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A ecologia espiritual de Francisco

Meio Ambiente


2/3/2017

Francisco Cândido Xavier, ele não foi apenas médium e filantropo. Chico Xavier, o maior brasileiro de todos os tempos, era um ativista socioambiental e pregava o respeito a todos os seres – humanos, animais e espirituais
O menino que nasceu Francisco de Paula Cândido, em Pedro Leopoldo (MG), no início do século 20, e que anos mais tarde seria conhecido nacionalmente como Chico Xavier, teve seu nome ligado não somente à Doutrina Espírita, que ele ajudou a difundir. Mas também ao exemplo da caridade concreta e do amor à natureza.
Chico acampou sua alma e coração no trabalho do conforto aos irmãos e irmãs sofredores. Suas psicografias ajudaram muitas famílias, reergueram seus corações e almas ao prisma da eternidade e da fraternidade. Abriram mentes para o respeito ao Criador e à Criação, criando um elo de integração a eles.
Junto a amigos e companheiros de fé, cresceu a bênção da filantropia. Chico realizou muitas ações para ajudar ao próximo. Entre elas, destaca-se o tradicional jantar às quintas-feiras, com distribuição gratuita de pão e leite, mais a entrega das cestas básicas aos sábados. Filas a perder de vista se formavam no “Refeitório Amigos Anônimos Chico Xavier”, no Grupo Espírita da Prece, em Uberaba (MG), onde o médium viveu seus últimos 41 anos.
Como a Revista Ecológico mostrou na primeira parte desta série, Chico ia além de pregar o amor ao próximo, a caridade diária e a tolerância mútua. Era um defensor do meio ambiente e tinha uma forma distinta de fazê-lo: sem alarde, sem mídia.
Com sabedoria, suas orientações sobre o cuidado com os recursos naturais e o ser humano tinham mais impacto do que uma manchete de jornal. Quem as ouvia, internalizava o ensinamento e passava à frente, entre a família e amigos. E os livros foram um instrumento importante para registrar essas pílulas de sabedoria ecológica e espiritual.
Chico frequentemente chamava os animais de “nossos irmãos”. Não é raro ouvir ou ler histórias de amigos próximos de Chico sobre a forma única como ele tratava essas criaturas. No livro “Mandato de Amor”, uma publicação da União Espírita Mineira, há duas passagens que ilustram bem o exemplo. Uma delas conta que, ao datilografarem psicografias recebidas, Chico observava em silêncio um besouro que insistentemente pousava na máquina de escrever de seu amigo Waldo Vieira.
Waldo, irritado, arremessou o bicho contra a parede duas vezes. Incansável, o inseto mais uma vez alçou voo e, desta vez, foi parar na máquina de Chico, que pegou o besouro com cuidado, abriu a janela e soltou-o lá fora, dizendo: “Besouro, se você não conseguiu desencarnar através de Waldo é porque você é como eu: tem uma missão a cumprir no mundo. Vá com Deus!”.
Em outra passagem do mesmo livro, Chico comenta: “Podemos nos considerar como irmãos mais velhos e mais experimentados dos animais. Ora, se nós já sabemos que a lei divina institui a solidariedade entre os seres, por isso, podemos facilmente concluir que a nós, seres humanos, Deus outorgou a condução e a proteção de nossos irmãos mais novos, os animais”. E acrescentou: “Que dizermos das devastações inconsequentes do meio ambiente? Tudo isso se resume em graves responsabilidades para os seres humanos!”, alertou.


Amor aos animais:

“Nós, seres humanos estamos na natureza para auxiliar o progresso dos animais, na mesma proporção que os anjos estão para nos auxiliar.”
Chico Xavier


Para Chico, desenvolver a ecologia interior era um dos principais passos para transformar a nossa relação com o meio ambiente e com o próximo. Esse conceito, inclusive, é defendido por pensadores modernos, como o professor e teólogo Leonardo Boff.
Ele acredita que “sem uma revolução espiritual será difícil sairmos da atual crise planetária”. E alerta que, caso não façamos um novo acordo com a vida e com a Terra, seguiremos errantes e solitários: “A partir da ecologia interior, a Terra, o Sol, a Lua, as árvores, as montanhas e os animais não estão apenas aí fora, mas vivem em nós como figuras e símbolos carregados de emoção”. Esta aí a teoria que Chico Xavier, o homenageado da sétima edição do “Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza”, aplicava: somos todos integrados.
É o que contou o médium e amigo Geraldo Lemos Neto, que conviveu por quase duas décadas com Chico, à Ecológico, sobre o exemplo do ícone do Espiritismo que apontou 2019 como a data-limite para abraçarmos a cultura da paz entre os povos e o respeito ao meio ambiente. Caso a humanidade sucumbisse aos conflitos, o mundo de regeneração custaria muito mais a vir. “Poderia demorar outros mil anos, tendo em vista que gastaríamos várias encarnações para reconstruir o que fora destruído”, alerta.
“Chico transmitia um amor à natureza e aos animais que era impressionante. Ele faz lembrar a figura de São Francisco de Assis, que também conversava com os bichos. Todas as mensagens do santo caminham nessa direção: a consciência expandida de que tudo é criação divina, desde a pedra, a formiga, o animal, as aves, enfim, até a própria Terra e os seres humanos”, completa.

Conversando com as formigas
Geraldo conta episódios que mostram como o médium também possuía uma personalidade leve e bem-humorada. Em uma dessas passagens, ele conta que, em certa ocasião, a casa de Chico em Uberaba estava sendo invadida por formigas. Eurípedes Higino, filho adotivo do médium, falou sobre a possibilidade de eliminá-las usando formicida. Em defesa dos insetos, Chico então pediu “um prazo para conversar com elas”.
No dia seguinte, o médium se deitou ao lado de onde as formigas passavam em fila indiana e comunicou: “Olha, minhas irmãs, o assunto é grave! E vocês precisam entender uma coisa: se a casa pertencesse somente a mim, não tinha problema, eu permitia vocês ficarem. Mas moro com dois companheiros que também têm direito sobre a casa. Um deles está muito nervoso com a presença das senhoras aqui. Vocês vêm do lote vago ao lado. Lá não tem dono e vocês podem ficar lá, fazer sua casa, cavar na terra e fazer uma morada subterrânea. Ninguém vai se incomodar! Mas, aqui, não. Aqui tem proprietário e um deles está nervoso. Ele prometeu que, se em 48 horas vocês não saírem vai tomar uma providência e jogar formicida. Vai ser uma matança geral!” - sentenciou.
O que aconteceu no dia seguinte? 99% das formigas desapareceram. Poucas reapareceram depois. Geraldo, curioso, perguntou: “Chico, o que você acha dessas que voltaram? Ficarão ao sabor do formicida?”. E o médium respondeu: “Deixei porque elas são subversivas. Eu avisei, mas elas não quiseram ir embora!”.

Natureza esquecida
Uma das passagens mais marcantes da história de Chico Xavier no Espiritismo é o episódio em que ele se encontra, pela primeira vez, com Emmanuel, seu mentor espiritual. Era o ano de 1931 e Chico estava às margens do Açude do Capão, em Pedro Leopoldo. Naquela época, o rio possuía águas limpas e Chico gostava de passar os domingos lá, lendo e refletindo.
Foi nas margens bucólicas do Açude que ele ouviu de seu guia espiritual que “teria como missão publicar 30 livros e perseguir três metas na vida: disciplina, disciplina e disciplina”. Mais de 70 anos depois, Chico chegaria aos mais de 400 livros publicados. Mas o lugar que deveria ser hoje um dos cartões-postais de Pedro Leopoldo, infelizmente, definhou.
O rio está poluído por esgoto e o local onde o médium orava em silêncio e recebeu sua missão espiritual não é mais seguro para visitantes. Nas duas vezes em que a reportagem da Ecológico esteve na cidade foi aconselhada por moradores a não visitar o Açude, uma vez que pontos próximos a ele são constantemente utilizados por usuários de drogas.
Segundo a gerente de Desenvolvimento Ambiental da prefeitura de Pedro Leopoldo, Silvany Geralda Corrêa, estão sendo construídos mais sistemas de esgotamento para minimizar a poluição do Ribeirão da Mata, que desemboca no Capão. Ela conta que há, inclusive, uma estação de tratamento que atende alguns bairros centrais e já está em funcionamento.
“A Copasa já está construindo o esgotamento do bairro São Geraldo, onde fica o Açude. Mas ainda não existe o tratamento da água. As obras estão na etapa da canalização principal e depois serão feitas as ligações nas casas da região para que o esgoto não seja despejado in natura, como ocorre atualmente”, esclarece.
A gerente admite que para o Açude do Capão se tornar novamente um cartão-postal da cidade, mais ações precisam ser feitas. Outros municípios próximos também despejam esgotos em suas águas, além do lixo, que é jogado nas margens pela própria população.
Segundo Cleber Torres, gerente da Divisão de Apoio a Expansão e Fiscalização (DVEX) da Copasa, as obras para instalação de novos sistemas de esgotamento em Pedro Leopoldo “foram iniciadas em novembro de 2015 e têm previsão de término para maio de 2017”.

E o memorial?
No início desta década, o sonho dos pedro-leopoldenses e espíritas de ter um espaço cultural que preservasse a vida e obra de Chico Xavier quase se materializou. Em 2010, a Prefeitura da cidade assinou um termo de cooperação com a Fundação Cultural Chico Xavier para acompanhar a construção da sede do “Memorial Chico Xavier”, no Açude do Capão, que já havia sido iniciada e tinha previsão de ser inaugurada em 2012.
Mas não foi o que aconteceu.
Hoje, a obra está parada. As paredes já levantadas sofrem com a ação do tempo. Quase seis anos depois, a construção abandonada parece buscar reflexo do esquecimento governamental nas águas poluídas do Capão. Sem o Memorial, perdem o governo, a população, o Espiritismo e a cultura brasileira.
Segundo Geraldo Lemos, presidente da Fundação, “o Governo Federal, por meio do Ministério das Cidades, repassou um valor que na época era de R$ 4 milhões. E a Prefeitura, em contrapartida, investiria mais R$ 400 mil. Todo o gerenciamento da obra, desde o projeto à sua construção, ficou a cargo do governo municipal”.



A primeira etapa foi concluída.
“Mas quando chegou a segunda, a empresa responsável por dar sequência à construção identificou que as fundações de concreto haviam sido feitas no lugar errado. Assim, os prazos estipulados não foram cumpridos e os recursos disponibilizados retornaram ao Governo Federal, fazendo com que o Memorial ficasse inviabilizado”, lamentou. Também foram feitas tentativas de captação de recursos junto à iniciativa privada, mas não houve avanços.
A Ecológico entrou em contato com a Secretaria Municipal de Cultura de Pedro Leopoldo para comentar o assunto. Mas, até o fechamento desta edição, não houve retorno.
Em Uberaba (MG), cidade em que Chico morou de 1959 até sua desencarnação, em 2002, o final foi mais feliz. A Prefeitura municipal retomou as obras da construção de um memorial para homenagear o médium em 2015. Dividida em três fases, a obra foi realizada com recursos do Ministério do Turismo (MTur), que destinou R$ 4,3 milhões para as duas primeiras etapas. Na terceira, a prefeitura investiu R$ 620 mil.
Localizado na Mata do Carrinho, o “Memorial Chico Xavier” foi projetado pelo arquiteto Paulo Trajano e entregue no dia 10 de junho último, durante a cerimônia de entrega da Comenda da Paz, que leva o nome do médium e é uma homenagem do Governo do Estado a personalidades que contribuíram para a paz e o bem-estar da sociedade.
No acervo do Memorial, que terá em sua infraestrutura livraria, lanchonete e anfiteatro, já estão disponíveis 187 obras do médium. O espaço, também terá um holograma que reproduzirá psicografias e áudios de Chico.

redacao@revistaecologico.com.br

Cristiane Mendonça | Colaboração de Luciano Lopes

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fonte: revistaecologico.com.br

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