- Por Elias Carvalho, presidente do Instituto Sustentabilidade Brasil
O debate sobre a crise climática precisa mostrar os riscos, mas não pode se limitar a anunciar catástrofes. Quando a comunicação produz apenas medo e pessimismo, a sociedade pode concluir que o problema é grande demais e que qualquer esforço será inútil. Precisamos fazer o movimento contrário: reconhecer a gravidade do cenário e dar visibilidade às soluções que já existem.
Essa visão também foi defendida por David Fein, vice-presidente do Earthshot Prize, em entrevista ao jornal O Globo. Criada pelo príncipe William, a iniciativa identifica projetos ambientais inovadores e oferece apoio financeiro e institucional para que eles superem barreiras, atraiam investimentos e ampliem sua atuação.
E muitas das respostas necessárias para enfrentar a crise climática já foram desenvolvidas. O desafio é oferecer condições para que essas soluções ganhem escala e produzam impactos mais amplos. Ideias inovadoras precisam não apenas de reconhecimento, mas de investimento, oportunidades de implementação e apoio de diferentes setores.
Essa reflexão também deve orientar a forma como nos preparamos para o El Niño. O fenômeno é natural e está associado ao aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, com efeitos sobre o regime de chuvas e as temperaturas em diferentes regiões do planeta. No entanto, ele ocorre agora em um mundo mais quente, o que pode ampliar seus impactos negativos. E a combinação entre o El Niño e as mudanças climáticas pode agravar secas, ondas de calor, incêndios em vegetação e prejuízos para a agricultura, a saúde e o abastecimento.
Isso não significa que devemos receber cada novo alerta climático como uma sentença inevitável. Significa que precisamos transformar conhecimento em prevenção. Os riscos existem, mas também existem meios de reduzir seus efeitos.
No Espírito Santo, o poder público começou a se antecipar. O governo estadual estruturou um trabalho integrado para acompanhar o El Niño 2026/2027, com monitoramento das condições meteorológicas, hidrológicas e ambientais. Os boletins produzidos reúnem informações sobre chuvas, temperaturas, evolução da seca, vazões dos rios, pontos de captação para abastecimento, impactos sobre a agropecuária, focos de calor e risco de incêndios.
O uso de dados para orientar decisões é uma das soluções que já temos. Monitorar permite identificar mudanças, emitir alertas, preparar os municípios e agir antes que uma situação de atenção se transforme em emergência. A prevenção custa menos, protege mais vidas e reduz prejuízos econômicos e ambientais.
Mas o poder público não pode agir sozinho. A resposta ao El Niño e às mudanças climáticas depende da participação dos municípios, das empresas, das instituições de pesquisa, das organizações da sociedade civil, dos produtores rurais e de cada cidadão.
Também nesse campo muitas soluções são conhecidas. O uso eficiente da água, a proteção de nascentes, a recuperação da vegetação, a conservação do solo, o planejamento da irrigação e a adoção de tecnologias mais econômicas ajudam a aumentar a resiliência das propriedades rurais. Nas cidades, ampliar áreas verdes, melhorar a drenagem, preservar cursos d’água e evitar a ocupação de áreas de risco reduz a exposição da população aos eventos extremos.
Dentro de casa, consertar vazamentos, evitar desperdícios, reaproveitar água quando possível e acompanhar os alertas oficiais são atitudes simples, mas necessárias. Da mesma forma, não atear fogo em lixo ou vegetação é uma contribuição direta para reduzir o risco de incêndios durante períodos quentes e secos.
As empresas também precisam incorporar o risco climático ao planejamento. Isso inclui avaliar a dependência de água, reduzir desperdícios, preparar planos de contingência e apoiar projetos capazes de gerar benefícios ambientais e sociais. Como observa David Fein, não basta encontrar boas ideias. É necessário criar condições para que elas sejam implementadas, ampliadas e cheguem a quem mais precisa.
O Brasil reúne conhecimento científico, capacidade empreendedora, biodiversidade e iniciativas ambientais com potencial para inspirar outros países. O Espírito Santo também possui experiências que podem crescer, desde a recuperação de nascentes e áreas degradadas até o desenvolvimento de sistemas mais eficientes de irrigação, monitoramento e gestão da água.
O momento exige menos imobilismo e mais apoio às respostas que funcionam. Em vez de perguntar apenas qual será a dimensão do próximo desastre, devemos perguntar quais soluções podem ser adotadas agora, quem precisa participar e como acelerar esse processo.
Enfrentar os efeitos do El Niño não depende de uma única grande medida. Depende da soma de políticas públicas, investimentos, inovação e mudanças de comportamento. Cada nascente protegida, cada litro de água economizado, cada área recuperada e cada comunidade preparada representa uma vulnerabilidade a menos.
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