistemas. É o que propõe o chamado turismo regenerativo. Na prática, é deixar o local por onde passou ainda melhor. As possibilidades são muitas. Participar da plantação de árvores nativas, hospedar-se em pousadas que investem na recuperação ambiental e até mesmo participar, junto com os moradores, da coleta de alimentos sustentáveis. Mais do que um descanso, o turismo regenerativo é uma imersão no ambiente, contribuindo, ajudando e aprendendo.

Esse foi o tema da conversa com a pesquisadora e empreendedora Tatiana Dorim, no SustentaCast, na Casa Sustentabilidade Brasil, durante a COP30, em Belém. Em entrevista ao SustentaCast, ela apontou que o turismo regenerativo representa uma virada de paradigma em relação ao turismo sustentável.

“O turismo sustentável ainda tem uma noção passiva, de mitigação de impactos. O regenerativo parte da ideia de protagonismo: comunidade e turista atuam juntos para a regeneração do território”.

No modelo apresentado por Tatiana, a comunidade deixa de ser apenas receptora da atividade turística e passa a liderar soluções para desafios locais, ambientais, sociais ou econômicos. O turista, por sua vez, deixa de ser observador e passa a ser ator da regeneração.

Por exemplo, uma comunidade ribeirinha que enfrenta um passivo ambiental após uma queimada poderia integrar o visitante em ações de recuperação, como plantar e cuidar de árvores, participar de rodas de conversa ou contribuir com conhecimentos específicos. “É uma junção de soluções. O turista deixa uma pegada positiva e se torna sujeito ativo naquele território”, afirmou.

Reencontro com práticas ancestrais

Além disso, Tatiana destaca que o movimento está alinhado com mudanças sociais recentes. A pandemia despertou novos hábitos, ampliou a consciência sobre saúde, conexões humanas e valorização do cotidiano. O aumento do acesso à informação também ampliou o interesse por outras culturas. Dessa forma, esse é um passo fundamental para vivências mais profundas.

Portanto, para Tatiana, o turismo regenerativo “retoma práticas ancestrais de reciprocidade”, semelhantes às trocas que existiam antes da economia monetária. “É a volta a valores básicos: troca justa, participação e vínculo com o outro”.

Turismo regenerativo e políticas públicas

Para Tatiana, há espaço para transformar a abordagem em políticas públicas, especialmente na gestão de parques e áreas naturais. Assim, ela defende que concessões e parcerias incluam cláusulas de manutenção e recuperação ambiental, sempre com participação comunitária e possibilidade de envolvimento ativo do turista.

Onde o modelo já desponta

No Brasil, as primeiras experiências ainda são pontuais e não há estudos consolidados. A pesquisadora cita iniciativas no sul da Bahia, na Amazônia e em outras regiões com forte presença de povos e comunidades tradicionais. Ainda assim, reforça que o país está no início da caminhada: “Estamos engatinhando, mas a mudança de chave é simples: transformar o turista em sujeito ativo e a comunidade em protagonista”.

Assim, segundo a pesquisadora, há outros desafios. Um deles é a falta de dados sobre turismo em muitos municípios, o que dificulta planejamento e comunicação com a sociedade. Ela defende que é preciso educar não apenas comunidades e gestores, mas também o turista. “A gente educa o turista mostrando que ele precisa contribuir. Ele também deve deixar sua parcela de regeneração”.

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