O avanço das mudanças ambientais já impõe riscos concretos à produtividade marinha, à sobrevivência de espécies sensíveis e ao equilíbrio ecológico de áreas costeiras do Espírito Santo. O aumento da temperatura da água, a redução de oxigênio em estuários e os impactos sobre a reprodução de espécies da flora e da fauna estão entre os principais sinais de alerta apontados pela doutora em Oceanografia Biológica e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Mônica Tognella.
Segundo a pesquisadora, o aquecimento das águas interfere diretamente na produtividade local e pode provocar a morte de organismos típicos de correntes frias, como determinadas macroalgas. “As modificações em temperatura, pensando em aquecimento, vão interferir na produtividade local, proporcionando a morte de indivíduos típicos de correntes frias, como as macroalgas”, afirma.
Embora, em curto prazo, não seja possível falar em mudança das correntes em si, Mônica explica que já há indícios de alteração na velocidade de deslocamento dessas massas d’água no Atlântico Sul. Ela cita estudos que apontam a influência do Oceano Índico no aquecimento das águas de fundo, com reflexos em áreas próximas à Cadeia Vitória-Trindade e à ressurgência de Cabo Frio, dois sistemas de grande relevância para a dinâmica marinha do litoral capixaba.
Nas regiões costeiras mais rasas, o cenário se torna ainda mais delicado. A combinação entre altas temperaturas, excesso de matéria orgânica e presença de poluentes pode gerar episódios de anoxia, quando o oxigênio dissolvido na água é consumido no processo de decomposição de matéria orgânica morta. O resultado é a mortalidade de organismos aquáticos e a perda de produtividade.
De acordo com a professora, esse problema já não é apenas uma hipótese. “Isto já é realidade em estuários pequenos, pouco profundos e com limitado ingresso de maré”, diz. Ela explica que, em períodos de seca extrema no Estado, áreas sob influência de pastagens recebem maior aporte de matéria orgânica, que se deposita no leito dos rios. Durante as marés de sizígia, marcadas por correntes mais intensas, esse material é ressuspendido, reduzindo o oxigênio da água e causando a morte de peixes que entram nos estuários.
Para a pesquisadora, os efeitos do aquecimento também atingem a distribuição das espécies e desorganizam cadeias tróficas essenciais ao funcionamento do ecossistema marinho. “Mudanças de temperatura levam a modificações na distribuição das espécies, eliminação de espécies mais sensíveis e que possuem importantes funções nas cadeias tróficas, atingindo as espécies migratórias que buscam a área como fonte de alimento”, ressalta.
Os impactos se estendem ainda à capacidade de reprodução de organismos costeiros. Mônica cita estudos desenvolvidos por sua equipe com plântulas de mangue, que identificaram queda na produção de propágulos, as sementes do mangue, em anos mais secos e quentes. “Este comprometimento em produzir descendentes não é exclusivo das plantas de mangue e nem de outros vegetais. Isto também pode ocorrer com as espécies da fauna”, afirma.
A preocupação alcança também espécies emblemáticas da costa brasileira, como as tartarugas marinhas. Ao chamar atenção para o aumento da temperatura das praias, onde esses animais depositam seus ovos, a oceanógrafa levanta uma questão central para os próximos anos: “Qual será o impacto sobre a produção de machos e fêmeas das tartarugas marinhas com o aumento da temperatura das praias?”
Na avaliação da pesquisadora, compreender essas dinâmicas depende também de um esforço permanente de educação ambiental. Para ela, informar a sociedade de forma clara e acessível é condição essencial para fortalecer o senso de pertencimento e ampliar a defesa dos ecossistemas marinhos. “A educação ambiental se traduz em transformar a ciência de dados complexos em comunicação de fácil acesso”, afirma.
Mônica sustenta que uma sociedade bem informada, com base na ciência, consegue compreender que mesmo recursos naturais aparentemente distantes influenciam diretamente a sobrevivência e a qualidade de vida da população. “O indivíduo bem informado aprende a ter senso crítico, sofrendo menor impacto de ações de lobby contra o meio ambiente”, diz.
Ela destaca ainda que a educação ambiental voltada ao oceano ajuda a consolidar uma compreensão fundamental: tudo o que acontece em terra chega, de alguma forma, ao ambiente marinho. “A educação ambiental voltada para o conhecimento do oceano explica que todas as ações em terra chegam ao oceano e que existe um limite para esta resiliência e para a manutenção do equilíbrio da biosfera”, conclui.
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