O Brasil tem motivos para comemorar quando o tema é a redução do desmatamento no país.
E chega à COP31 com resultados importantes na agenda de proteção das florestas.
Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em outubro de 2026, mostram que o desmatamento caiu 41,8% na Amazônia e 23,8% no Cerrado, na comparação com períodos anteriores.
Os dois biomas registraram as menores taxas de suas respectivas séries históricas.
Na Amazônia, foram desmatados 3.335 quilômetros quadrados entre agosto de 2025 e julho de 2026.
No ciclo anterior, a área havia alcançado 5.731 km².
A redução é a quinta consecutiva e representa o menor índice desde o início do monitoramento, em 1988.
No Cerrado, a área de vegetação nativa suprimida passou de 7.235,27 km² para 5.516,69 km².
É a menor taxa desde 2001, quando começou a série histórica do bioma, e a terceira redução anual consecutiva.
Os números foram divulgados pelo INPE com base no Prodes, sistema que mede a taxa anual de desmatamento por meio de imagens de satélite.
O resultado reforça a contribuição brasileira para os compromissos internacionais de proteção das florestas.
Mas também evidencia a dimensão do desafio que permanece: somente no último ciclo, os dois biomas somaram mais de 8,8 mil km² de vegetação nativa suprimida.
O que o Brasil já fez para reduzir o desmatamento
A redução dos índices está relacionada a um conjunto de políticas públicas retomadas e ampliadas a partir de 2023.
Uma das principais medidas foi a reativação dos Planos de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento, que haviam perdido espaço nos anos anteriores.
O Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) e o plano correspondente para o Cerrado (PPCerrado) passaram a orientar ações integradas de diferentes órgãos federais.
A estratégia reúne 19 ministérios e trabalha em quatro frentes: atividades produtivas sustentáveis,monitoramento e controle ambiental, ordenamento fundiário e territorial, e instrumentos normativos e econômicos.
Na prática, isso significa combinar fiscalização, proteção de áreas públicas e combate à ocupação ilegal de terras.
Além disso, dar incentivo à produção sustentável, à recuperação de áreas degradadas e mecanismos financeiros para conservar a vegetação nativa.
Monitoramento por satélite
O monitoramento por satélite também tem papel central. As informações produzidas pelo INPE permitem identificar áreas sob pressão e orientar a atuação dos órgãos ambientais.
Assim a fiscalização pode concentrar esforços em regiões com maior incidência de desmatamento e atividades ilegais.
Fiscalização e proteção dos territórios
Os dados divulgados pelo governo mostram a dimensão do trabalho de fiscalização.
Entre 2023 e 2026, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) realizou 76.095 ações de fiscalização em todo o país.
Além disso foram lavrados 25.101 autos de infração relacionados à flora, com R$ 11,8 bilhões em multas.
No mesmo período, o órgão embargou 18.630 km² de áreas e aplicou 15.306 termos de apreensão.
Somados, o montante das multas estão avaliados em R$ 2,6 bilhões. Foram emitidos 4.088 termos de destruição, no valor de R$ 1,26 bilhão.
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão das unidades de conservação federais, também ampliou sua atuação.
Entre 2023 e 2026, foram registrados 11,9 mil autos de infração ambiental nessas áreas.
As multas alcançaram R$ 2,4 bilhões, além de mais de 5 mil termos de embargo, que abrangem uma área superior a 5 mil km².
Unidades de Conservação federais
Outra frente é a ampliação das áreas protegidas. Desde janeiro de 2023, foram criadas 18 unidades de conservação federais.
E outras oito já existentes foram ampliadas, somando aproximadamente 25 mil km².
No mesmo período, 20 terras indígenas foram homologadas, abrangendo cerca de 32 mil km².
A proteção territorial é considerada uma medida importante para conter o avanço do desmatamento.
Ajuda ainda a preservar a biodiversidade e assegurar os direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais.
Apoio aos municípios e à produção sustentável
O enfrentamento do desmatamento também exige a participação de estados, municípios, produtores rurais e comunidades locais.
Nesse contexto, o programa União com Municípios busca fortalecer a capacidade de gestão ambiental em cidades da Amazônia Legal que apresentam altos índices de desmatamento.
Desde 2023, 80 municípios aderiram à iniciativa. Segundo o governo federal, R$ 780 milhões estão em execução no programa.
Setenta municípios já receberam escritórios de governança, mais de 500 pessoas foram capacitadas e cerca de 4 mil agricultores familiares receberam pagamento por serviços ambientais.
A iniciativa também prevê apoio à estrutura local de fiscalização e monitoramento, com equipamentos como veículos, embarcações, drones e computadores.
O incentivo a atividades produtivas sustentáveis é outra parte da estratégia.
A proposta é ampliar alternativas econômicas que mantenham a floresta em pé, fortaleçam a bioeconomia e gerem renda para as populações que vivem nos territórios.
O desafio de manter a redução
Os resultados divulgados pelo INPE indicam uma mudança importante na trajetória recente do desmatamento, mas não encerram o problema.
Na Amazônia, Pará, Mato Grosso e Amazonas ainda concentraram as maiores áreas desmatadas no último ciclo.
No Cerrado, Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia responderam por 74,3% da supressão registrada.
A continuidade da redução depende de fiscalização permanente e da proteção dos territórios.
Somado a isso, a regularização fundiária, recuperação da vegetação e alternativas econômicas para as populações locais.
Também exige atenção às atividades produtivas e às cadeias de comercialização, para impedir que produtos associados ao desmatamento ilegal encontrem espaço no mercado.
Na agenda que conecta a COP30 à COP31, o desafio brasileiro é transformar os avanços registrados em uma política duradoura.
Ela precisa ser capaz de conciliar conservação ambiental, desenvolvimento econômico e inclusão social.
Mais do que apresentar números menores de desmatamento, o país terá de demonstrar que consegue manter as florestas protegidas.
Deverá ainda recuperar áreas degradadas e construir uma economia que reconheça o valor ambiental, social e econômico da vegetação nativa.
COP30: compromissos internacionais e avanços brasileiros
A proteção das florestas esteve entre os temas centrais da COP30, realizada em Belém, em novembro de 2025.
A conferência reforçou a necessidade de interromper e reverter a perda de florestas e a degradação dos ecossistemas até 2030, em consonância com os compromissos climáticos internacionais.
Entre os desdobramentos da conferência está a elaboração de um Mapa do Caminho da Presidência da COP30.
Ele foi elaborado para ampliar os esforços destinados a interromper e reverter o desmatamento e a degradação florestal até 2030.
A COP30 também aprovou decisões sobre mitigação, que incluíram mensagens-chave relacionadas a florestas e resíduos.
Além disso, fortaleceu a cooperação internacional para a implementação das metas climáticas.
É importante observar que essas decisões não estabeleceram uma obrigação exclusiva para o Brasil.
Tão pouco significam que a meta de desmatamento zero já tenha sido alcançada.
O país tem uma meta própria de eliminar o desmatamento ilegal até 2030, e a continuidade dos resultados será determinante para avaliar o cumprimento desse compromisso.
Uma das iniciativas brasileiras de maior alcance internacional foi o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês).
Apresentado durante a Cúpula do Clima de Belém, o mecanismo busca remunerar países tropicais pela conservação de florestas em pé.
São feitos pagamentos de longo prazo vinculados a resultados ambientais.
A proposta procura transformar a conservação em uma atividade economicamente valorizada.
O objetivo é atrair recursos públicos e privados para países que protegem seus ecossistemas.
Na ocasião do lançamento, 53 países endossaram a declaração da iniciativa e foram anunciados mais de US$ 5,5 bilhões em recursos para sua primeira fase.
Durante a COP30, o Brasil também informou que 3,4 milhões de hectares estavam em processo de recuperação da vegetação nativa.
Isso no âmbito do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg).
O número representa quase um terço da meta nacional de restaurar 12 milhões de hectares até 2030.
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