Mercados de carbono: promessa climática, disputa política e o futuro do Brasil na economia verde

Entenda como funcionam os mercados de carbono, o papel do Brasil no Acordo de Paris e os desafios para garantir reduções reais de emissões

Quando governos falam em neutralidade climática e empresas anunciam metas de emissão zero, um mecanismo aparece nos bastidores dessas conversas: os mercados de carbono. Apontados como instrumento central do Acordo de Paris, esses mercados movimentam bilhões de dólares e carregam uma pergunta: são soluções reais para a crise climática ou um atalho que pode adiar as transformações necessárias?

Um estudo do Instituto Clima e Sociedade detalha como esses mecanismos funcionam na prática e quais são seus riscos e oportunidades, especialmente para países como o Brasil.

A lógica é direta e segue uma premissa simples. Cada crédito de carbono representa a redução ou remoção de uma tonelada de dióxido de carbono ou equivalente. Quem emite menos do que o limite estabelecido pode vender créditos. Quem emite mais, compra.

Existem dois grandes modelos. No mercado regulado, criado por lei, são estabelecidos limites obrigatórios de emissão para setores específicos. Empresas que ultrapassam o teto precisam adquirir créditos para compensar o excedente. Já no mercado voluntário, empresas ou instituições compram créditos espontaneamente para cumprir metas próprias de neutralidade ou melhorar sua reputação ambiental.

No papel, o sistema cria um incentivo econômico para reduzir emissões onde isso é mais barato e eficiente. Na prática, porém, a qualidade das regras é o que determina se o resultado será redução real ou apenas contabilidade climática.

O centro da controvérsia internacional está no Artigo 6 do Acordo de Paris, que regulamenta a cooperação entre países para cumprir metas climáticas. Ele permite a transferência de resultados de mitigação entre nações.

O desafio é técnico e a solução não é simples. É preciso evitar a dupla contagem, quando dois países reivindicam a mesma redução de emissões, e garantir que os créditos representem reduções adicionais, ou seja, que não aconteceriam sem o dinheiro envolvido. 

Se as regras forem frouxas, o mercado pode gerar créditos de baixa integridade ambiental. Se forem rígidas demais, pode travar investimentos e reduzir sua atratividade econômica.

Onde entra o Brasil nessa história?

Poucos países têm tanto potencial quanto o Brasil nesse debate. Com áreas florestais imensas, capacidade de restauração e matriz energética relativamente limpa, o país pode ser grande fornecedor de créditos, especialmente aqueles ligados à conservação e recuperação florestal.

Ao mesmo tempo, o país enfrenta pressão internacional por causa do desmatamento. Nessa equação, a credibilidade do mercado brasileiro vai depender da capacidade de provar que os créditos vendidos representam reduções reais e permanentes.

Projetos ligados a florestas, agricultura regenerativa e bioeconomia estão entre os mais promissores. Mas os especialistas alertam que, sem governança sólida, transparência e monitoramento rigoroso, o risco de greenwashing cresce.

Mercados de carbono e políticas públicas

Os mercados de carbono não substituem políticas públicas de redução direta de emissões. Funcionam como complemento. Se usados como única estratégia, podem criar a ilusão de progresso enquanto setores poluentes continuam operando sem transformação estrutural.

Quando bem desenhados, podem canalizar recursos privados para conservação ambiental, financiar inovação tecnológica, estimular a transição energética e gerar renda em comunidades rurais e tradicionais. A diferença entre ferramenta estratégica e mecanismo de maquiagem climática está na integridade do sistema.

O mercado de carbono é, ao mesmo tempo, instrumento econômico e disputa política. Países desenvolvidos veem nele um meio de compensar emissões de setores difíceis de descarbonizar. Países em desenvolvimento enxergam oportunidade de financiamento climático. Para o Brasil, a escolha é estratégica: estruturar um sistema robusto, com credibilidade internacional, ou entrar em um mercado de baixa qualidade, vulnerável a questionamentos. A primeira opção é mais desafiadora, exige governança e disciplina. Mas é a única aceitável.

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