Viajar hoje envolve experiências bem diferentes das de décadas atrás. Os carros ficaram mais modernos e confortáveis, mas um detalhe curioso chama atenção de muitos motoristas: a redução de insetos mortos no para-brisa durante as viagens. A mudança vem acompanhada de outra percepção cada vez mais comum, a diminuição de borboletas e outros polinizadores e insetos em jardins, cidades e áreas rurais. Tente se lembrar da última vez que você viu um vaga-lume ao entardecer. Ou um enxame de abelhas em busca de flores.
Esse fenômeno não é apenas uma impressão. Cientistas têm registrado, em diferentes regiões do planeta, um declínio nas populações de insetos, um processo que começa a se tornar perceptível também no cotidiano das pessoas.
Segundo artigo do pesquisador Ricardo Camargo, da Embrapa Meio-Norte, esse fenômeno reflete um processo documentado pela ciência nas últimas décadas. Mesmo com menos estudos sobre insetos em comparação com outros grupos de animais, já existem evidências de mudanças significativas em sua presença no meio ambiente. Entre as principais causas estão as ações humanas, as mudanças climáticas e as transformações no uso da terra.
De acordo com Camargo, a expansão agrícola, a redução de florestas e a intensificação da ocupação humana figuram entre os fatores mais relevantes nesse processo. Ele destaca ainda a mudança de paradigma agrícola iniciada com a chamada Revolução Verde, baseada no uso intensivo de agrotóxicos e no cultivo em larga escala de poucas espécies, os chamados monocultivos.
O pesquisador aponta que resíduos de pesticidas afetam diretamente o meio ambiente e comprometem populações de insetos, especialmente polinizadores, que desempenham funções essenciais nos ecossistemas. Além disso, a expansão de lavouras e pastagens ao longo dos últimos séculos ocorreu principalmente sobre áreas naturais, como florestas e savanas, reduzindo habitats importantes para diversas espécies.
No monitoramento ambiental, alguns organismos funcionam como bioindicadores por serem sensíveis a alterações no ambiente. Segundo Camargo, borboletas e abelhas estão entre os grupos mais utilizados nesse tipo de observação científica, pois respondem rapidamente a mudanças climáticas e à degradação de habitats.
As borboletas, por exemplo, podem ser divididas em dois grupos principais: nectarívoras, que se alimentam do néctar das flores, e frugívoras, que consomem frutas fermentadas, matéria orgânica e seiva. As espécies frugívoras, em especial, são consideradas importantes indicadoras das condições ambientais.
O desaparecimento de espécies sempre é interpretado como um sinal de alerta. Quando esse processo envolve polinizadores e outros organismos que prestam serviços ecológicos essenciais, os impactos podem atingir diretamente o funcionamento dos ecossistemas.
Uma das expressões usadas por pesquisadores para descrever esse fenômeno é “apocalipse dos insetos”. O termo aparece em diferentes estudos que apontam quedas acentuadas nas populações desses organismos em diversas partes do mundo.
Segundo uma matéria publicada no Jornal da Unicamp, o desaparecimento de insetos também pode ser observado em exemplos simbólicos, como a redução de vaga-lumes em diferentes regiões. A reportagem cita pesquisas que investigam mudanças em ambientes considerados preservados, como as ilhas Fiji, na Oceania.
De acordo com a reportagem, cerca de 80% das espécies endêmicas de insetos dessas ilhas podem desaparecer. O estudo aponta que o processo começou há séculos, quando embarcações europeias levaram espécies invasoras para a região. Esses insetos passaram a competir por alimento e espaço com as espécies nativas, alterando o equilíbrio ecológico.
A mesma reportagem destaca pesquisas conduzidas por cientistas brasileiros que analisam mudanças semelhantes em biomas como a Mata Atlântica. Entre as principais pressões sobre os insetos estão o uso excessivo de pesticidas, a destruição de habitats naturais e as mudanças climáticas.
Além dos polinizadores, outros grupos também exercem funções fundamentais. A reportagem do Jornal da Unicamp destaca, por exemplo, o papel das formigas na decomposição da matéria orgânica e na manutenção da estrutura do solo, processos importantes para o desenvolvimento da vegetação e de diversas cadeias ecológicas.
Problema é global
Outro conjunto de pesquisas reforça a dimensão global do problema. Em um artigo do pesquisador Liam N. Nash, da Queen Mary University of London, estudos indicam que os insetos são o grupo animal mais numeroso do planeta, com uma estimativa de 5,5 milhões de espécies, das quais cerca de 80% ainda não foram descritas pela ciência.
Segundo Nash, os insetos desempenham funções essenciais nos ecossistemas, como a polinização de plantas, o controle de pragas e a base alimentar para diversos outros animais. O pesquisador afirma que o declínio dessas populações tem sido descrito por cientistas como uma “morte por mil cortes”, provocada por diferentes pressões associadas à atividade humana.
Em um estudo de longo prazo sobre insetos aquáticos no sistema da várzea do rio Paraná, pesquisadores identificaram quedas generalizadas nas populações de diferentes grupos, como mosquitos, efêmeras e libélulas. Os dados analisam um período de duas décadas.
Segundo o estudo citado por Nash, essas mudanças ocorreram ao mesmo tempo em que aumentou a presença de peixes invasores e ocorreram alterações na química da água. Parte dessas transformações está associada à construção de barragens ao longo do rio Paraná e de seus afluentes.
O represamento de rios altera o fluxo natural de sedimentos e nutrientes e pode tornar a água mais transparente. Essa mudança reduz a capacidade de camuflagem de muitos insetos aquáticos, tornando-os mais vulneráveis à predação por peixes invasores.
Embora a geração hidrelétrica seja considerada importante para a transição energética, pesquisadores alertam que barragens podem provocar impactos ambientais duradouros, inclusive sobre populações de insetos e outros organismos aquáticos.
Especialistas também apontam que ainda existe uma grande lacuna no conhecimento científico sobre o declínio de insetos em regiões tropicais e subtropicais. Apesar de essas áreas concentrarem a maior biodiversidade do planeta, grande parte dos estudos foi realizada na Europa e na América do Norte.
Para cientistas, ampliar o monitoramento nessas regiões é essencial para compreender melhor o impacto das atividades humanas sobre a biodiversidade e para orientar políticas de conservação em escala global.
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