A disponibilidade de água doce no planeta atingiu um ponto crítico, deixando de ser apenas um risco futuro para se tornar uma condição estrutural do presente. Em 20 de janeiro de 2026, a Organização das Nações Unidas (ONU) anunciou oficialmente que o mundo entrou em um estado de “falência hídrica”, quando o consumo global de água supera, de forma contínua, a capacidade natural de reposição dos recursos hídricos.
O alerta está detalhado no relatório Global Water Bankruptcy – Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era, elaborado por pesquisadores do Instituto da Universidade das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH). O documento sustenta que o planeta ultrapassou limites seguros do ciclo hidrológico e passou a operar em um cenário de insolvência e irreversibilidade, no qual parte dos danos aos sistemas hídricos já não pode ser revertida em escalas de tempo humanas.
Segundo o relatório, cerca de 4 bilhões de pessoas (quase metade da população mundial) enfrentam escassez severa de água por pelo menos um mês ao ano, enquanto aproximadamente 75% da população global vive em países classificados como hídricos inseguros ou criticamente inseguros. Além disso, 2,2 bilhões de pessoas ainda não têm acesso à água potável gerenciada com segurança, e 3,5 bilhões carecem de saneamento adequado.
Para onde está indo a água?
A água não desaparece do planeta, é fato. O que o estudo deixa claro é que o problema não é a perda das moléculas, mas a perda da água utilizável, no lugar, no tempo e na qualidade necessários para sustentar sociedades e ecossistemas.
Segundo o relatório, a água está sendo levada para quatro destinos principais, todos eles problemáticos do ponto de vista humano e ambiental. Isso significa que grandes volumes de água doce estão sendo deslocados para compartimentos inacessíveis ou inutilizáveis como aquíferos profundamente rebaixados, compactados ou salinizados e regiões oceânicas (via rios que carregam água doce e poluição. Na prática, a água continua existindo, mas deixa de ser economicamente, ecologicamente ou tecnicamente recuperável. Ela se torna inacessível.
Mariana Klein, diretora do Instituto Sustentabilidade Brasil (ISB), destaca que essa perda de acessibilidade da água tem efeitos iniciais e diretos sobre quem já vive em situação de vulnerabilidade.
“Não podemos mais chamar de escassez o que, na verdade, é um apartheid hídrico. Enquanto setores de alto consumo mantêm suas torneiras abertas, as periferias e as comunidades rurais enfrentam o colapso estrutural. A falência hídrica rouba o tempo dessas populações já vulnerabilizadas — o tempo de buscar água, o tempo de tratar doenças e o tempo de tentar produzir alimento em solo seco”.
Da “crise” à falência hídrica
O estudo propõe uma mudança conceitual importante. Durante décadas, a escassez de água foi tratada como uma crise temporária, algo que poderia ser superado com gestão emergencial, novas infraestruturas ou ganhos de eficiência. Agora, os pesquisadores afirmam que esse enquadramento se tornou insuficiente. Em muitas regiões, os sistemas hídricos não conseguem mais se recuperar, mesmo após períodos de chuvas normais ou investimentos elevados.
A chamada “falência hídrica” ocorre quando sociedades passam a consumir não apenas o “rendimento anual” da água (rios, lagos e chuvas), mas também as reservas acumuladas, como aquíferos, solos, geleiras e zonas úmidas. O resultado é a degradação permanente do capital natural que sustenta o ciclo da água. É “gastar mais do que ganha”. A conta, portanto, não fecha.
Sinais globais de colapso
Os dados apresentados no relatório revelam um quadro de deterioração generalizada. Mais da metade dos grandes lagos do planeta perdeu volume desde o início dos anos 1990, afetando diretamente cerca de um quarto da população mundial. Rios importantes já não alcançam o mar durante parte do ano, enquanto zonas úmidas, que são fundamentais para regular cheias e secas, foram reduzidas em aproximadamente 410 milhões de hectares nas últimas cinco décadas.
A situação é ainda mais crítica no subsolo. Cerca de 70% dos principais aquíferos do mundo apresentam tendência de queda contínua, muitos deles com perda irreversível de capacidade de armazenamento. A superexploração das águas subterrâneas já provocou subsidência do solo em mais de 6 milhões de quilômetros quadrados, inclusive em áreas urbanas densamente povoadas, ampliando riscos de enchentes e danos à infraestrutura.
Impactos diretos sobre alimentos, clima e segurança
Como aproximadamente 70% da água doce retirada no mundo é usada pela agricultura, a falência hídrica ameaça diretamente a produção de alimentos e a estabilidade dos preços globais. O relatório aponta que mais de metade da produção mundial de alimentos ocorre em regiões onde o armazenamento total de água já é instável ou está em declínio, colocando em risco a segurança alimentar e os meios de subsistência de bilhões de pessoas.
Além disso, a escassez crônica de água intensifica conflitos sociais, deslocamentos populacionais e disputas geopolíticas. O estudo mostra crescimento no número de conflitos relacionados à água e alerta que a degradação hídrica se tornou um fator estruturante de instabilidade global.
Um novo modelo para a governança da água
Ao declarar a falência hídrica global, a ONU e o UNU-INWEH defendem uma mudança profunda na forma como governos e instituições lidam com a água. O relatório afirma que não é mais possível “voltar ao normal”, pois esse normal deixou de existir em muitas regiões. Em vez disso, é preciso reconhecer os limites ecológicos, redistribuir usos, reestruturar direitos de acesso e priorizar a proteção do capital natural que mantém o ciclo hidrológico.
A justiça social deve orientar a gestão da falência hídrica, O impacto social, aponta o documento, recai principalmente em populações rurais, comunidades indígenas, pequenos agricultores e moradores de áreas urbanas precárias.
Um alerta definitivo
Longe de ser apenas mais um aviso, o Global Water Bankruptcy funciona como um diagnóstico definitivo: o planeta já vive além de seus meios hídricos. “O relatório deixa claro que não se resolve apenas buscando novas fontes de água. É preciso reduzir desperdícios, proteger nascentes, aquíferos e zonas úmidas, rever modelos de produção intensivos em água e garantir governança que priorize o uso humano e ambiental”, afirma Mariana Klein.
Segundo ela, investir em saneamento, recuperação de ecossistemas e planejamento hídrico integrado é essencial para evitar perdas irreversíveis. “A solução passa por reconhecer os limites do sistema e agir antes que mais territórios se tornem hidricamente insolventes”, completa.
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