IA pode ajudar no clima, mas está longe de ser solução única, diz especialista

Para o pesquisador Gustavo Macedo, a inteligência artificial só gera impacto real quando combinada a políticas públicas, governança e infraestrutura tecnológica

IA e Clima

Apontada como uma das principais apostas globais para enfrentar a crise climática, a inteligência artificial ainda está longe de ser uma solução autônoma. Em entrevista, Gustavo Macedo, pesquisador em política, inteligência artificial e sustentabilidade, professor do Insper e do Ibmec e consultor em governança tecnológica, analisa onde a IA realmente contribui para a previsão de eventos climáticos extremos, por que o Brasil está em desvantagem nessa corrida tecnológica e quais são os riscos de supervalorizar sistemas automatizados sem planejamento, governança e visão de longo prazo.

O senhor costuma dizer que a IA, sozinha, não resolve nada. Quando o assunto é crise climática, onde ela realmente ajuda e onde está sendo supervalorizada?

Existe, sim, uma supervalorização do que a inteligência artificial representa hoje, porque o uso da tecnologia tem se concentrado em aplicações padronizadas e semelhantes entre si. Essa padronização ocorre, principalmente, porque as principais ferramentas de IA estão concentradas nas mãos de poucos países e de um número restrito de grandes empresas.

Mas a inteligência artificial pode ser muito mais do que isso. Existem muitas outras possibilidades. Portanto, há uma supervalorização daquilo que a IA faz hoje, com base no que temos acesso atualmente, mas a inteligência artificial pode vir a ser uma ferramenta muito valiosa na promoção e no apoio aos objetivos climáticos.

Há uma corrida global pelo uso de IA na gestão de riscos climáticos, mas o acesso a essas ferramentas é bem desigual. O Brasil, por exemplo, não está no mesmo ritmo nessa corrida. Como isso pode nos prejudicar?

Uma das maneiras de pensar isso é considerar que, como consumidores de tecnologia pronta, ditamos muito pouco. Temos pouco poder de decidir o que é a tecnologia de inteligência artificial, como ela pode ser utilizada e quais são seus objetivos.

Como o Brasil não detém o controle nem a propriedade dessas tecnologias, e não possui empresas brasileiras competitivas em escala global nessa área, acabamos ficando muito reféns das definições, da regulação e da legislação de outros países.

Hoje se fala muito em usar algoritmos para prever secas, enchentes e outros eventos extremos. O que já funciona de verdade e o que ainda é mais promessa do que resultado?

De fato, a inteligência artificial pode ajudar a prever eventos climáticos extremos, como chuvas e secas. Isso é verdade. No entanto, isso ainda não tem se traduzido em uma tecnologia acessível tanto para o empresariado quanto para o cidadão comum brasileiro.

Isso acontece porque não se trata apenas de inteligência artificial, mas de todo um ecossistema de ferramentas que inclui grandes bancos de dados, sistemas avançados de satélite e georreferenciamento. A inteligência artificial é apenas uma engrenagem desse mecanismo complexo.

Hoje, o Brasil depende de satélites e de tecnologia de georreferenciamento de outros países, o que dificulta o monitoramento e a previsão de eventos climáticos. Muitas vezes, esses países cobram pelo acesso ou simplesmente não fornecem esses dados.

O Brasil precisaria avançar muito além do desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial. Seria necessário investir em uma política consistente de incentivo à tecnologia aeroespacial, capaz de integrar essas ferramentas à IA. Enquanto isso não ocorrer, outros países continuarão tendo mais capacidade de monitorar e prever o clima no Brasil do que os próprios brasileiros.

Existe o risco de confiar demais na tecnologia e acabar deixando decisões importantes nas mãos de sistemas sem governança ou planejamento?

A ideia é que nunca se confie totalmente na tecnologia ou na inteligência artificial. Em temas críticos, a IA deve ser sempre uma ferramenta auxiliar, nunca a instância final de decisão.

Quando processos de tomada de decisão são totalmente automatizados e concentrados em sistemas de inteligência artificial, o risco aumenta significativamente. A IA pode errar e, além disso, torna-se difícil, do ponto de vista ético e jurídico, responsabilizar alguém pelas consequências dessas decisões.

O senhor fala de uma bolha da IA que deve se estabilizar nos próximos anos. Como entender esse fenômeno?

A ideia da bolha da inteligência artificial pode ser compreendida de duas formas. A primeira diz respeito à supervalorização do valor de mercado de empresas de tecnologia, sustentada pela promessa de que elas serão centrais em uma futura transição tecnológica. Essas empresas são importantes, mas sua relevância tem sido exagerada.

A segunda bolha está relacionada ao uso da inteligência artificial. Muitas pessoas e empresas começaram a adotar IA em 2024 e 2025 e agora percebem que os resultados não foram os esperados. O que deve ocorrer é uma revisão da forma como essas ferramentas vêm sendo utilizadas.

Não se trata de um colapso, mas de uma estabilização no ritmo de adoção e implementação da inteligência artificial, especialmente no ambiente corporativo.

A IA só existe porque está amparada por milênios de conhecimento humano. O uso excessivo de respostas prontas pode representar um retrocesso cognitivo?

Existe, sim, um risco concreto de perda cognitiva decorrente do mau uso da tecnologia. A inteligência artificial pode gerar dependência quando utilizada de forma abusiva.

Costumo comparar a IA a um ingrediente como o açúcar. Em pequenas quantidades, ele pode melhorar a experiência, mas o consumo excessivo leva à perda de sensibilidade e, a longo prazo, a problemas graves.

Da mesma forma, a inteligência artificial precisa ser usada com consciência e limites claros, para não substituir habilidades cognitivas essenciais. O problema é que muitas pessoas ainda não conseguem identificar esse limite.

Ao mesmo tempo em que perdem capacidade crítica e reflexiva, elas também ajudam a treinar sistemas que podem substituí-las no curto ou médio prazo. Isso pode resultar não apenas em perda cognitiva, mas também em desocupação e desemprego em larga escala nos próximos anos. Esses riscos estão diretamente associados ao uso inadvertido e desgovernado da inteligência artificial.

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