Turismo regenerativo ganha força como caminho para conservar e transformar territórios

Modelo aposta em ciência, engajamento comunitário e vínculos duradouros para gerar impactos positivos além da visita

O turismo regenerativo vem ganhando força como uma das respostas mais consistentes aos limites do turismo convencional. Mais do que reduzir impactos, essa abordagem propõe uma inversāo de lógica: o visitante deixa de ser apenas consumidor de experiências e passa a atuar como agente ativo de transformação, gerando benefícios ambientais, sociais e culturais que permanecem no território mesmo após a sua partida. Em um cenário de crise climática, esgotamento de recursos naturais e pressão sobre comunidades locais, o turismo regenerativo surge como um modelo capaz de alinhar desenvolvimento econômico, conservação da biodiversidade e fortalecimento dos vínculos humanos com os territórios.

Essa visão é defendida por Simone Siag Oigman Pszczol, diretora executiva do Instituto Brasileiro de Biodiversidade (BrBio), em entrevista na qual ela detalha como ciência, educação e engajamento comunitário são pilares essenciais para transformar o turismo em uma ferramenta de regeneração. Segundo Simone, o turismo regenerativo parte do princípio de que o visitante, ao conhecer um ambiente ou uma localidade, deve se envolver de forma mais profunda, criando conexões reais com a comunidade local e com o ecossistema, indo além da simples minimização de impactos.

Na prática, esse modelo busca acelerar processos de regeneração por meio de interações mais significativas e de uma participação ativa tanto de quem visita quanto de quem é visitado. O resultado é um visitante que constrói vínculos afetivos, assume um papel de protagonismo local e contribui para o desenvolvimento da comunidade, da cultura e do ambiente. “É um turismo mais poderoso, com capacidade real de mudança, transformação e regeneração”, resume.

Geração de conhecimento

A ciência ocupa um papel central nesse processo. A partir da geração de conhecimento sobre biodiversidade e dinâmicas humanas, informações inéditas e específicas de cada território passam a agregar valor à experiência turística e a orientar práticas mais responsáveis. Para Simone, no entanto, não basta produzir dados: é fundamental estabelecer relações de confiança e cuidado na forma como esse conhecimento é comunicado e utilizado, garantindo que ele gere benefícios concretos e compartilhados.

Um dos casos que ela cita é o projeto Ecorais em Búzios, iniciado há mais de duas décadas a partir de pesquisas científicas que revelaram a riqueza e a vulnerabilidade da biodiversidade marinha local. O trabalho contribuiu para a criação de uma área marinha protegida, subsidiou políticas públicas e envolveu diretamente pescadores, moradores e o setor turístico, transformando o conhecimento científico em materiais educativos, guias de espécies, sinalização ambiental e campanhas de sensibilização.

Outro exemplo é o Passaporte Carioca Conexão Costeira em Ação, desenvolvido em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente do Rio de Janeiro. A iniciativa apresenta áreas protegidas do estado, valoriza o patrimônio natural e cultural e estimula um turismo sustentável que desperta o senso de pertencimento e a compreensão de que a sociedade faz parte da biodiversidade que busca conservar.

Turismo regenerativo e agroturismo

Para Simone, essa lógica também se aplica ao turismo rural e ao agroturismo. A experiência turística, nesses casos, ganha potência quando inclui interação direta com atores locais e participação em ações comunitárias, culturais, educativas ou de restauração ambiental. Esse envolvimento transforma o visitante em parte do processo, fortalece o desenvolvimento local e cria relações mais maduras e empáticas com o território.

Ao apostar em parcerias de longo prazo e em arranjos sociais e ambientais duradouros, o BrBio defende um turismo que deixa de ser pontual e passa a atuar como instrumento estruturante de conservação da biodiversidade e melhoria da qualidade de vida. “Conservar exige conexão, integração e um esforço coletivo”, afirma Simone, que salienta que o turismo regenerativo representa não apenas uma tendência, mas um caminho necessário para um futuro mais equilibrado e sustentável.

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