Mata Atlântica: sementes nativas e iniciação científica unem campo e escola

Projetos voltados à produção de sementes certificadas e à pesquisa com estudantes mostram como ações complementares fortalecem a restauração ambiental e a conservação do bioma no Espírito Santo

Mata Atlântica

A conservação da Mata Atlântica no Espírito Santo avança quando ciência, produção e educação caminham juntas. Dois projetos distintos, mas complementares, ajudam a ilustrar como estratégias integradas podem fortalecer a restauração ambiental, promover sistemas produtivos sustentáveis e formar uma nova geração comprometida com o bioma.

No meio rural, a criação de uma Área de Coleta de Sementes com Matrizes Selecionadas (ACS-NM), em Venda Nova do Imigrante, estabelece uma base técnica e genética fundamental para a restauração florestal. A iniciativa busca garantir, a partir de 2027, o fornecimento de sementes nativas de alta qualidade para agricultores interessados em implantar ou ampliar Sistemas Agroflorestais (SAFs), além de apoiar o cumprimento da legislação ambiental, como a recomposição de Áreas de Preservação Permanente e de Reserva Legal. 

O projeto foi desenvolvido pelo  Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), sob coordenação da professora Cristiane Coelho de Moura, e conta com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes).

Implantada em um fragmento florestal de 32 hectares, com histórico de regeneração natural de aproximadamente quatro décadas, a área reúne condições ecológicas e genéticas estratégicas. A seleção de árvores matrizes com potencial produtivo e ambiental, incluindo espécies ameaçadas de extinção, amplia a variabilidade genética das sementes e aumenta as chances de sucesso em projetos de restauração e uso sustentável. O foco inicial nas análises laboratoriais garante qualidade fisiológica e segurança no armazenamento, reduzindo riscos de perdas futuras no campo. Além de atender agricultores, a iniciativa também abre espaço para ações de interesse público, como abastecimento de viveiros municipais e projetos de reflorestamento.

Educação e conservação

Em outra frente, no Norte do Estado, a conservação ganha força a partir da educação científica. Em Linhares, estudantes participam de um projeto voltado à germinação de sementes e à produção de mudas de espécies nativas da Mata Atlântica. Inseridos em atividades reais de pesquisa, os alunos acompanham todas as etapas do processo, do laboratório ao viveiro, trabalhando com espécies típicas do bioma e avaliando seu desenvolvimento em diferentes condições. O projeto foi implantado pelo Incaper, em parceria com a Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio José de Caldas Brito.

Mais do que gerar dados técnicos para ações de reflorestamento e recuperação de áreas degradadas, a iniciativa promove o conceito de “conservação pelo uso”. Ao conhecer os potenciais das espécies nativas para alimentação, paisagismo, produção de óleos essenciais e geração de renda, os estudantes passam a enxergar a floresta não apenas como algo a ser protegido, mas também como parte ativa do desenvolvimento sustentável. O impacto extrapola os muros da escola, alcançando a comunidade por meio de palestras, atividades educativas e doação de mudas.

Mata Atlântica: ações conjuntas

A análise conjunta dessas duas experiências revela um ponto importante: proteger a Mata Atlântica exige mais do que ações isoladas. A produção de sementes certificadas cria as condições materiais para restaurar e manejar o bioma de forma sustentável no presente. A iniciação científica, por sua vez, investe no futuro, formando cidadãos mais conscientes, críticos e preparados para lidar com os desafios ambientais.

Campo e escola, portanto, não são caminhos paralelos, mas dimensões complementares de uma mesma estratégia. Quando ciência aplicada, produção sustentável e educação ambiental se articulam, a conservação deixa de ser apenas uma resposta emergencial à perda de floresta e passa a se consolidar como um projeto de longo prazo para o território e para a sociedade.

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