A onda de calor que atinge a Europa voltou a expor os riscos de um clima cada vez mais extremo. Em países acostumados ao frio e com infraestrutura urbana pouco adaptada a temperaturas tão altas, o calor intenso tem pressionado serviços de saúde, sistemas de energia, transportes e a rotina da população. A Organização Meteorológica Mundial informou que a Europa voltou a quebrar recordes de temperatura nas últimas semanas, com marcas acima de 40°C em diferentes regiões. A Reuters registrou que Paris chegou a 40,9°C em junho e que a Espanha atribuiu 1.029 mortes em excesso ao calor no mesmo mês.
Para o coordenador-geral do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Marcelo Enrique Seluchi, a leitura de um episódio isolado deve ser feita com cautela. Ele explica que ondas de calor sempre existiram e dependem de condições atmosféricas específicas, mas afirma que o conjunto dos registros mostra uma tendência clara de aumento da frequência e da intensidade desses eventos. O alerta também vale para o Brasil, especialmente em anos de El Niño, quando o aquecimento do Pacífico favorece temperaturas mais elevadas em escala global.
A Europa voltou a registrar temperaturas extremas neste verão. Até que ponto essa onda de calor pode ser explicada pelas mudanças climáticas e o que ainda depende da variabilidade natural do clima?
Eu não tenho todas as respostas para dizer até que ponto uma onda de calor específica, como esta que está acontecendo agora na Europa, tem relação direta com as mudanças climáticas. Mas mais do que olhar para a árvore, a gente tem que olhar para o bosque. Quando olhamos os registros históricos, vemos que as ondas de calor estão se tornando mais intensas e mais frequentes no mundo todo. Essa é mais uma árvore dentro desse bosque.
A causa imediata de uma onda de calor é sempre o estabelecimento de uma área de alta pressão. Ela deixa o céu sem nebulosidade, ou com pouca nebulosidade, e os raios solares incidem diretamente sobre a superfície. Isso aquece mais o ar. Também não há chuva, que é um mecanismo que ajuda a resfriar a atmosfera. No verão do Hemisfério Norte, o sol tem um poder muito grande de provocar aumento da temperatura.
Então, o que aquece durante o dia, nessa época do ano, é mais do que esfria durante a noite. E a onda de calor acontece pela persistência dessa condição por vários dias consecutivos, sem nebulosidade ou com pouca nebulosidade e sem chuva. A cada dia que passa, normalmente a temperatura fica um pouco mais elevada.
Também há uma questão de saúde muito importante. Além das temperaturas máximas muito elevadas, as temperaturas mínimas também são altas e preocupam. O corpo humano precisa de uma certa temperatura para se recuperar. Quando a temperatura mínima não cai abaixo de 25°C, por exemplo, o corpo sofre estresse. E esse estresse pode provocar desidratação e problemas renais ou cardíacos. Aí já é uma questão médica, mas o corpo pode entrar em colapso. As mortes são provocadas justamente por esse estresse gerado pela temperatura elevada, que pode levar à falência de órgãos.
É possível saber o quanto essa onda de calor é natural e o quanto ela se formou devido às mudanças climáticas?
É muito difícil atribuir um percentual à mudança climática e outro à variabilidade natural. As ondas de calor sempre existiram e acontecem por causa desses sistemas de alta pressão que se instalam e permanecem por muito tempo. A questão é que o efeito estufa vai fazendo a temperatura do planeta aumentar. A atmosfera é basicamente uma máquina térmica, que funciona com temperatura e umidade. É como uma locomotiva. Quando você coloca mais lenha, aumenta a energia. A atmosfera fica mais favorável a gerar extremos de todo tipo, tanto extremos quentes quanto extremos frios.
Como a temperatura do planeta está aumentando, o resultado é ter ondas de calor mais intensas e também mais frequentes. As ondas de frio também podem ser muito intensas, mas não estão se tornando mais frequentes da mesma forma. Não dá para dizer o grau exato de responsabilidade de cada fator. É o conjunto da obra. É olhar para trás e ver que as ondas de calor estão mais frequentes e intensas. Isso vale também para o Brasil.
O que faz as ondas de calor na Europa serem tão perigosas, mesmo em países considerados desenvolvidos e com boa infraestrutura?
A Europa sofre tanto com ondas de calor porque é uma região mais acostumada ao frio. Paris, por exemplo, está em uma latitude que, no Hemisfério Sul, seria equivalente à Patagônia. São áreas mais próximas do polo do que do Equador, ou pelo menos equidistantes, e típicas de climas mais frios.
Nos últimos anos, por causa da combinação entre aquecimento global e variabilidade natural, essas ondas de calor estão aparecendo com mais frequência. O ponto é que essas regiões não estão preparadas para o calor. A Europa está pronta para o frio. Algumas regiões estão muito bem preparadas para a chuva, como França, Inglaterra e países nórdicos. Mas não para o calor, porque décadas atrás isso era muito pouco frequente.
Alguém poderia dizer que basta instalar ar-condicionado em casa. Só que o problema é mais complexo. As construções na Europa são muito antigas. As casas não têm estrutura elétrica e logística para comportar ar-condicionado de forma generalizada.
Há ainda a questão da energia. Os países europeus, em geral, não têm boa disponibilidade de energia elétrica para uma demanda tão ampla de refrigeração. A Europa tira parte importante da energia de centrais nucleares e termelétricas. Não é como no Brasil, onde temos muita energia hidroelétrica, mais barata e abundante. Além disso, é preciso gerar e transmitir essa energia. Por incrível que pareça, mesmo sendo desenvolvida e rica, a Europa não tem uma estrutura preparada para suportar uma rede de ar-condicionado funcionando a pleno vapor de forma tão generalizada.
Há ainda o fator geográfico. A Europa é um continente mais rodeado por terra do que por oceanos. Os oceanos têm mais facilidade de manter a temperatura e o continente aquece muito mais rapidamente do que a água. Então, quando há água em volta, a temperatura aumenta menos. E esse não é o caso da Europa, mesmo com o Mar Mediterrâneo, já que o próprio nome indica que é um mar no meio da terra. É quase um mar interior, não tem uma grande extensão como o Oceano Atlântico ou o Oceano Pacífico. Por isso, tem um poder mais limitado de regular a temperatura.
A Europa também está perto do norte da África e do deserto do Saara. A temperatura no deserto é muito alta. Em muitos casos de ondas de calor, sopra vento do sul, vindo do Saara para a Europa, o que contribui ainda mais para piorar a situação.
Quando vemos eventos extremos se repetindo com mais frequência no Hemisfério Norte, que alerta isso acende para o Brasil?
É fato comprovado estatisticamente que as ondas de calor no Brasil também estão aumentando em todas as regiões do país, particularmente em anos de El Niño, quando o Oceano Pacífico aquece ainda mais. Normalmente, a água do oceano fica mais fria do que o continente e ajuda a amortecer o impacto das ondas de calor. Mas, durante o El Niño, as águas do Pacífico ficam mais aquecidas. O que normalmente ajuda a compensar um pouco o calor se torna menos eficiente.
Normalmente, anos de El Niño estão entre os mais quentes da história. Muito provavelmente, 2026 será o ano mais quente da história recente, ou estará entre os mais quentes. Se o El Niño também avançar, pelo menos parte de 2027 será afetada por esse fenômeno. Então, entre 2026 e 2027, podemos ter dois dos anos mais quentes da história recente.
Isso contribui para ondas de calor mais intensas em todo o mundo. No Brasil, certamente também sofreremos esse tipo de situação, provavelmente a partir de agosto e setembro, até o início pleno da estação chuvosa. A nossa primavera vai ser complicada.
Os impactos aparecem de diferentes formas. Há pressão sobre os recursos hídricos, porque durante ondas de calor as pessoas usam mais água e mais energia. Os próprios reservatórios evaporam mais rapidamente. Se houver atraso no início da estação chuvosa acompanhado de ondas de calor, podemos ter uma situação um pouco complexa.
Também existe a possibilidade de aumento dos incêndios. Quando a estação seca se prolonga, faz muito calor e há pouca umidade, esses elementos influenciam no aumento das queimadas. Esse cenário não é pouco provável no Brasil agora na próxima primavera.
O que precisa mudar nas políticas públicas e nos compromissos internacionais para que o aquecimento global não transforme ondas de calor extremas em eventos cada vez mais frequentes e letais?
Há todos esses acordos, como o Acordo de Paris, e as COPs, mas eu diria que eles conseguem cada vez menos. Não há consenso entre os países. Todo mundo sabe que é preciso parar de emitir gases de efeito estufa, mas ninguém quer ser o líder nesse processo.
Emitir menos gases implica fazer uma série de reformas, gastar dinheiro, reduzir lucros em alguns setores, afetar o PIB em determinados momentos e tomar medidas que não são fáceis. Então ninguém quer fazer isso. Só que a conta acaba chegando de outra forma. Quem paga são as pessoas que sofrem com as ondas de calor, com a seca, com a falta de água, com a pobreza e com a diminuição de recursos.
Outro aspecto muito importante é o desmatamento. Países que derrubam suas florestas passam a ter menos fontes de umidade. Uma floresta é uma grande fonte de umidade, e essa é uma das formas de mitigar um pouco as ondas de calor.
A energia do sol é usada basicamente para duas coisas. Parte vai para evaporar a umidade que está no solo e parte vai para aumentar a temperatura do ar. Se há pouca umidade no solo porque a floresta foi retirada, a energia vai mais diretamente para aquecer o ar. Com isso, as ondas de calor se tornam mais severas.
Então, a floresta ajuda de duas formas. Ela contribui para diminuir o aquecimento global, porque as árvores capturam dióxido de carbono, e também ajuda a mitigar diretamente as ondas de calor e as secas, porque mantém umidade no ambiente.
O Brasil também está secando. A chuva anual vem diminuindo ao longo das décadas. Também chove menos porque há pouca umidade, e há pouca umidade porque florestas estão sendo substituídas por áreas de pastagem, que evaporam muito menos. Esse processo contribui para agravar o calor, a seca e os extremos climáticos.
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