
A participação dos povos indígenas e das comunidades locais nas decisões sobre o clima está no centro de uma reunião da Organização das Nações Unidas (ONU).
O encontro começa nesta terça-feira (3), em Antália, na Turquia e segue até 5 de novembro.
A transmissão será remota. Até o momento, porém, os organizadores ainda não disponibilizaram o link de acesso.
A discussão é promovida pelo Grupo de Trabalho Facilitador da Plataforma de Comunidades Locais e Povos Indígenas (LCIPP).
O grupo é vinculado à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC).
Realizada na Zona Azul da COP31, a 16ª reunião do grupo ocorre às vésperas da abertura oficial da conferência, marcada para 9 de novembro.
A agenda prevê discussões sobre planejamento estratégico, participação de detentores de conhecimentos tradicionais e integração das contribuições indígenas às políticas e ações climáticas.
Um dos principais objetivos é acompanhar a execução do Plano de Trabalho (PT) de Baku.
Esse PT orienta as atividades da Plataforma no período de 2025 a 2027.
O documento foi adotado durante a COP29 e estabelece seis frentes de atuação, entre elas a reunião de detentores de conhecimentos tradicionais.
Prevê também o diálogo regional, a participação ampliada dos povos indígenas e a colaboração com organismos e grupos de trabalho da Convenção do Clima.
A reunião abre ainda espaço para discutir o planejamento estratégico de longo prazo da Plataforma.
Entre os temas previstos está a chamada Mesa Redonda da Sétima Geração.
Ela é uma abordagem que propõe considerar os impactos das decisões atuais sobre as próximas gerações.
A iniciativa busca valorizar o diálogo entre gerações e a participação de jovens indígenas na construção de respostas à crise climática.
A programação inclui ainda uma invocação de abertura, conforme previsto na agenda oficial,.
Haverá ainda momentos de troca de conhecimentos entre representantes de diferentes regiões e comunidades.
Conhecimento que contribui para proteger o planeta
A presença dos povos originários no debate climático tem fundamento que vai além do reconhecimento cultural.
Relatórios científicos e estudos de organismos internacionais apontam a importância dos territórios indígenas para a conservação da biodiversidade.
Eles são fundamentais também na proteção das florestas e na capacidade de adaptação às mudanças do clima.
O relatório *Estado dos Povos Indígenas do Mundo*, publicado pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU (UNDESA), em 2025, estima que os povos indígenas representam cerca de 5% da população mundial e protegem ou administram aproximadamente 80% da biodiversidade do planeta.
O documento também destaca sua presença em cerca de 40% das áreas protegidas e paisagens ecologicamente preservadas.
Na América Latina, dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) mostram que os territórios indígenas e tribais apresentam, em geral, taxas de desmatamento inferiores às observadas em outras áreas florestais.
Na Amazônia, quase metade das florestas ainda intactas está em territórios indígenas. A organização também aponta que o reconhecimento dos direitos territoriais está associado a menores índices de perda florestal.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) reconhece que os conhecimentos indígenas e locais oferecem informações importantes sobre as transformações ambientais e contribuem para identificar respostas de adaptação.
Segundo o painel, esses saberes podem fortalecer a gestão dos recursos naturais, a conservação da biodiversidade e a capacidade de comunidades e ecossistemas enfrentarem os efeitos das mudanças climáticas.
Participação nas decisões
A discussão em Antália também coloca em evidência um desafio: transformar esses conhecimentos em participação efetiva nos processos de decisão.
A Plataforma busca ampliar o diálogo entre povos indígenas, comunidades locais, governos e organismos da Convenção do Clima.
Além disso, aproxima também suas contribuições das discussões sobre adaptação, tecnologia e financiamento climático.
A agenda da reunião prevê debates sobre a colaboração com outros organismos e grupos de trabalho da ONU e sobre o envolvimento dos países nas atividades da Plataforma.
O grupo também deverá tratar dos preparativos para a COP31. Esse processo reforça que a resposta à crise climática não depende apenas de novas tecnologias, investimentos e metas de redução de emissões.
Ela também exige a proteção dos territórios, dos modos de vida e dos conhecimentos construídos ao longo de gerações por povos que mantêm relações diretas com os ecossistemas.
Às vésperas de mais uma conferência mundial do clima, a reunião da LCIPP reforça uma questão essencial para o futuro do planeta.
A proteção da biodiversidade e o enfrentamento das mudanças climáticas também passam por garantir os direitos, a participação e o protagonismo dos povos indígenas e das comunidades que cuidam dos territórios.
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