Água: o novo risco-mãe de 2026 — e por que a economia digital vai acelerar essa conta

Da produção de alimentos à nuvem: água vira eixo de estratégia, regulação e finanças. E a pergunta muda: não é “se” haverá escassez, mas “quem” está pronto para operar sob restrição

Água agenda global

Valdir Brunelli Valério Júnior

Coordenador geral adjunto do Hub ES+ MCI/FUNCITEC pela Fapes. Mestre em administração e contabilidade pela FUCAPE na linha de pesquisa Governança e Estratégia.

A água entrou de vez no centro da agenda global para 2026 — não apenas como pauta ambiental, mas como variável de risco econômico, climático e de negócios. Essa mudança é sintomática de um mundo em que eventos extremos, fragilidade de infraestrutura e tensões geopolíticas se conectam em cascata, afetando cadeias de suprimento, custos operacionais, capacidade produtiva e apetite de investimento. O recado dos relatórios do Fórum Econômico Mundial é direto: o risco hídrico deixou de ser “externo” e passou a ser “estrutural” — um risco-mãe que atravessa setores e redefine competitividade.

O ponto de virada em 2026 é que água, clima e economia digital se tornaram inseparáveis. O boom de IA e a corrida por data centers ampliaram a pressão sobre energia, infraestrutura e, de forma menos discutida, água — seja para resfriamento, processos industriais associados e confiabilidade operacional. O próprio relatório de riscos alerta que a expansão do “AI buildout” envolve incertezas financeiras e pode gerar reação social, inclusive por preocupações com uso de água por data centers. E quando água entra como fator crítico, o impacto não fica restrito ao “ESG”: ele chega ao coração do balanço — custo, continuidade, seguro, reputação, licenças e valor de mercado.

Riscos Globais

Essa dinâmica já aparece no mundo real. O Relatório de Riscos Globais de 2026 destaca como níveis baixos de água em grandes corredores logísticos (rios e canais) elevam custos, atrasam entregas e provocam reconfiguração de rotas e cadeias de suprimento — inclusive com efeitos permanentes. Em outras palavras: água afeta desde commodities e manufatura até logística e preço ao consumidor.

Some-se a isso o fato de que interrupções em infraestrutura crítica (energia, transporte e sistemas de água) têm impacto econômico massivo, com perdas anuais estimadas na casa das centenas de bilhões em países de baixa e média renda por confiabilidade insuficiente de infraestrutura, incluindo água.

Se o diagnóstico está mais claro, a agenda de soluções também amadureceu — e é aqui que 2026 se diferencia: o foco sai do discurso e vai para entrega, escala e governança. O Fórum descreve que, em 2025, a inovação em água saiu da periferia e foi para o mainstream das discussões de clima e sustentabilidade; agora, o desafio é traduzir isso em capacidade real de execução.

Três vetores de solução que devem dominar 2026

1) Água como estratégia de resiliência (não como “projeto ambiental”)

Empresas que dependem de água — direta ou indiretamente — precisam tratar água como continuidade de negócio. Isso inclui mapear bacias e fornecedores críticos, cenários de restrição, metas e planos de contingência. O Fórum Econômico Mundial aponta que, além de setores tradicionais, o setor de tecnologia virou foco pela pegada hídrica de IA e data centers; e ressalta que a água já está no centro de estratégia corporativa, regulação e estrutura de mercado.

2) Regulação + investimento público como aceleradores

O segundo motor é regulatório: a agenda de qualidade da água e de controle de contaminantes — como as substâncias per e polifluoroalquil (PFAS) — e a modernização da infraestrutura tendem a elevar as exigências, abrindo espaço para soluções de monitoramento, tratamento e eficiência. O Fórum Econômico Mundial aponta a regulação como uma alavanca central para a inovação e destaca iniciativas e fundos voltados à transformação de serviços públicos de água, saneamento e à atuação dos governos.

3) Escala via finanças e consolidação (com um problema: o “gap” de infraestrutura)

Talvez o dado mais contundente seja o descompasso entre ambição e financiamento: estimativas citadas pelo Fórum Econômico Mundial indicam uma necessidade global de US$ 6,7 trilhões até 2030, podendo chegar a US$ 22 trilhões até 2050 — valores muito superiores ao financiamento público atualmente disponível. Além disso, mesmo quando os recursos existem, há um gargalo significativo de absorção e execução: projetos não saem do papel, enfrentam entraves regulatórios, institucionais ou de capacidade técnica, e parte do capital comprometido acaba não sendo efetivamente aplicada. Não por acaso, o Fórum Econômico Mundial aponta o crescimento de fundos focados em água e o aumento de aquisições e fusões no setor como estratégias para ganhar escala e viabilizar investimentos, ao mesmo tempo em que alerta para o risco de que a busca por eficiência comprometa a concorrência e a inovação.

O “elefante na sala”: IA, data centers e a disputa por água

A pergunta a ser respondida é: “por que tudo tende a piorar com a expansão acelerada da IA e de grandes centros de processamento de dados?” Porque essa infraestrutura exige recursos em múltiplas frentes — energia, redes de transmissão, materiais e, sobretudo, água — pressionando sistemas que, em muitos países, já operam no limite. O relatório chama atenção para o forte aumento dos investimentos de capital das grandes empresas de tecnologia e para os riscos financeiros associados a essa corrida por capacidade computacional, inclusive a possibilidade de reação social motivada pelo consumo intensivo de recursos hídricos.

Se somarmos clima, crescimento urbano e infraestrutura defasada, o resultado é uma economia mais sujeita a interrupções — e mais dependente de gestão hídrica inteligente.

A nova régua: transformar inovação em impacto

Apesar de avanços, persistem gargalos de financiamento, desigualdade de acesso e coordenação, e 2026 exigirá transformar inovação (digital, IA e modelos circulares) em resultado concreto, reduzindo riscos econômicos e sociais e fortalecendo a adaptação

climática. Ou seja: não basta “ter tecnologia”. Vai pesar quem consegue integrar governança, financiamento, regulação e execução.

Conclusão

Em síntese, em 2026, água vira a métrica silenciosa do risco: ela define custo, operação, licenças, seguro e confiança. E, no limite, define competitividade. O que muda agora é que investidores, reguladores e consumidores começam a tratar gestão da água como tratam risco financeiro: com dados, metas, auditoria e consequência. E isso recoloca a pergunta para empresas e governos: quanto custa não planejar — e quem paga essa conta quando a água falta?

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