O litoral do Espírito Santo reúne condições oceanográficas singulares que tornam a faixa marinha capixaba uma área estratégica para rotas migratórias de diversas espécies. A combinação entre correntes de diferentes temperaturas, relevo submarino, alta produtividade biológica, estuários e aporte de água doce cria um ambiente favorável à alimentação, reprodução e deslocamento de peixes, aves, tartarugas e mamíferos marinhos.
Segundo a doutora em Oceanografia Biológica e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Mônica Tognella, o mar territorial capixaba apresenta três grandes condições oceanográficas que explicam essa relevância. “O mar territorial capixaba possui três grandes condições oceanográficas que o tornam bastante peculiar e propício para as rotas migratórias marinhas”, afirma.
Uma dessas características está no sul do estado, sob influência da ressurgência de Cabo Frio, fenômeno que leva águas mais frias e ricas em nutrientes à superfície e eleva a produtividade marinha em uma área do Atlântico Sul Tropical. “Ao sul do estado temos a influência da ressurgência de Cabo Frio, que torna esta área no Atlântico Sul Tropical com elevada produtividade sustentada pelos nutrientes provenientes de água de fundo do Atlântico”, explica a professora.
Ainda nessa faixa do litoral, a especialista destaca a ocorrência de Laminaria brasiliensis, macroalga endêmica do Atlântico Sul e restrita, dentro do conhecimento científico atual, a essa região. A presença da espécie reforça o caráter singular das condições ambientais encontradas no litoral capixaba.
Na região central do Estado, outro fator decisivo é a Cadeia Vitória-Trindade, formação geológica marcada por extensas estruturas vulcânicas no leito oceânico. De acordo com a pesquisadora, esse relevo submarino atua como elemento de delimitação entre correntes frias vindas do sul do hemisfério e correntes mais quentes provenientes da faixa equatorial, influenciando diretamente a dinâmica marinha na costa capixaba. “Esta formação geológica do fundo oceânico delimita a influência das correntes frias, provenientes do sul do hemisfério, e aquelas mais quentes vindas do norte”, diz.
Já nas áreas mais rasas e próximas da linha de costa, há extensos habitats formados por algas calcárias, com maior ocorrência na altura do litoral de Aracruz. Esses ambientes ampliam a diversidade de habitats marinhos e contribuem para a manutenção da produtividade biológica.
No norte do Espírito Santo, a proximidade com o limite sul do Banco de Abrolhos também reforça a importância ecológica da região. Com profundidades menores e águas mais aquecidas ao longo do ano, essa faixa favorece a permanência de espécies em processos de reprodução e alimentação de filhotes. “No norte do estado temos o limite sul do Banco de Abrolhos, que mantém profundidades menores e águas mais aquecidas ao longo do ano, permitindo a permanência de espécies em reprodução e alimentação para seus filhotes”, ressalta.
Outro elemento central para essa dinâmica é a vazão do rio Doce, que despeja grande volume de água doce e nutrientes no ambiente marinho, influenciando o litoral central e norte do Estado. Para Mônica Tognella, esse aporte intensifica ainda mais a produtividade das águas capixabas.
A professora ressalta que o conjunto desses fatores ajuda a explicar por que o Espírito Santo se destaca como área de passagem e permanência de espécies migratórias. “Essa interface de águas costeiras e marinhas com diferentes temperaturas, direções de correntes e limitações destas em função do relevo tornam o território marinho capixaba extremamente fértil para a alimentação e aumento de produtividade, fatores não tão comuns em oceanos tropicais”, afirma.
Ela acrescenta que a produtividade marinha, somada à presença de estuários e praias, sustenta a presença de diversas espécies ao longo da costa. “A produtividade marinha, a ocorrência de inúmeros estuários e praias proporcionam condições ideais para peixes migratórios, aves, tartarugas e mamíferos marinhos. As correntes direcionam estes animais para a linha de costa”, destaca.
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