A crise climática não é apenas ambiental. Ela é social, racial e territorial. Os impactos das enchentes, secas prolongadas, ondas de calor e insegurança alimentar não atingem todos da mesma forma. Há um padrão evidente: comunidades historicamente vulnerabilizadas sofrem mais, mesmo sendo as que menos contribuem para o agravamento do problema.
É nesse contexto que surge o Comitê Nacional de Enfrentamento ao Racismo Ambiental e Climático, com inscrições abertas até 4 de março. A iniciativa reúne os ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima, da Igualdade Racial, dos Povos Indígenas e do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar. Mais do que uma nova instância administrativa, trata-se de um movimento político relevante: colocar a justiça climática no centro das decisões públicas.
O conceito de racismo ambiental parte de uma constatação incômoda. Povos indígenas, comunidades quilombolas, população negra, agricultores familiares e moradores de periferias urbanas estão mais expostos a enchentes, deslizamentos, falta de saneamento e poluição. Dados sobre eventos extremos na América Latina mostram que áreas com menor escolaridade e renda registram maior incidência de exposição a enchentes do que bairros com melhores indicadores sociais. Isso não é coincidência. É resultado de décadas de exclusão estrutural.
Ao convocar organizações da sociedade civil para indicar representantes, o comitê amplia a participação de quem vive essa realidade no cotidiano. Essa inclusão não é simbólica. Políticas públicas formuladas sem escuta ativa tendem a ser menos eficazes. Quando as populações mais impactadas participam da construção das soluções, as estratégias se tornam mais realistas, territorializadas e duradouras.
Outro ponto relevante é a articulação interministerial. Ao integrar diferentes pastas, o comitê reconhece que a questão climática atravessa direitos humanos, desenvolvimento agrário, igualdade racial e proteção ambiental. O enfrentamento das desigualdades não pode ser fragmentado.
Criado no contexto da COP30 e formalizado por portaria interministerial em 2025, o colegiado também dialoga com instâncias voltadas à ampliação da representatividade nos debates climáticos. Seu papel inclui propor diretrizes, fomentar ações educativas e fortalecer o diálogo com órgãos públicos e entidades da sociedade civil.
O desafio agora é transformar a estrutura institucional em resultados concretos. Justiça climática não se constrói apenas com discurso. Exige orçamento, participação social efetiva e monitoramento permanente.
A abertura das inscrições é um passo. Pequeno diante da dimensão do problema, mas estratégico. Se a crise climática é coletiva, as respostas também precisam ser. E isso começa por reconhecer que não há política ambiental consistente sem enfrentar as desigualdades históricas que moldam quem sofre mais, e quem decide menos. Os formulários das documentações complementares necessárias para efetivar a inscrição estão disponíveis aqui. A homologação das inscrições e a divulgação do resultado estão previstas para até 20 de abril de 2026.
Receba as principais notícias sobre sustentabilidade no seu WhatsApp! Basta clicar aqui