Como a inteligência artificial está mudando os relatórios de sustentabilidade

Especialista explica por que a IA tende a se tornar padrão nos relatórios alinhados às IFRS S1 e S2, e quais cuidados as empresas precisam tomar

O uso de inteligência artificial nos relatórios de sustentabilidade elaborados com base nas normas IFRS S1 e IFRS S2 ainda ocorre de forma limitada no Brasil, mas tende a se tornar padrão nos próximos anos. A avaliação é de Antonio Emilio Freire, head de asseguração da RP Management, que acompanha de perto a adoção de novas tecnologias nos processos de reporte corporativo.

Segundo o especialista, a aplicação da IA nesse contexto não tem como objetivo substituir o julgamento humano ou os mecanismos de governança. “Quando falo em uso de inteligência artificial nos relatórios de sustentabilidade dentro das IFRS S1 e S2, refiro-me ao uso de tecnologia para apoiar a análise de dados, a construção de cenários, a identificação de riscos e a consistência das informações divulgadas”, afirma.

Uso correto

Na avaliação de Freire, a tecnologia pode trazer ganhos relevantes quando utilizada de forma adequada. “Na minha avaliação, o uso de IA é positivo quando bem governado”, avalia, explicando que a ferramenta pode elevar o nível técnico dos relatórios, reduzir falhas e ampliar a rastreabilidade das informações. 

Por outro lado, o especialista alerta que a adoção sem critérios claros pode gerar problemas significativos. “O uso inadequado, sem transparência metodológica e sem revisão humana, pode gerar riscos relevantes, inclusive regulatórios e reputacionais. Portanto, não é uma questão de ser ‘bom’ ou ‘ruim’ em si, depende diretamente de como a IA é utilizada e controlada”.

Atualmente, o grau de adoção ainda é restrito. “Hoje, eu diria que o uso ainda é baixo a moderado. A maior parte das empresas está em um estágio inicial, com processos majoritariamente manuais e uso limitado de automação avançada”. 

No Brasil, segundo ele, já existem experiências pontuais, sobretudo em setores mais pressionados por riscos climáticos e regulatórios, como energia, mineração, agronegócio e setor financeiro.

“Nesses casos, a IA costuma ser aplicada para apoiar cenários climáticos, análise de risco, consolidação de dados e checagens de consistência”, explica, observando que muitas companhias não detalham esse uso em seus relatórios, o que não é, segundo ele, necessariamente um problema.

“O foco, do ponto de vista das IFRS, não está na tecnologia utilizada, mas na qualidade, confiabilidade e transparência das informações divulgadas”.

Benefícios da inteligência artificial

Entre os principais benefícios, o especialista destaca três pontos centrais. “Primeiro, a melhoria das projeções e análises de cenários, especialmente para riscos físicos e de transição climática previstos na IFRS S2. A IA permite testar premissas, simular impactos e avaliar sensibilidade de forma mais estruturada.”

O segundo ganho envolve as informações. “Há a redução de erros e inconsistências, ao cruzar automaticamente dados ESG com informações financeiras e narrativas do relatório, o que aumenta a confiabilidade do disclosure”, explica, referindo-se à divulgação de informações financeiras. 

Já o terceiro ponto diz respeito “ao ganho de eficiência e agilidade, com redução de retrabalho e maior velocidade na consolidação e revisão das informações”. 

Apesar dos benefícios, os riscos seguem relevantes. “O principal está no uso de modelos que funcionam como uma ‘caixa-preta’, sem explicação clara das premissas, limitações e critérios adotados”, explica, ressaltando que esse tipo de prática não é compatível com o nível de transparência exigido pelas IFRS.

Outro ponto de atenção é a interpretação dos resultados. Segundo Freire, sustentabilidade e clima envolvem incertezas estruturais e “números excessivamente exatos podem induzir interpretações equivocadas”. 

Além disso, se a IA for usada para reforçar narrativas sem base quantitativa robusta, existe o risco de distorções ou greenwashing, afirma, concluindo que a ausência de controles compromete a credibilidade. “Sem governança, revisão humana e documentação adequada, o uso da tecnologia pode comprometer a credibilidade do relatório”.

Inteligência artificial, sustentabilidade e futuro

Para o futuro, a tendência é de expansão do uso nos processos de reporte. “Eu vejo a inteligência artificial se tornando cada vez mais comum e, no médio prazo, praticamente padrão nos processos de reporte de sustentabilidade. O volume de dados, a complexidade das cadeias de valor e a exigência por análises prospectivas tornam o processo manual cada vez menos viável”.

Ainda assim, ele descarta a substituição completa do fator humano. “A IA tende a ser um instrumento de apoio à decisão, integrado a processos de governança sólidos, com julgamento humano, transparência e asseguração”.

Freire aponta ainda que a tecnologia passa a ser um diferencial estratégico. “Em síntese, não utilizar IA no futuro pode representar uma desvantagem competitiva, enquanto utilizá-la sem governança adequada representa um risco. O equilíbrio entre tecnologia, controle e responsabilidade será o fator decisivo”, finaliza.

O que são as IFRS S1 e S2

As IFRS S1 e S2 são normas internacionais de divulgação de sustentabilidade emitidas pelo International Sustainability Standards Board. A IFRS S1 estabelece requisitos gerais para a divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, considerando riscos e oportunidades que podem afetar o desempenho e o fluxo de caixa das empresas. Já a IFRS S2 é focada especificamente nas mudanças climáticas, exigindo a divulgação de riscos físicos e de transição, cenários climáticos e impactos financeiros associados.

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