O seringueiro como "guarda florestal": o novo ciclo de borracha nativa que gera renda e ajuda a preservar a Amazônia

Famílias têm cultura e geração de renda valorizadas a partir da revitalização da cadeia da borracha, puxada por apetite renovado do mercado, que atrai marcas como as francesas Vert/Veja e Michelin

Francisco Samonek, fundador da Seringô
Francisco Samonek, fundador da Seringô. — Foto: Divulgação -

A seringueira (Hevea brasiliensis), conhecida como mãe da floresta, vem mudando o jeito de se fazer negócio na Amazônia. O látex, líquido branco parecido com leite extraído de cortes no tronco da árvore, é a matéria-prima para a produção da borracha nativa. Velho conhecido da economia nacional, o produto ganha novo fôlego em recentes parcerias do setor privado com associações extrativistas, combinando ganho econômico e preservação.

Assim, é uma experiência bem diferente do passado opressor. Entre 1870 e 1920, a borracha chegou a ser o segundo produto mais exportado no país – atrás apenas do café. O primeiro ciclo de exploração impulsionou o desenvolvimento econômico de capitais do norte, como Manaus e Belém, enriquecendo barões da borracha às custas da exploração da mão de obra local.

O segundo ciclo se deu durante a Segunda Guerra Mundial (1941-1945), quando cerca de 60 mil “soldados da borracha” do nordeste foram enviados à Amazônia para suprir a demanda norte-americana do material, que era usado na fabricação de pneus para aviões e outros artefatos.

Hoje, a atividade na região está longe de ter o mesmo peso econômico, no entanto, no mais recente ciclo da borracha, o produto tem seus valores renovados, ajudando a preservar a floresta nativa brasileira ao mesmo tempo em que garante renda e autonomia às populações locais. Nos anos 1980, diferente do início da produção, as seringueiras passaram a ser reproduzidas em áreas de cultivo no norte, sudeste, sul e na Ásia, para onde sementes foram contrabandeadas pelo Reino Unido.

Extração do látex amazônico

Extrair o látex de árvores ladeadas em monoculturas é muito mais fácil – e barato – do que em meio à floresta amazônica, onde as plantas ficam espaçadas. Em um mesmo dia, um extrativista coleta o látex de 150 até 200 seringueiras na floresta. Já em um seringal de cultivo é possível manejar de 900 até 1.200 árvores.

A concorrência desigual tornou inviável manter o trabalho dos seringueiros na Amazônia. Eles só voltaram a se interessar pela atividade recentemente, quando compradores ofereceram pagar não apenas pela matéria-prima, mas também pelo serviço ambiental prestado. As seringueiras que estão em meio à floresta são mais produtivas, saudáveis e promovem preservação ao seu redor. Na Amazônia, o seringal é uma estrada no meio da floresta, onde a seringueira compartilha espaço com a castanha, o açaí, a caça e a pesca.

A estimativa é que, a cada quilo de borracha nativo produzido, um hectare de floresta seja preservado. Isso porque, se um seringueiro ocupa 300 hectares para produzir 300 kg de borracha por ano, calcula-se que toda essa área de floresta, equivalente a 300 campos de futebol, está sendo cuidada por ele para garantir a produção. “O produto vem das árvores que nasceram de forma espontânea no ecossistema de florestas da Amazônia”, explica Francisco Samonek, que trocou o Paraná pelo Acre há mais de 40 anos para trabalhar com seringueiras.

Parceiros da borracha nativa

Samonek é um dos incentivadores do novo ciclo de borracha nativa na Amazônia. Após o fim dos incentivos públicos à produção de borracha durante a gestão Collor (1990-1992), ele começou a pesquisar como poderia revitalizar a produção. Em parceria com indígenas e seringueiros, desenvolveu técnicas de pré-vulcanização para endurecer o látex no meio da floresta, sem uso de máquinas ou de derivados de petróleo, resultando em um produto 100% biodegradável.

Extração de látex
Extração de látex, feita pela Seringô. — Foto: Divulgação

Negócio que compensa

Segundo Samonek, a venda da borracha injeta R$ 100 mil nas comunidades por mês. Já o artesanato rende R$ 120 mil. Uma família consegue ganhar de dois a 5 salários mínimos combinando as duas atividades, de acordo com o empresário. São 1.500 famílias trabalhando com a empresa atualmente no Projeto Marajó, financiado pelo governo do Pará, e a meta é chegar a 10 mil produzindo uma tonelada de borracha por mês até 2026.

Dessa forma, Samonek pretende fazer essa expansão através de um modelo de capacitação em que uma família parceira é paga para repassar a técnica de extração e pré-vulcanização do látex a seus vizinhos e familiares. O governo paraense negocia com o empresário para que o curso, que já acontece de maneira informal, receba conteúdo programático e planos de aula, resultando na emissão de certificados aos seringueiros.

O valor pago pela Seringô pela borracha nativa é cinco vezes maior do que o praticado nas áreas de cultivo, onde o preço está em R$ 3 o quilo. Para a produção de borracha nativa, o governo federal prevê um valor mínimo de R$ 7,41. A diferença de R$ 4 é paga pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) aos agricultores familiares registrados como previsto pela Política de Garantia de Preços Mínimos para os Produtos da Sociobiodiversidade (PGPM-Bio).

Viabilidade

“Mas esse valor não era suficiente para ir buscar o látex”, observou Samonek. “Então, nós pagamos mais R$ 10 por serviço ambiental que o seringueiro presta ao cuidar da floresta. Na composição final do preço, ele recebe R$ 17,41 por quilo de borracha”, diz o empreendedor social, que vê os seringueiros como “guardas florestais”, que devem receber pela preservação. “Não tem borracha sustentável sem floresta em pé e esse é o diferencial da borracha nativa.”

Filha de seringueiro do primeiro ciclo da borracha, Palmira Oliveira sonhava com o retorno da atividade em Anajás (PA) desde a infância. Na década de 1990, ela fundou uma associação para reativar os seringais, mas a extração de madeira e palmito compensavam mais. “Eu fiquei lutando, mas as pessoas não acreditavam que ia dar certo e o projeto não andou, então, parei”, diz.

A partir dos anos 2010, com o pagamento prestado pelos serviços ambientais na extração do látex por Samonek e a nova técnica de transformação do produto, Oliveira e sua comunidade finalmente puderam retomar a atividade. A parceria que supera uma década tem dado bons frutos. “Somos cerca de 350 seringueiros entregando de uma a cinco toneladas por mês”, contabiliza.

“A alegria de quem trabalha com a borracha é não derrubar árvores para extrair madeira ou palmito porque a seringa é suficiente para o sustento da família”, diz Oliveira. “Esse meu sonho começou ainda criança e hoje, aos 63 anos, me sinto realizada ao ver as pessoas produzindo e protegendo a natureza. Sinto que a minha luta não foi em vão.”

Palmira Oliveira e demais integrantes da Seringô.
Palmira Oliveira e demais integrantes da Seringô. — Foto: Divulgação

Seringueiros na mesa de negociação

O grupo de empresas que pagam pelos serviços ambientais prestados pelos seringueiros ainda é pequeno, mas tem representantes de peso. A maior compradora de borracha nativa amazônica é a companhia francesa de calçados Vert/Veja. O valor é estimado em cerca de 800 toneladas adquiridas de mais de 2 mil famílias cooperadas da região amazônica por ano. Além de se alinhar com o propósito da empresa, a investida aposta no crescimento de um nicho importante no mercado — o de consumidores mais conscientes e dispostos a pagar mais por um produto com credenciais ecológicas.

Em seguida, vem a também francesa Michelin, multinacional do setor de pneus. A empresa adquire cerca de 60 toneladas de borracha nativa anualmente através do projeto “Juntos pelo Extrativismo da Borracha Amazônica”, que já beneficiou mais de 4 mil famílias. A iniciativa, iniciada em 2022, é feita em parceria com o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), Memorial Chico Mendes, Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) e WWF-Brasil.

Dessa forma, a meta é atingir 700 toneladas de produção até 2026. Dessa forma, colaborando com uma atividade sustentável que garanta a conservação e manejo de 6,8 milhões de hectares em 14 Unidades de Conservação (UCs) em 15 municípios do Amazonas. O objetivo é aumentar a parcela de borracha de origem sustentável adquirida pela multinacional. Além disso, a parceria oferece apoio técnico a 18 associações de produtores extrativistas.

Resgate da identidade seringalista

Dione Torquato, secretário-geral do CNS, celebra o envolvimento de múltiplos atores no novo ciclo da borracha e o protagonismo dos seringueiros. “O que distingue a nova produção sustentável da borracha é a liberdade que as populações extrativistas têm de gerenciar e comercializar a própria produção através de associações e cooperativas”, diz. “Até os anos 80, os seringueiros viviam em um sistema análogo as escravidão.”

Filho e neto de seringueiros do Amazonas, Torquato comemora também o resgate da identidade seringalista na região. “A extração produtiva da borracha nativa na Amazônia é importante ao desenvolvimento econômico do país, além de ser uma atividade socioprodutiva que faz parte da cultura dos povos amazônicos”, diz. Famílias com poucas oportunidades de emprego e baixo acesso a políticas públicas na floresta têm sua cultura e geração de renda valorizadas a partir da revitalização da cadeia da borracha.

Outra empresa envolvida na nova produção de borracha nativa é a Mercur. Assim, a empresa mantém há quase 10 anos um programa de valorização do produto para fazer elásticos e borrachas de apagar. São cerca de 5 toneladas adquiridas por ano com 54 seringueiros e indígenas. A empresa atua em quatro reservas em Altamira (PA) e quatro regiões no estado de Rondônia, envolvendo parcerias com cinco povos indígenas de dez comunidades.

Seringueiros associados à CNS.
Seringueiros associados à CNS. — Foto: Divulgação

O projeto

O projeto, que recebeu o selo Origens Brasil, garantia de que o látex foi extraído de forma sustentável, gerou renda de R$ 305 mil aos extrativistas com a produção de 40 toneladas de borracha nativa desde 2015. A produção contribuiu com a preservação de 1,2 milhão de hectares de floresta. Para os próximos três anos, a meta é multiplicar por seis a produção anual, chegando a 30 toneladas por ano. Mas, segundo a companhia, isso deve ser feito respeitando o ritmo de produção dos seringueiros.

“Chegamos a conversar se deveríamos botar meta para os ribeirinhos ou dar prêmio visando ao aumento da produção. Mas eu acho que não”, diz Alexandre Antinarelli, coordenador de compras da empresa. “A borracha é um dos produtos da vida deles. Eles também caçam, pescam, colhem outras coisas, como a copaíba… Tem outras coisas que eles fazerem na floresta. A borracha é mais uma.”

Expansão com preservação

O Brasil produz 259 mil toneladas de borracha anualmente. Porém, apenas 0,3% do total, ou 840 toneladas, é de borracha nativa amazônica, de acordo com dados do Imaflora. Para este ano, a meta é dobrar a produção. No 2º Grande Encontro Estadual do Extrativismo da Borracha, realizado em fevereiro, envolvendo diversos setores da cadeia da borracha em Rondônia. Por exemplo: cooperativas, ONGs e representantes dos poderes público e privado, um grupo de empresas se comprometeu a comprar ao menos 1.700 toneladas do produto em 2024. Incentivos fiscais para empresas envolvidas com a produção sustentável são uma das reivindicações do setor para que a expansão siga acontecendo.

A Michelin, por exemplo, garantiu a compra da produção da Reserva Extrativista (Resex) do Rio Jacy-Paraná, em Rondônia. Ali, resistem 10 famílias seringueiras das 50 que produziam nos anos 1980. Juntas, elas fundaram uma associação para retomar a atividade em 2001. Resex são UCs que permitem o uso sustentável de recursos naturais por ribeirinhos e indígenas que vivem no espaço. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Jacy-Paraná, porém, está entre as 10 UCs mais desmatadas do Brasil devido à ocupação ilegal.

“A Resex foi criada com 206 mil hectares. Para vocês terem uma noção do estrago que já foi feito pelos fazendeiros e madeireiros: restam apenas 5% de mata. Justamente na beira do rio onde moram os seringueiros”, conta Lincoln Fernandes Lima, presidente da Associação Bem-Te-Vi, que reúne seringueiros e agroextrativistas locais. “Se nessa beira de rio ainda tem alguma seringueira em pé é porque nós estamos lá dentro resistindo.”

Expansão na produção da borracha nativa

Ele conta ter sido ameaçado de morte quatro vezes. A mais recente, em novembro de 2023, quando foi obrigado a deixar sua casa para não sofrer retaliações pela atividade com o seringal em uma área de interesse dos invasores. Lima se mudou para a casa do irmão em outro ponto da Resex e observa movimentos do poder público para retirar o título da reserva.

Assim, para expandir a produção de borracha nativa, garantindo uma maior preservação da floresta, Lima aponta a necessidade de as empresas compradoras buscarem o látex diretamente nas comunidades extrativistas, além de cobrar aumento dos valores pagos pelo produto e acesso a materiais de estocagem e extração, como cumbuca, faca e rancho. “Se a logística fosse por conta dos compradores, a produção seria maior porque não ficaria tão desgastante para os seringueiros”, diz.

O representante do CNS concorda, destacando a necessidade de superar outros obstáculos enfrentados pelas populações extrativistas. Desafios esses para cumprir o potencial de desenvolvimento local e redução da pobreza a partir da produção de borracha nativa. Além de incentivos fiscais e financiamento para driblar o alto custo logístico e tributário da atividade na região amazônica, Torquato sugere a criação de políticas públicas em capacitação, assistência técnica e equipamentos básicos de produção.

Equipe da iniciativa Seringô
Seringô: negócio social que atua na produção de borracha nativa na Amazônia. — Foto: Divulgação

Importância da borracha nativa

Assim, Antinarelli, da Mercur, destaca a importância das empresas compradoras na construção de estratégias de negócio que possibilitem a manutenção da demanda pelo produto no médio e longo prazo. Dessa forma, mantendo o engajamento dos seringueiros na atividade. Ele ressalta ainda como essencial para o novo ciclo se manter bem-sucedido a ampla conscientização social. Assim, em conjunto com os consumidores, valorizando a compra de produtos de borracha nativa da Amazônia.

Todo esse esforço deve mirar no serviço socioambiental da atividade, essencial em um contexto de combate à mudança climática, aponta Torquato. “Por meio de uma produção sustentável, nós conseguimos barrar a economia da destruição e ter uma atividade que mantém o território protegido e seguro”, diz. “Não há outro caminho para fazer o enfrentamento das crises climáticas se não mudar nosso olhar sobre os recursos naturais. A preservação deles é a certeza de garantia da nossa existência de vida no planeta”, alerta. Um viva à árvore “mãe da floresta” e seus filhos cuidadosos.

Fonte: Martina Medina / Um Só Planeta