Por Elias Carvalho
Presidente do Instituto Sustentabilidade Brasil
Quando uma encosta desaba, não pergunta em quem a família votou. Quando um rio transborda, não distingue direita de esquerda. Quando a seca compromete uma lavoura ou uma tempestade destrói uma cidade, as consequências atingem pessoas, empresas e comunidades inteiras. A natureza não reconhece ideologias. E é justamente por isso que a proteção ambiental não pode ser tratada como uma questão partidária.
A recente declaração do senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro, de que pretende acabar com o que chamou de entraves ambientais e permitir que produtores façam o que quiserem em suas terras, merece uma reflexão séria. Não se trata de ser contra um candidato, um partido ou uma corrente política. Trata-se de questionar uma visão de desenvolvimento que pode comprometer o futuro econômico, social e ambiental do Brasil.
A propriedade privada merece respeito. O produtor rural precisa de segurança jurídica, acesso ao crédito, infraestrutura e condições para produzir. A regularização fundiária também é necessária. Mas nenhuma dessas demandas justifica transformar a proteção ambiental em obstáculo ao progresso. Produzir e preservar não são atividades incompatíveis. Pelo contrário, uma depende cada vez mais da outra.
A própria Constituição brasileira estabelece que a propriedade rural deve cumprir sua função social, o que inclui a utilização adequada dos recursos naturais e a preservação do meio ambiente. Portanto, não estamos falando de imposições ideológicas, mas de responsabilidades previstas na legislação e fundamentais à vida em sociedade.
Há também uma dimensão econômica que não pode ser ignorada. O Brasil ocupa posição de destaque no comércio internacional e depende de mercados cada vez mais atentos à origem e às condições de produção das mercadorias. A União Europeia, por exemplo, estabeleceu regras para exigir que produtos de determinadas cadeias, como café, soja, cacau, madeira e pecuária, não estejam associados ao desmatamento.
Isso significa que preservar também é uma questão de competitividade. Ignorar as exigências ambientais internacionais pode comprometer mercados, investimentos e empregos. O mundo caminha para modelos produtivos que exigem rastreabilidade, responsabilidade socioambiental e redução das emissões de carbono. O Brasil não pode seguir na direção contrária e acreditar que continuará competitivo apenas porque possui terras férteis e recursos naturais abundantes.
O caminho está na economia limpa, na bioeconomia, na economia azul, na transição energética e na valorização das atividades que conciliam produção e conservação. Temos condições extraordinárias para liderar esse processo. Nossa biodiversidade, nossas florestas, nossos recursos hídricos e nosso potencial de geração de energia renovável representam vantagens estratégicas que poucos países possuem.
No Espírito Santo, essa realidade é especialmente evidente. Nossa economia depende de atividades como a agricultura, a indústria, a pesca, o turismo e a logística portuária. Todas, em diferentes níveis, dependem da estabilidade climática e da conservação dos recursos naturais. Uma estiagem prolongada compromete a produção agrícola. Chuvas intensas interrompem estradas, afetam o abastecimento e provocam prejuízos. A degradação dos ambientes costeiros ameaça a pesca, o turismo e as comunidades que vivem dessas atividades.
Enquanto parte do debate político ainda tenta transformar a preservação em inimiga da produção, a ciência apresenta evidências cada vez mais consistentes sobre o agravamento dos riscos climáticos. O aumento das temperaturas, o recuo das geleiras, as secas prolongadas e as chuvas extremas já produzem consequências econômicas e humanitárias em diferentes regiões do planeta.
Não significa que toda tragédia seja causada exclusivamente pelas mudanças climáticas. Mas a ciência demonstra que o aquecimento global intensifica diversos eventos extremos. Ignorar esse conhecimento não elimina os riscos. Apenas nos deixa menos preparados para enfrentá-los.
Precisamos, evidentemente, de processos de licenciamento mais eficientes, menos burocráticos e tecnicamente consistentes. Precisamos combater a insegurança jurídica e assegurar que os órgãos ambientais tenham condições de analisar projetos com agilidade. Entretanto, simplificar procedimentos não pode significar enfraquecer a fiscalização ou abrir mão de critérios técnicos.
O desenvolvimento sustentável não é inimigo do agronegócio, da indústria ou da iniciativa privada. É uma condição para que essas atividades continuem produzindo riqueza nas próximas décadas.
O jornalista André Trigueiro tem chamado a atenção para os riscos de propostas que enfraquecem a proteção ambiental. Essa preocupação precisa ultrapassar as preferências eleitorais. Afinal, a responsabilidade de preservar o patrimônio natural brasileiro não pertence a um governo ou a uma legenda. É um compromisso com a sociedade e com as próximas gerações.
O Brasil precisa olhar para o futuro, e não insistir em modelos que confundem exploração sem limites com liberdade econômica. A verdadeira liberdade de produzir exige água disponível, solo fértil, equilíbrio ambiental, segurança climática e mercados capazes de reconhecer o valor dos nossos produtos.
Não existe economia forte em um território ambientalmente fragilizado. Não existe prosperidade duradoura quando a destruição dos recursos naturais se transforma em política de desenvolvimento.
A natureza não escolhe partido. Mas as decisões políticas que tomamos hoje determinam o tamanho dos prejuízos que todos poderemos enfrentar amanhã.
Preservar não é uma escolha entre direita e esquerda. É uma escolha entre comprometer o futuro ou garantir que ele exista.
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