Agenda climática: estados e municípios avançam e ampliam liderança

Em entrevista ao SustentaCast na Casa Sustentabilidade Brasil, Rodrigo Perpétuo analisa os avanços e entraves da agenda climática e o papel estratégico de estados e municípios

O avanço da agenda climática no Brasil passa, cada vez mais, por estados e municípios. Além disso, conta com uma mudança de postura na diplomacia global, que ainda patina para entregar financiamento e métricas de adaptação em escala compatível com a crise. Foi esse o recado central de Rodrigo Perpétuo, diretor executivo do ICLEI para a América do Sul, ao analisar o que está em jogo na COP30 e por que o debate climático precisa ser urgentemente “humanizado”, sem perder o foco nas soluções estruturantes.

A análise foi feita durante entrevista ao SustentaCast, gravado na Casa Sustentabilidade Brasil, com condução do jornalista Gilvan Capistrano ao lado de Fabrício Machado, diretor executivo do Consórcio Brasil Verde. Na conversa, Perpétuo traçou um panorama direto sobre o papel do ICLEI, os avanços recentes e os gargalos que ainda desafiam governos.

Rodrigo Perpétuo destacou o lugar do Espírito Santo na agenda climática brasileira. Para ele, o estado exerce “liderança” ao articular governos estaduais e apoiar o Consórcio Brasil Verde. O  movimento, segundo disse, recebe respaldo permanente do ICLEI.

Ele também foi categórico ao apontar o financiamento como o tema crítico desta COP30, chamada por muitos de “COP da adaptação”. Apesar de sinais positivos, a oferta de recursos segue “muito aquém da necessidade”, tanto para reduzir emissões quanto para adaptar territórios mais expostos aos impactos. 

Outro ponto sensível é a construção de indicadores comuns para medir a adaptação — tanto no nível nacional quanto no subnacional. A meta é criar parâmetros que permitam comparar o avanço de cada país e de cada governo local, mas há impasses significativos envolvendo o Grupo dos 77 mais a China, o que exigirá forte atuação diplomática brasileira.

Transição energética

Apesar das tensões, Rodrigo vê avanços concretos na transição para economias menos dependentes de combustíveis fósseis. Citou, por exemplo, a articulação liderada por Lula em torno da saída do petróleo, que já reúne cerca de 30 países. Para ele, trata-se de um número “substancial”, dado que o tema toca diretamente o núcleo da economia mundial. A transição, no entanto, deve evitar “sequelas”, especialmente nos países do Sul Global.

Na análise de Perpétuo, estados brasileiros já se movimentam para assumir papéis estratégicos na nova economia verde. No Nordeste, a transição energética tornou-se uma bandeira central; no Sudeste e no Sul, ganham força empregos ligados à inovação, à transição industrial e à tecnologia climática, em cadeias como siderurgia, mineração e automotivo. Essa transformação, observa, precisa ser acompanhada de investimentos robustos em restauração ecológica e combate ao desmatamento.

Perpétuo reforçou o peso das gestões municipais. Ordenamento territorial, mobilidade, transporte público e licenciamento urbanístico são funções que moldam diretamente a redução de emissões e a adaptação. Além disso, as compras públicas podem se transformar em ferramentas potentes para induzir critérios climáticos em obras e serviços. O que falta, segundo ele, é consciência política plena para que a agenda climática seja transversal e influencie cada política setorial.

A “humanização” da COP30

Assim, para Rodrigo, a COP30 marcou uma virada simbólica: ao ser realizada em Belém, ampliou a presença de povos indígenas, quilombolas e movimentos sociais, ausentes em outras edições. Ao comparar a COP30 com eventos anteriores — Glasgow, Sharm el-Sheikh, Dubai e Baku —, Rodrigo avaliou que o Brasil “não perdeu para nenhuma” delas em estrutura. Disse que a conferência mostrou ao mundo as condições reais de vida na Amazônia urbana e reiterou a necessidade de mais investimentos internacionais em infraestrutura, com importância equivalente à dada à preservação da floresta.

Além disso, Rodrigo Perpétuo encerrou com uma mensagem direta: governos que desejam colocar a agenda climática no centro de suas estratégias tendem a se beneficiar ao se associar ao ICLEI. E reforçou o compromisso com o Espírito Santo: consolidar a experiência capixaba nacionalmente e ampliá-la para outras regiões do mundo.

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